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Declaração à Imprensa feita por ocasião de cerimônia de assinatura de Acordos - Santiago, Chile, em 23 de agosto de 2004
Primeiro, Brasil e Chile, hoje, estão comemorando as medalhas que ganhamos ontem. O Brasil, por enquanto, só ganhou uma, mas a perspectiva de ganhar outras é bastante grande. Mas fiquei feliz porque, sabendo que é a primeira medalha de ouro que o Chile ganha, fico imaginando a alegria que está estampada na fisionomia da família chilena. Houve um tempo, Presidente Lagos, que no Brasil, no tempo mais duro do regime militar, muitas vezes a gente falava de futebol, falava de esporte, e o pessoal mais engajado ideologicamente não queria nem falar de esporte, diziam que o esporte era o ópio do povo. Sempre fui muito fanático pelo esporte. Fico, então, imaginando o que significa para um país da América do Sul, para um país com a história ea tradição de luta democrática do Chile ter, num único dia, ganho duas medalhas de ouro. Penso que, ao invés de o esporte ser o ópio do povo, o esporte é, na verdade, a alegria, eu diria, de todos os povos do mundo, porque duvido que tenha um ser humano que não goste de alguma prática esportiva.
Por isso, queria começar dando os parabéns ao povo chileno e aos esportistas chilenos, numa área em que o Brasil é bom, mas que não teve sorte este ano. Fica para a próxima. Mas, não tendo sido um brasileiro, mas um chileno, sinto-me como se tivéssemos ganho essa medalha também.Até porque ela vai passar muito próxima do Brasil, quando os atletas voltarem para o Chile.
Mas, Presidente Lagos, quero reiterar minha satisfação por estar no Chile e reencontrá-lo, uma pessoa a quem sempre admirei como pessoa e como político. É sempre importante lembrar que admiramos mais a pessoa quando a conhecemos não sendo governo. Tive a oportunidade de conhecer o Presidente Lagos quando ele não era governo.
Temos uma amizade que está à altura das relações de respeito e colaboração entre Brasil e Chile. Hoje, tivemos conversações muito proveitosas. Como sempre acontece quando encontro o Presidente Lagos, examinamos, com abertura e franqueza, os temas que interessam a nossos países. Ele é meu interlocutor freqüente sobre questões internacionais.
E, aqui, cabe um parêntese importante, para dizer a meus amigos do Brasil e a meus amigos do Chile: penso que poucos presidentes têm tido a preocupação de, a cada vez que vai viajar para algum lugar, conversar com outros presidentes, como o Presidente Lagos tem feito. Penso que, pela seriedade, pela representatividade e pela sua história de vida, todos nós, os presidentes mais novos aqui na América do Sul e, sobretudo, no meu caso, sempre gostamos de conversar com o Presidente Lagos e saber o que ele pensa sobre muitas das coisas que vamos fazer no campo internacional. Espero que continue com essa disposição por muito e muito tempo.
Estamos vivendo momento excelente nas relações entre o Brasil e o Chile. Nossa afinidade e sintonia de valores tem nos permitido trabalhar juntos em muitas iniciativas conjuntas, como a iniciativa do controle da fome, que pretendemos, com esse grande movimento do dia 20 de setembro, dar um passo adiante.
Estou certo de que os reconhecidos êxitos do Chile em combater a pobreza serão um trunfo para o objetivo de projetar internacionalmente nossa luta pela eqüidade social.
Outro exemplo eloqüente foi sua decisão no Conselho de Segurança – amplamente aplaudida na América Latina – de não endossar a invasão norte- americana do Iraque. Aí, é importante ver a diferença. Com a mesma força que o Presidente Lagos, falando em nome do povo do Chile, disse “não” às tropas ao Iraque, ao Conselho de Segurança ele disse “sim”, quando a causa era paz, para mandar tropas ao Haiti. Tropa essa que trabalha junto com a nossa, sob a coordenação civil de um chileno, sob a coordenação militar de um brasileiro. Penso que juntos, Presidente, poderemos fazer muita coisa para ajudar o povo e a democracia do Haiti.
A Missão da ONU é dirigida por um grande diplomata chileno e é comandada militarmente por um general brasileiro. Essa parceria sublinha a importância de uma reforma da ONU, que a torne mais representativa das realidades atuais. Suas instituições, o Conselho de Segurança, em particular, precisam agir com legitimidade e credibilidade. Por isso quero, aqui, agradecer mais uma vez as palavras do Presidente Lagos com relação ao pleito do Brasil em querer ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, reconhecendo como legítima a reivindicação brasileira.
Discutimos, ainda, como aperfeiçoar nossa parceria também no campo do comércio global. Examinamos, especificamente, uma estratégia de ação para o G-20, à luz das importantes vitórias que os países em desenvolvimento conquistaram recentemente em temas agrícolas. Falamos muito de nosso continente, da Comunidade Sul-Americana de Nações que vai se formando por meio de acordos comerciais e da integração física, bem como dos crescentes contatos políticos entre os líderes de nossos países. O Chile tem um papel fundamental em nosso projeto de uma América do Sul integrada. Cada um de nós tem um papel nesse processo, que vai sendo definido de maneira democrática e aberta.
Contamos com a experiência e clareza de visão do Presidente Lagos para ajudar nossos países e nossa região a encontrar respostas aos desafios que temos pela frente. A Declaração Conjunta que acabamos de assinar repassa em detalhe os pontos que abordei. Reafirma os valores e propósitos que nos unem, como a paz, a estabilidade democrática, o desenvolvimento com eqüidade e a promoção dos direitos humanos.
Para aperfeiçoar ainda mais nossa cooperação, firmamos um Plano de Ação que articula de maneira muito concreta e específica uma pauta de trabalho conjunto. O Plano reflete a visão estratégica e ao mesmo tempo prática que damos à nossa parceria.
Os três acordos que assinamos, nas áreas social, de promoção comercial e agrícola, ajudam a ilustrar o sentido dessa parceria.
A área social é uma prioridade absoluta. As políticas sociais que estamos implementando, como o programa Fome Zero e o Bolsa Família, estão ajudando a mudar a cara do Brasil. Sabemos que o Chile possui iniciativas sociais de grande sucesso, como o programa Chile Solidário. Estou seguro de que a troca regular de experiências que vamos iniciar enriquecerá ainda mais a eficácia desses programas.
Nosso comércio bilateral é hoje de 2,7 bilhões de dólares anuais e segue crescendo. Os empresários chilenos confiam no Brasil e possuem mais de 4 bilhões de dólares investidos em nosso país. Empresas brasileiras também começam a buscar parcerias com sócios chilenos em setores onde há fortes complementaridades. Com o memorando de entendimento em promoção comercial que estamos assinando, vamos aproveitar as amplas oportunidades para estimular novas parcerias comerciais.
O acordo entre a Embrapa e o INIA aprofunda a cooperação na área agrícola. Essas duas instituições de excelência vão colaborar em pesquisa científica e tecnológica em setor fundamental para o crescimento de nossas economias. Queremos, cada vez mais, que nossa competência em setores tecnológicos de ponta, como o da biogenética, sejam a ponta de lança de nossa presença comercial internacional.
Por isso, estou realmente muito feliz de voltar ao Chile. O Presidente Lagos esteve no Brasil no ano passado e, agora, me recebe com muita amizade. Estamos trabalhando na mesma direção. Temos um longo caminho para alcançar uma verdadeira justiça social em nossos países e criar um mundo mais solidário.
As reuniões com o Presidente Lagos, como as que tenho mantido com outros líderes, me dão alento, me dão ânimo, porque sei que tenho nele um grande companheiro e que o Brasil tem no Chile um parceiro permanente.
Muito obrigado mais uma vez, Presidente Lagos.