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Discurso por ocasião de sua chegada ao Uruguai - Aeroporto Internacional de Carrasco, Montevidéu, Uruguai, 12 de agosto de 1985
Agradeço as calorosas palavras de Vossa Excelência. Elas refletem a generosidade do povo uruguaio e a bondade de seu ilustre Presidente. Esta minha viagem não é um simples dever diplomático — é uma visita de amizade, uma vontade política de estreitar laços históricos, de trazer em nome da gente do Brasil os nossos sentimentos de estima e afeto, de simpatia ao Uruguai, neste momento em que voltam os ventos da liberdade, e a Nação tem à frente de seu governo o Doutor Júlio Maria Sanguinetti, homem de extraordinárias qualidades e de fina sensibilidade cultural, presidindo a uma missão desafiadora e fascinante: consolidar o poder político, que é a síntese de todos os poderes. Nós no Brasil vivemos o mesmo instante. Com as mesmas esperanças e as mesmas dificuldades. Agora, apertemos nossas mãos e vamos pensar juntos na procura de soluções para os problemas comuns.
Esta é a primeira viagem que faço ao Exterior depois de assumir a Presidência da República. Escolhi o Uruguai para marcar meu desejo de uma política externa que tem como prioridade a América Latina, a começar pelo país irmão do Uruguai, mostrando que não são interesses que nos movem os pés de caminhar, mas os altos ideais da Nova República, que o Brasil inaugurou. Aqui não estamos na busca de nenhuma política hegemônica ou soluções de querelas que não temos. Estamos para falar da cooperação e da solidariedade. Brasileiros e uruguaios têm mais de século e meio de história, unidos mais hoje do que ontem no desejo de consolidar a democracia e resolver os graves problemas do desenvolvimento e do bem-estar. Como latino-americanos, temos de ser irmãos unidos e proclamar alto e firme que a América Latina não pode abrir mão do desenvolvimento em nome de teorias abstratas que nos condenam à estagnação. Só o crescimento vai permitir a abertura de horizontes de esperanças para vencer a miséria que ameaça a democracia recém-conquistada.
É um elo poderoso construído pelos nossos povos nas praças públicas e nos corações, nas lutas pelos direitos individuais e pelas liberdades civis. A fraterna acolhida com que somos recebidos, minha mulher, minha comitiva e eu mesmo, é expressiva de uma nova etapa de nosso relacionamento. Parceiro do Brasil nesta etapa histórica que vivemos, o Uruguai não podia deixar de figurar entre os países que maior interesse e atenção despertam em nosso Pais. O gesto de Vossa Excelência, Senhor Presidente, de comparecer pessoalmente à posse Presidencial em Brasília e ali retornar para juntar-se à dor dos brasileiros pela perda do saudoso Presidente Tancredo Neves, sensibilizou-nos profundamente e demonstrou, com a força da emoção, o afeto crescente que une nossos povos.
Senhor Presidente,
Chego ao Uruguai em meio a uma conjuntura especialmente adversa para nossos países. Este fato não faz com que o desalento seja parte de nosso encontro. Temos certeza de que venceremos todas as dificuldades. Nossos povos não existem para o lamento, mas para a construção. As dificuldades têm a contrapartida de aumentar as áreas de coincidência e afinidade e de valorizar o intercâmbio de experiências e o diálogo político. Nunca antes a unidade da América Latina se externou, de forma tão determinada, em aspirações comuns e ações concretas para defender nossos interesses. Nosso Continente, unido, toma consciência dos seus interesses e do seu destino. Nossa democracia não é um fim em si mesma, nem uma conquista definitiva. Ela é um instrumento das aspirações dos nossos povos, para reconciliar o Estado e a sociedade civil. Um esforço permanente de aprimoramento, em busca de uma plenitude democrática que não se esgota nas liberdades individuais mas que seja a liberdade contra todas as opressões, sendo as maiores delas a pobreza e a dependência.
Senhor Presidente,
O Uruguai é um dos mais importantes parceiros do Brasil. São eloqüentes, a esse propósito, não apenas as cifras do comércio bilateral, mas também os numerosos acordos que moldam nossas relações bilaterais e o intercâmbio nas mais variadas áreas da atividade humana. O fraterno convívio de nossas populações na faixa de fronteira simboliza essa grande integração entre os dois países.
Senhor Presidente, Trago aos uruguaios a palavra de um novo Brasil. Começo pelo Uruguai, Senhor Presidente, uma caminhada. Que todas as nações saibam que nós da América Latina não desejamos ser tema e devaneio retórico para protelar conquistas no campo internacional. Juntos, Uruguai e Brasil, viram nascer as bandeiras da liberdade. Juntos vamos lutar pelo bem-estar de nossos povos. Nada melhor neste instante, ao apertar suas mãos, amigos uruguaios, nas saudações de chegada, do que exaltar aquilo que é a essência do seu hino, a liberdade e a pátria: Ia Pátria o Ia tumba; libertad, o con gloria morir.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)