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Discurso no jantar oferecido pelo Presidente do Chile, Ricardo Lagos - Santiago, Chile, 23 de agosto de 2004
Agradeço as palavras generosas de Vossa Excelência.
Trazem o calor de uma amizade que é pessoal, mas também retratam a fraternidade entre nossos povos. Aqui estive como dirigente de um partido e, posteriormente, como Presidente eleito. Encontrei sempre no povo chileno a mesma disposição dos brasileiros de construir o caminho do desenvolvimento com inclusão social. Reconheço no Presidente Lagos o compromisso com a grande tradição de transformação democrática que marca a sociedade chilena.
O Presidente Lagos é também um parceiro na luta pelo progresso econômico e social e pela democracia em nossa região. Estamos juntos na luta contra as injustiças do mundo de hoje. Unimos esforços no Haiti e na iniciativa para combater a fome no mundo.
Nossas afinidades também se expressam em uma parceria econômica e comercial pujante. Nossos empresários identificam novas oportunidades de investimentos. O crescimento vigoroso de nossas economias estimula a ampliação de nossa aliança.
Muitos brasileiros encontraram no Chile refúgio e liberdade na hora mais tenebrosa de nosso país.
Nossas afinidades nos convidam a continuar juntos no caminho do desenvolvimento sustentável e da justiça social.
Temos uma agenda comum. Como no Chile, aprovamos reformas que lançam bases para um novo projeto de Nação. Buscamos um modelo de desenvolvimento que reduza a vulnerabilidade externa, tenha equilíbrio macroeconômico e, sobretudo, distribua renda e riqueza. Adotamos políticas públicas integradoras e participativas, voltadas para a inclusão social de milhões de homens, mulheres e crianças.
Senhor Presidente,
Estamos convencidos de que a integração regional é resposta ao desafio de reverter o quadro de pobreza e exclusão que atinge a América do Sul. Estamos comprometidos com um ambicioso programa de infra-estrutura física para ligar nossas cidades, indústrias e oceanos. Vamos construí-lo com ferrovias e pontes, com diálogo permanente e respeito aos compromissos assumidos.
Queremos ter forte presença no mundo de hoje. Estamos convencidos de que o projeto de um MERCOSUL em expansão é fundamental para fortalecer a democracia em nosso continente. O Brasil tem consciência de suas responsabilidades na construção desse espaço integrado de paz e prosperidade. Estamos determinados a levar em conta as assimetrias no desenvolvimento de cada país de nosso bloco. A integração sul-americana não nos afasta de nossos irmãos de toda a América Latina. Ao contrário, ela reforça nossos laços de solidariedade. Estamos fazendo de nossos países interlocutores mais respeitados na diplomacia e no comércio internacional.
Em um mundo onde muitas vezes prevalece o unilateralismo dos poderosos e a indiferença dos ricos, é preciso ter a coragem de lutar por mudanças. Brasil e Chile estão convencidos de que o multilateralismo e o direito internacional são fundamentais para a paz. Para que as Nações Unidas voltem a desempenhar o papel que lhe cabe na solução de conflitos, é necessário reformá-la e corrigir o déficit de representatividade do Conselho de Segurança.
Também é nossa certeza que as mais profundas e permanentes ameaças à ordem internacional são a injustiça e o fatalismo. Não há arma de destruição em massa mais poderosa do que a fome. Mas não basta denunciar problemas e injustiças. É preciso apontar soluções. É isso que realizou o Grupo dos 20 ao traçar novos rumos para as negociações sobre agricultura na Organização Mundial do Comércio. Como conseqüência, estão fadados à extinção os bilionários subsídios dos países desenvolvidos, a começar pelos subsídios à exportação.
Na cúpula de 20 de setembro, em Nova York, vamos discutir formas eficazes e realistas de financiar a luta mundial contra a fome e a miséria. Estamos conquistando corações e mentes para enfrentar esse desafio global. Temos motivos para otimismo. O número expressivo de líderes mundiais – já são mais de 50 - que confirmaram presença mostra que a solidariedade pode vencer o conformismo e o preconceito. Podemos eliminar a pobreza e a fome. O anúncio do Presidente Lagos de que até 2007 a miséria deverá estar erradicada no Chile nos inspira a levar essa esperança para todos os povos do planeta.
Senhor Presidente,
O Chile comemora, este ano, o centenário de Pablo Neruda, o poeta maior de uma terra de poetas. Neruda inspirou gerações e enriqueceu a sensibilidade latino-americana. Nós, brasileiros – e seus amigos Jorge Amado, Vinícius de Moraes e Thiago de Mello -, aprendemos a admirá-lo porque sua poesia nos fez ir mais fundo em nossa identidade. Vossa Excelência recordou recentemente frase do grande poeta, que deveria guiar todo homem público: “Creio no realismo e no irrealismo e essas são as leis fundamentais da criação artística. Quem suprime o realismo se afasta da vida e se torna uma sombra flutuante. E o artista que se nega ao sonho e ao mistério naufraga na metade do caminho”.
Foi com esse espírito que nossos países têm aceitado tantos desafios, como o de integrar a Missão de Paz que as Nações Unidas enviaram ao Haiti. Não podíamos nos deixar acomodar pela indiferença. Era necessário pôr fim à escalada da violência naquele país. Temos de evitar que proliferem a desesperança, a revolta, a intolerância, o fanatismo, que alimentam a violência e o terrorismo.
Brasil, Chile, América do Sul, América Latina e Caribe como um todo assumiram a tarefa de encontrar soluções para os seus próprios desafios.
Nessa trajetória, devemos ser guiados pela voz da democracia e da justiça social. Devemos procurar inspiração nos grandes exemplos, como o de SalvadorAllende e tantos outros patriotas chilenos. Juntos, vamos aprender as lições de nossa história para construir um futuro melhor.
Ao agradecer, em nome de Marisa, de minha delegação e em meu próprio, à Senhora Luiza Lagos e ao Presidente Lagos, a generosa e carinhosa acolhida, convido todos a um brinde à felicidade pessoal do casal Lagos e a uma crescente e fraterna aproximação entre nossos povos.
Viva o Chile. Viva o Brasil. Muito obrigado.