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Discurso na cerimônia de inauguração do seminário “Como Fazer Negócios com o Brasil” - Santiago, Chile, 24 de agosto de 2004

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Publicado em 31/12/2025 11h22

Quero dizer a vocês que, como de hábito, não vou ler o discurso, vou ter uma conversa com vocês. Afinal de contas, nunca tive a chance de fazer um debate com os empresários chilenos. Se eu ficar de cabeça baixa, aqui, lendo o meu pronunciamento, vou sair sem perceber com quem eu conversei.

Queria dizer a vocês da alegria de estar mais uma vez no Chile. Vocês sabem que o Chile tem um significado especial para nós, brasileiros. No momento mais difícil da história política do Brasil, em que muitos jovens, homens e mulheres não puderam fazer política no Brasil, foi o Chile que abriu as suas portas, estendeu as mãos para que, aqui, os brasileiros pudessem encontrar um pouco de tranqüilidade. Está certo que não foi tão duradoura a tranqüilidade, mas não deixou de ser importante. Vocês sabem que por aqui passou o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, por aqui passou grande parte dos companheiros que hoje fazem parte do meu Governo, o meu querido Assessor Especial Marco  Aurélio Garcia, que aqui lecionou durante 3 anos, e tantos outros amigos.

Esta reunião tem uma característica muito especial para nós, brasileiros. Queria dizer ao meu querido Ministro da Fazenda do Chile que é a primeira vez na história do nosso país que fazemos uma viagem para outro país para discutir negócios e trazemos, na nossa delegação, a Receita Federal, o Ministério da Agricultura, a Anvisa, do Ministério da Saúde, o Inmetro e o INPI. Todos os setores que têm a ver, direta e indiretamente, com a nossa relação comercial, estão aqui representados. Além da nossa Embrapa, que está aqui para aprender aquilo que vocês sabem mais do que nós e para ensinar aquilo o que nós sabemos mais do que vocês.

Esta reunião é importante para mim porque permite que eu possa falar um pouco do Brasil. As coisas não estão totalmente resolvidas no Brasil. Vocês, como empresários, os brasileiros e os chilenos que têm relações com o Brasil, sabem que não é de uma hora para outra que fazemos os milagres para consertar coisas que não estavam funcionando há alguns anos.

Entretanto, demos passos importantes para que eu possa dizer hoje, na frente dos empresários brasileiros e chilenos, dos representantes do governo chileno, que o Brasil está em rota sólida de crescimento econômico e está em rota sólida para cumprir parte da dívida social acumulada durante tantos anos com o nosso povo. Vocês acompanharam o Brasil nesses últimos anos e sabem que tomamos a decisão de governo de que era preciso fazer com que o Brasil tivesse uma ação política para, a partir do MERCOSUL, reconstruir uma relação forte com a América do Sul e, a partir da América do Sul, construir uma relação forte com o resto do mundo.

Eu, nesses 19 meses de governo, já visitei, parece-me, 39 países. Já recebi, no Brasil, uma dezena de presidentes de outros países, porque aprendi, muito cedo, que quando se trata de relação comercial não podemos ficar em casa esperando que o comprador apareça para comprar. Temos que sair para vender aquilo que acreditamos que é bom. Foi por isso que tomamos a iniciativa de ter uma política internacional mais ousada e mais arrojada. Só poderíamos ter uma política comercial, uma política externa mais arrojada se consertássemos primeiro a nossa relação caseira, que era o MERCOSUL, que durante muitos anos viveu subordinado a duas moedas que não eram reais: o real nunca valeu um dólar e o peso nunca valeu um dólar. Portanto, a falta de iniciativa para mudar a política cambial no momento certo fez com que um país do tamanho do Brasil acumulasse durante muitos anos seguidos um déficit comercial quase sem precedentes na nossa história. E não foi por falta de aviso. É porque, normalmente, quando se trata de política econômica, muitos governantes não têm coragem de fazer as mudanças no tempo certo se a política econômica estiver rendendo algum dividendo eleitoral.

Pois bem. Hoje, depois de 19 meses, posso afirmar para vocês que o MERCOSUL está reconstituído. Com as fragilidades que ainda temos, com todos os problemas e as assimetrias entre as economias dos países, achamos que ele está reconstruído do ponto de vista político. Para isso, era preciso reconstruir a nossa relação com a Argentina, que durante muito tempo foi uma relação de desconfiança mútua, e, hoje, construímos essa relação e não permitiremos que um problema comercial de um ou de outro setor crie qualquer complicação na nossa relação. Se tiver um problema comercial prejudicando um setor da Argentina ou um setor do Brasil, ao invés de criar uma crise política, temos que sentar os dois setores que estão em conflito, entrar em acordo, tocar o barco para frente e continuar trabalhando e produzindo, porque os países não podem se dar ao luxo de brigar por coisas secundárias.

Estabelecemos o MERCOSUL e resolvemos partir para uma relação na América Sul. Era inconcebível imaginar que, durante 500 anos da existência do meu país, tivessemos uma relação com a América do Sul inferiorizada. A verdade é que uma parte das pessoas que governaram o Brasil nasceram e morreram olhando para a Europa e para os Estados Unidos e esqueceram de construir o alicerce que poderia dar solidez ao crescimento da economia da América do Sul. Afinal de contas, o Brasil, com a maior economia e a maior população do continente, tem que ter mais responsabilidade e gestos de abertura política, para fazer com que as coisas aconteçam. E quebrar a desconfiança é estabelecer uma relação política sem querer hegemonismo. Queremos parceria, queremos que o empresário chileno e o empresário brasileiro construam parcerias, queremos que o mercado brasileiro seja atrativo para o empresário chileno e queremos que o mercado chileno seja atrativo para o empresário brasileiro.

Queremos que seja assim com outros países da América do Sul, porque, sem que o Brasil tome iniciativas, as coisas ficam mais difíceis para acontecer. Como é que pode ter integração na América do Sul se não temos as estradas, as ferrovias, os portos e aeroportos que precisamos ter? Começamos a discutir, a partir de projetos existentes junto à CAF, a possibilidade de uma integração física entre a América do Sul, ou seja, temos uma ferrovia que liga o porto de Santos ao porto de Antofogasta. Só que essa ferrovia está deteriorada em vários lugares. Estamos consertando agora o trecho do Brasil até Corumbá. Mas é preciso fazer com que essa ferrovia volte a funcionar. A nossa estava parada há 20 anos, e o conserto dela custa apenas 80 milhões de reais, o que significa um descaso e um desprezo.

Estamos discutindo com a Bolívia não apenas como utilizar o gás da Bolívia, mas também a construção de um pólo gás-químico entre a Bolívia e o Brasil, porque precisamos contribuir para o crescimento econômico e o desenvolvimento da Bolívia. Não poderemos repetir o erro histórico de apenas utilizar o gás da Bolívia sem dar a contrapartida na ajuda ao desenvolvimento industrial daquele país.

Temos como decisão de governo ajudar, através de financiamentos do BNDES e de obras de infra-estrutura em vários países da América do Sul, para que possamos ter mais facilidade de transitar entre nós, porque senão o empresário do Equador, para ir ao Brasil, terá que ir a Miami. Se ele for a Miami, ele já faz negócio em Miami, não vai ao Brasil. Muitas vezes o empresário da África tem que ir à França para poder vir à América do Sul. Ele já faz negócio na França. Então, precisamos cuidar desse direito de ir e vir dos empresários, dos investidores, dos trabalhadores, para que possamos criar as condições de fazer com que as pessoas vejam a América do Sul.

Darei um exemplo para vocês. Inauguramos, há 15 dias, a primeira ponte entre Brasil e Bolívia em 500 anos. Uma ponte pequena, uma ponte sobre o rio Acre, uma ponte de 120 metros, mas foi a primeira em 500 anos. Estamos fazendo agora a primeira entre Brasil e Peru, para permitir que o nosso discurso de integração seja aceito pela sociedade, porque se não falamos em integração, passam-se décadas e décadas e não acontece absolutamente nada. Se o Brasil pode contribuir com o Chile na questão da política energética, não há porque não contribuir. Se a Petrobras pode contribuir com investimentos no Chile, temos que fazê-lo. Como temos que fazer em São Tomé e Príncipe, em Cabo Verde, em Angola. Ou seja, precisamos ter coragem de assumir a responsabilidade que queremos para competir em igualdade de condições com todos os investidores do mundo. Não somos nem países e nem empresários de terceira categoria. Muitas vezes, a nossa cultura fez com que nos posicionássemos como se fossemos inferiores.

Quero contar uma pequena história para vocês. Fui a Londres fazer um debate, no começo do ano passado. Disse, em Londres, que a coisa que eu mais admiro nos americanos é que os americanos pensam muito neles. Se tem uma coisa que os americanos têm de importante é que eles se respeitam. Disse que eles pensam primeiro neles, segundo neles e terceiro neles. Na arte de negociar, eles são muito duros. Não acho isso ruim. Acho isso  bom. O que eu acho é que deveríamos ser tão duros quanto eles nas negociações, porque nenhum negociador respeita alguém que vai negociar com a cabeça baixa. Ninguém respeita. Temos que nos respeitar para merecermos o respeito dos outros.

Vejam, quando digo isto, digo com respeito e carinho, porque os americanos são os nossos principais parceiros comerciais. Quando falo da União Européia, falo com respeito, porque eles são, no conjunto, hoje, até mais do que os Estados Unidos. Mas eu tenho que pensar, sobretudo, no meu país. Tenho que pensar, sobretudo, no meu continente. Tenho que brigar para defender os nossos interesses.

E vejam como as coisas evoluíram rapidamente. Vejam a evolução. Quem é, aqui nesta sala, que acreditava, há 12 meses, que o MERCOSUL pudesse juntar em torno de si todos os países da América do Sul como associados? Inclusive os países da Comunidade Andina? Parecia impossível. Era quase que impossível, do ponto de vista econômico, imaginar que o México gostaria de associar-se ao MERCOSUL. Por que isso está acontecendo? Porque quando fomos a Cancún, o Chile, o Brasil e outros países tiveram a coragem e a ousadia, nem sempre compreendidos pelos setores da imprensa do nosso continente, que diziam que tínhamos sido derrotados. Foi graças àquela reunião de Cancún, foi graças ao comportamento do governo chileno e do governo brasileiro e de outros 18 países, que conseguimos agora, em Genebra, dar os primeiros passos decisivos para o fim dos subsídios agrícolas da União Européia e dos Estados Unidos, que, quando estiver consolidado, pode significar aumento de 200 bilhões de dólares no comércio exterior, favorecendo os países em desenvolvimento. Quando o Brasil tomou a decisão de ir à

OMC brigar contra o subsídio ao algodão americano, não era apenas para o Brasil ganhar. Há países africanos cuja base de sua economia é o algodão, seu maior produto de exportação. Não era justo competir com uma economia forte como a americana, com subsídio. Era impossível. Gastamos 6 milhões de dólares com advogado, mas ganhamos.

Quando entramos na luta contra o açúcar europeu, queríamos apenas que levassem em conta igualdade na negociação. Parecia impossível. Acabamos de ganhar. Isso, obviamente, ajuda não apenas o Brasil, ajuda outros países. Mas se essas lutas entre nós trouxerem problemas, por conta do açúcar chileno ou do açúcar argentino, não temos que ver isso como um grande problema, temos que sentar em torno da mesa e ter uma política específica para os nossos países.

Vamos fazer uma coisa, meu caro Ministro da Economia, uma pequena revolução na relação internacional da América do Sul. Ano que vem vamos ter, no começo do ano, uma reunião de todos os presidentes dos países árabes com os presidentes da América do Sul, ou seja, temos a obrigação de convencê-los de que eles podem olhar um pouco para a América do Sul. Aqui há paz, não há guerra; eles podem aportar um pouco do seu capital em investimentos na América do Sul: em turismo, em ferrovia, em energia, em gasoduto, ou seja, naquilo que eles quiserem. Só vai depender da nossa capacidade de vender as coisas boas que temos, porque quando um negociador de um outro país vai atuar, ele não vai falar bem do Chile, não vai falar bem do Brasil, afinal de contas, ele quer ganhar o mercado. Ele vai falar bem dele. Nós é que temos que falar bem de nós mesmos.

Por isso, procuramos fazer com que a política externa, não apenas para o Brasil, mas para a América do Sul, seja mais plural, que se abra um leque de países negociadores. Por quê? Porque não ficamos dependentes apenas de uma força comercial. Vocês, homens de negócios, sabem que, toda vez que dependemos apenas de um comprador do meu produto, ficamos vulneráveis. Ficarei mais forte quando o principal comprador do meu produto perceber que tem um outro comprando quase igual a ele. Se eu não vender para ele, venderei para outro. Foi por isso que visitamos tantos países.

Reforçamos a nossa relação com a Índia, com a África do Sul, com a China, com vários países africanos, porque nós queremos estabelecer uma política de complementaridade. O que podemos fazer para nos ajudar mutuamente? Por exemplo, não exportamos apenas soja para a China. A China nos empresta o conhecimento que tem no lançamento de foguetes, de satélites, e levamos para a China a nossa tecnologia na construção de aviões. Isso pode ser feito com cada país, acenando quais são as políticas de complementaridade que podem ir fortalecendo a relação Brasil-Chile. O que podemos fazer para nos ajudar mutuamente? O que o Chile tem que o Brasil não tem? O que o Brasil tem que o Chile não tem? Não falaremos de futebol, aqui, nesta reunião, mas vocês podem falar de tênis porque ganharam duas medalhas de ouro. Mas temos muita coisa para avançarmos. Passamos muito tempo com a nossa ação truncada, muito subordinada a um ou a outro bloco. Mas agora temos que crescer e nos ajudar mutuamente. É com este espírito que eu sinto orgulho de estar no Chile, de ter participado de tantas reuniões com o Presidente Lagos e de poder estar aqui com os empresários chilenos.

No mês passado, fui aos Estados Unidos fazer um debate com investidores. Eu estava preocupado por causa do risco-Brasil. Vocês sabem que, quando ganhamos as eleições, o risco-Brasil estava em 2 mil e 400 pontos. Agora está em 500 pontos. Mesmo assim, fico me perguntando: que risco? Não temos terremoto, vulcão, guerrilhas, maremoto, neve, muito menos guerra. Ou seja, onde está o risco?

Bem, acho que essas empresas, na medida em que vão percebendo o comportamento dos governantes, vão percebendo que há seriedade. E fizemos a combinação de uma política fiscal dura, para não gastarmos mais do que a gente arrecada. Quero dizer a vocês, com todo o carinho, que não aprendemos isso apenas na universidade, aprendemos dentro da casa da gente. Sou filho de uma mulher que morreu aos 64 anos, analfabeta, mas que nunca fez uma dívida que não pudesse pagar.

Ela morreu sem ter um televisor, porque achava que não podia pagar e não faria dívidas. Para governar é a mesma coisa. Você só pode endividar-se até onde pode pagar. Se você não pode pagar, pare, porque senão você vai deixar para um outro. É preciso ter responsabilidade nisso, porque você não está lidando com o seu dinheiro.

Nós, no Brasil, tomamos essa atitude. A atitude de fazermos todas as reformas no primeiro ano de governo. Vocês sabem que não foi fácil, porque aqui foi feita reforma na Previdência. Apesar das brigas que eu tive com os meus companheiros, que são da minha origem, fizemos a reforma da Previdência porque era preciso fazer. Fizemos a reforma tributária porque era preciso fazer.

A Ministra Dilma vai falar sobre o marco regulatório do setor energético, que foi unanimidade entre os empresários. Vamos fazer o marco regulatório do saneamento básico. Mandamos projeto de Parceria Público-Privada para o Congresso Nacional, porque queremos não apenas que a economia brasileira seja aberta, queremos que ela seja aberta de forma responsável, sem destruir a seriedade da relação que temos que ter com os nossos parceiros.

É por isso que quero terminar dizendo aos empresários brasileiros e aos empresários chilenos: vocês não têm que ter medo de serem grandes; vocês não têm que ter medo de virarem empresários multinacionais; aliás, acho que seremos mais fortes e mais respeitados no mundo dos negócios na hora em que tivermos muitas empresas multinacionais andando pelo mundo afora.

É com este desejo que quero me despedir de vocês, porque tenho outro compromisso agora com o Presidente Lagos. Quero dizer a vocês que acreditem que, no Brasil, não vamos fazer brincadeiras com a economia. O povo brasileiro já perdeu muito, o povo brasileiro já perdeu demais. Digo sempre que, possivelmente, eu seja o único presidente do meu país que não tem o direito de errar. Porque todo mundo entra, erra, vai embora e não acontece nada.

Acontece que, a hora em que deixar o governo, voltarei para minha casa, a 600 metros do sindicato onde fui presidente, que é o sindicato mais organizado do país, com quem mantenho vínculo até hoje. E se tem uma conquista que quero ter quando deixar o meu governo, é poder olhar os empresários brasileiros, é poder olhar os trabalhadores brasileiros de cabeça erguida, dizendo para eles: posso não ter feito tudo, mas, certamente, fiz o máximo que o mandato de um presidente permite que eu faça.

É com essa seriedade que nós, do Brasil, queremos aperfeiçoar as relações com os empresários chilenos, com o governo chileno e com a sociedade chilena.

Muito obrigado e boa sorte para vocês.

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