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Discurso durante visita ao Parlamento japonês - 26 de maio de 2005
É uma honra muito especial poder me dirigir aos representantes eleitos do povo japonês. Desta Casa emanaram decisões que construíram a sólida democracia e vibrante sociedade que é o Japão de hoje.
Como ex-deputado, sinto-me, aqui, entre companheiros.
Minha experiência parlamentar ensinou-me o papel decisivo do Poder Legislativo na concretização de nossas aspirações e sonhos. Aprendi que é no contato pessoal, na conversa franca, olhando olho no olho, que temos condições de superar diferenças e preconceitos.
Aqui, no Parlamento, construímos consensos, damos forma e expressão à vontade coletiva.
Foi a confiança na capacidade das instituições democráticas de canalizar demandas da sociedade que me levou, quando ainda era um dirigente sindical, a fundar o Partido dos Trabalhadores.
Senhoras e Senhores parlamentares,
Volto ao Japão após trinta anos. Em 1975, aqui estive a convite dos trabalhadores japoneses. Venho a este Parlamento manifestar a determinação do Brasil de renovar uma parceria que forjamos há quase cem anos, quando os primeiros japoneses chegaram ao Brasil.
Aprendemos a admirar, no povo japonês e nos imigrantes que foram para o Brasil, a perseverança diante da adversidade, a determinação em avançar, o espírito de solidariedade comunitária.
Temos motivos para voltar a crer na promessa que levou os primeiros imigrantes japoneses ao Brasil a bordo do Kasato Marú, em 1908.
O nosso otimismo é o mesmo que levou os investimentos do Japão no Brasil, desde a década de 60, a se confundirem com a própria história de modernização e industrialização do país. Hoje, o Brasil colhe os frutos dessa cooperação.
Minha visita coincide com uma forte retomada do dinamismo econômico em nossos dois países. A determinação japonesa, que superou a crise dos anos 90, é a mesma que reergueu uma nação devastada pela guerra e que produziu o extraordinário desenvolvimento tecnológico que fez do Japão a segunda potência econômica mundial.
O Brasil também está voltando a crescer. Estamos reencontrando o caminho do desenvolvimento, de forma sustentável e com justiça social.
O programa Fome Zero hoje já beneficia quase oito milhões de famílias. Criamos quase três milhões de novos empregos formais desde o início de meu governo. Estamos colhendo os frutos de uma política econômica consistente e responsável.
Queremos criar bases sólidas de um crescimento sustentável para os próximos vinte anos. Saneamos as contas públicas; aprimoramos o marco regulatório; aumentamos extraordinariamente as nossas exportações; reduzimos a vulnerabilidade externa; estamos superando as históricas
desigualdades sociais que ainda retardam nosso avanço.
No caso do Brasil, como no do Japão, as transformações estruturais corajosamente aprovadas pelos Parlamentos de nossos países foram determinantes para esses avanços. Apenas reformas emanadas em um ambiente democrático, de livre discussão, são verdadeira-mente duradouras. Os Parlamentos têm papel fundamental e insubstituível nessa procura pelo atendimento dos anseios populares.
A presença do ex-Primeiro Ministro Ryutaro Hashimoto à frente da Liga Parlamentar de Amizade Nipo-Brasileira é uma garantia de que saberemos também transformar nossa agenda bilateral.
Quero prestar uma homenagem ao presidente da seção brasileira, Deputado Paulo Kobayashi, falecido recentemente. Sentimos sua ausência no momento em que estamos alcançando alguns dos objetivos por que tanto lutou.
Queremos voltar a ser o destino preferencial dos empreendimentos japoneses.
Pretendemos que o Brasil volte a ser referência prioritária para os investimentos japoneses. Nessa nova fase de nossa histórica associação, queremos que o Japão veja o Brasil não apenas como fornecedor de matérias-primas, mas como um produtor eficiente de produtos de valor agregado. Cada vez mais, o Brasil deseja ser um exportador de aviões, software e energia limpa. A soja, que fez do Brasil um grande exportador agrícola, foi primeiro semeada no projeto de irrigação do cerrado com apoio técnico do Japão.
Hoje, desejamos reeditar essa experiência com outro projeto voltado para a exploração das ricas potencialidades da terra brasileira. O emprego do etanol como aditivo à gasolina permitirá ao Japão alcançar a redução de emissão de gases acordada no Protocolo de Kioto e, ao mesmo tempo, diversificar sua matriz energética.
O memorando em matéria de ciência e tecnologia, oferece oportunidade para aprofundarmos nossa cooperação também em outras áreas estratégicas, como a biotecnologia, a biomassa e tecnologias ambientais.
O Conselho Brasil-Japão para o Século XXI, que estamos inaugurando proximamente, oferecerá valiosas recomendações sobre o caminho a seguir nesse e em outros campos de colaboração.
A presença do Deputado Kawamura – amigo do Brasil e da comunidade brasileira - na Presidência do lado japonês reforça nossa confiança no muito que poderemos realizar juntos.
Senhores e Senhoras,
A parceria entre Brasil e Japão tem uma vocação global. Apostamos no multilateralismo como a língua do diálogo e da cooperação solidária.
É necessário promover a equidade em um sistema multilateral de comércio profundamente marcado por assimetrias e distorções.
Contamos com o apoio do Japão, no âmbito da Rodada de Doha, para transformar uma ordem econômica muitas vezes adversa às legítimas aspirações dos países em desenvolvimento.
Não queremos esperar décadas para ter outra chance de liberalizar o comércio mundial, incorporando plenamente a agricultura ao sistema multilateral de comércio e promovendo uma globalização mais eqüitativa.
No âmbito regional, o Mercosul vive um momento de grande dinamismo. Incorporamos três novos Estados associados: Venezuela, Equador e Colômbia, e, um ano antes, o Peru. Chile e Bolívia já eram associados ao Mercosul, que hoje praticamente abarca a totalidade da América do Sul numa ampla área de livre comércio.
Essas ações, juntamente com projetos de integração física, impulsionados pela forte vontade política dos governantes da região é que possibilitaram a criação da Comunidade Sul- Americana de Nações. E avançam múltiplas negociações de liberalização comercial com a União Européia, a Índia, a União Aduaneira da África Austral e o Caribe.
Senhoras e Senhores Parlamentares,
Renunciamos à força devastadora das armas de destruição em massa. Nossas constituições rechaçam a lógica insana do terror e da ameaça de aniquilamento mútuo.
Precisamos reequilibrar a agenda internacional, colocando em destaque a relação entre segurança e desenvolvimento e a prioridade que devemos dar à erradicação da pobreza e da fome.
A presença de mais de 50 líderes ao encontro de Nova York, em setembro de 2004, demonstra que o mundo está entendendo a mensagem. São esses os princípios que orientam nossa atuação nas Nações Unidas. Queremos democratizar as Nações Unidas. Isso passa pelo reforço da Assembléia-Geral e do ECOSOC. Passa também por uma reforma do Conselho de Segurança que o torne mais representativo e eficaz.
Todos devem compreender que um Conselho de Segurança que não reflita as atuais realidades e não assegure representação adequada a países em desenvolvimento dentre seus membros permanentes, terá sua legitimidade contestada em detrimento do multilateralismo que queremos reforçar.
É natural que o Brasil e o Japão se apóiem mutuamente nesse processo inadiável de atualização das instituições das Nações Unidas às exigências do mundo contemporâneo.
Saudamos também o empenho do governo do Primeiro Ministro Koizumi em ajudar a reduzir as tensões na Península Coreana.
Somente por meio do diálogo e do engajamento construtivo se alcançará a reconciliação do povo coreano e a pacificação definitiva da região. O Brasil tem igualmente procurado dar a sua contribuição à paz e à harmonia, especialmente em nossa região.
Nossa atuação pauta-se, como sempre, pelos princípios da auto-determinação e da não- intervenção, bases de um sistema internacional juridicamente sólido.
Mas temos igualmente sabido combinar a adesão a esses princípios a uma atitude de cooperação ativa sempre que solicitados e quando julgamos que podemos desempenhar um papel verdadeiramente útil.
O Brasil e seus vizinhos sul-americanos também apostam em soluções consensuais e democráticas para garantir a integração, estabilidade regional e o diálogo entre diferentes culturas e regiões do mundo.
Foi com essa convicção que realizamos, este mês, em Brasília, a Primeira Cúpula América do Sul – Países Árabes. Nesse verdadeiro parlamento internacional, lançamos as bases de uma cooperação efetiva entre países distantes que só se olhavam através da percepção recebida de fora. São essas nossas armas na construção de um mundo de paz, segurança e prosperidade.
Senhores e Senhoras,
Diálogo franco e cooperação solidária são os valores que me trouxeram a Tóquio e que fundam os laços de sangue e de história que unem nossos povos.
Uma união antiga, que remonta à presença, no Brasil, de uma expressiva e laboriosa colônia japonesa – a maior do mundo. Durante minha estada no Japão, estarei visitando a comunidade brasileira em Nagóia.
Quero agradecer à Dieta o apoio que vem prestando para que a comunidade brasileira possa beneficiar-se da mesma oportunidade de integrar-se à sociedade japonesa que os imigrantes japoneses tiveram no Brasil.
As medidas de apoio a esses brasileiros, sobretudo no campo da Educação, Saúde e Previdência Social, lhes permitirão construir um futuro melhor, seja aqui ou no Brasil.
Estou seguro de que essa comunidade está construindo um novo capítulo na história de amizade e solidariedade entre japoneses e brasileiros.
Em 2008, iremos festejar o centenário desse ir e vir incessante de pessoas e de idéias entre nossos países. Vamos lembrar as duas vertentes desse fluxo humano, primeiro do Japão para o Brasil e, depois, do Brasil para o Japão.
Vamos celebrar a saga daqueles que construíram uma ponte de amizade que cruza oceanos, aproxima culturas e atravessa séculos.
Conheço bem o sentimento, ao mesmo tempo de incerteza e de expectativa dessa travessia. Eu mesmo percorri caminho semelhante, ao deixar, ainda menino, o lar e a vizinhança conhecidos em busca do sonho da prosperidade.
Solidariedade e cooperação na diversidade são os valores que nos uniram no passado. Devem ser os mesmos princípios a nos guiar no momento em que estamos relançando a parceria entre nossos povos.
Muito obrigado.