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Discurso por ocasião da recepção do Título de Doutor Honoris Causa da Universidade Lomonosov - Moscou, URSS - 18 de outubro de 1988
Com emoção e grande honra recebo a mais alta distinção da Universidade Estatal de Moscou. Ao agradecer o título de Doutor Honoris Causa, presto, em nome de todos os brasileiros, homenagem a esta .prestigiosa instituição, fundada por iniciativa de Lomonosov, em 1755. Mikhail Vassüievitch Lomonosov, cientista e grande pensador, contribuiu de forma genial para o estudo das ciências naturais na Rússia, lançou as bases da literatura russa contemporânea e defendeu ardentemente o avanço da educação nacional. Até o fim da vida, ativo na academia de Petersburgo, Lomonosov enriqueceu com suas descobertas o patrimônio cultural e colocou-se na vanguarda da tarefa de modernização do país. Os desafios enfrentados por Lomonosov foram, em muitos sentidos, comparáveis aos que o mundo contemporâneo tem de vencer.
A ciência e a cultura, sem mais demoras, devem ser postas a serviço da paz. É indispensável criar condições para que se superem as fronteiras da miséria e das desigualdades nas nações mais pobres. A nova ordem internacional deve ser mais justa e harmoniosa. Nessa tarefa de construção de um novo mundo, países como o Brasil e a União Soviética podem dar-se as mãos, livres de preconceitos antigos ou de desconfianças anacrônicas. Nossos países podem participar do lançamento das bases de um novo modelo de atuação em prol da paz, do desenvolvimento e da justiça internacional. Não há obstáculos para que Estados de diferentes regimes políticos busquem fórmulas próprias e criativas de trabalho conjunto. O respeito mútuo e a amizade permitirão ampliar de forma sem precedentes os contatos bilaterais. O Brasil e a União Soviética devem fazer das dessemelhanças um estímulo, apoiando-se no conhecimento recíproco de seus povos e no tratamento objetivo da realidade para formular sua plataforma comum de cooperação. O mundo passa por profundas e rápidas transformações políticas e econômicas. Os países em desenvolvimento, sobretudo os mais pobres dentre eles, correm o risco de ser permanentemente alienados da revolução científica. É essencial que a realidade internacional não se fragmente em blocos tecnológicos estanques. Segue presente a ameaça de que se cristalizem bolsões de riqueza, fechados ao Terceiro Mundo. E não cessa de aumentar o hiato entre as nações industrializadas e as demais.
Como Presidente do Brasil, bem conheço as dificuldades para promover a justa distribuição de riqueza e o desenvolvimento homogêneo de um país. Venho de uma das regiões brasileiras mais pobres e castigadas. O Brasil tem uma geografia de amostragens opostas, em que contrastam a opulência e a pobreza, o árido e o fértil, a seca e a inundação. Como nação latino-americana sentimo-nos ameaçados pela virulência dos problemas econômicos atuais e pela vulnerabilidade a que nos expõe a crise do endividamento externo. Ao assumir o Governo, em 1985, anunciei um extenso programa de trabalho, cujos elementos centrais são o desenvolvimento, a justiça social, a identidade cultural brasileira e a liberdade. A promulgação da nova Constituição do Brasil anuncia a vigência no País de um regime plenamente democrático e resgata, no plano político, uma das hipotecas que meu Governo havia herdado. A reforma interna, por sua vez, vincula-se organicamente à abertura de novos canais de expressão e de diálogo junto à comunidade internacional. Uma cultura universal está em gestação. As relações interestatais têm de ser reforçadas por mecanismos criativos de interação entre os povos e entre os cidadãos. Os contatos diretos são essenciais para compreender a gênese política e social das mudanças em curso. A distância entre a União Soviética e o Brasil será menor à medida que nossos escritores se conheçam, que os artistas se sensibilizem mutuamente, que nossas culturas alimentem a compreensão recíproca.
Recordo uma vez ter sido dito que aos poetas cabia a missão de sonhar o futuro, de imaginar um novo mundo de paz e liberdade. As conquistas de nosso tempo, em especial as da ciência e da técnica, não terão valor se não puderem ativar uma visão humanitarista do Universo. O desarmamento, nuclear e convencional, é uma das prioridades de nosso tempo. O homem não pode ser reduzido à variável incógnita de uma equação perversa, em que a única certeza esteja na força dos mísseis e das ogivas nucleares. A paz certamente não existirá se formos impassíveis diante das desigualdades que hoje brutalmente dividem o mundo entre ricos e pobres, se não garantirmos a democracia e a liberdade.
A estabilidade passa pela completa reformulação da ordem econômica internacional. A arquitetura de um novo mundo, mais justo e igual, terá de fundamentar-se na circulação de idéias e na transparência cultural, na libertação do homem de todas as formas de violência e de agressões a seus direitos básicos. O Brasil manifesta sua firme adesão aos ideais e objetivos da declaração dos direitos humanos, que ora completa quarenta anos. A intensificação dos laços culturais é uma das avenidas para aproximar os países e facilitar a interação positiva entre suas forças políticas e sociais. A Universidade de Moscou concentra recursos de valor único no campo cio saber humano. Com 15 faculdades, 280 cátedras, 360 laboratórios, 4 institutos de pesquisa científica, mais de 10 mil professores e cientistas e cerca de 27 mil alunos, é a Universidade, por todos os títulos, o núcleo catalisador do desenvolvimento cultural, científico e tecnológico da União Soviética. Em todas as áreas, alunos graduados nesta Instituição ajudaram a colocar o país na trilha do progresso econômico e do engrandecimento cultural. A mensagem humana das obras de Chekhov, a revolução na teoria da avaliação e da aerodinâmica com Jhukovski, o talento do grande artista lírico Sobinov, a liderança social e progressista de Guertzen, a música de Spendiarov e Rubinschtein são alguns poucos exemplos da dimensão universal do conhecimento gerado neste centro de ensino. A Universidade de Moscou pode e deve contribuir para que o Brasil e a União Soviética acelerem o entendimento mútuo na área acadêmica.
Neste momento, a exposição sobre a expedição Langsdorff visita o Brasil e suscita grande interesse. Nos sete mil e quinhentos quilômetros percorridos entre 1821 e 1829, os pesquisadores que acompanhavam o Cônsul-geral da Rússia imperial no Rio de Janeiro recolheram material de valor inestimável para o conhecimento de regiões inexploradas do Brasil no século XI. Langsdorff investigou livremente e catalogou riquezas naturais no território brasileiro, com o apoio da Academia de Ciências de Petersburgo. Ele foi, em certa medida, o pioneiro dos contatos científicos entre os dois países. A celebração dos 160 anos de nascimento de Tolstói é um acontecimento, um marco da cultura mundial. Lido em todo o mundo, Tolstói é um patrimônio de todas as línguas. Nós do Brasil temos na nossa formação a iniciação ao conhecimento da vida, dos costumes e do pensamento russo na obra do grande escritor. Novas iniciativas, científicas e culturais, darão forte impulso aos laços bilaterais. O acordo espacial ampliará os horizontes de cooperação com fins pacíficos em setores de tecnologia de ponta. A implementação do acordo de cooperação cultural, por sua vez, tende a fortalecer os intercâmbios ainda incipientes entre nossas sociedades. O Brasil hoje sente maduro o momento para ampliar sua presença na União Soviética, conhecer a riqueza de sua cultura e para partilhar do manancial de conhecimentos deste grande país. Brasileiros e soviéticos precisam encontrar-se com maior freqüência, debater francamente suas aspirações, trabalhar juntos para que seus países dêem passos firmes em direção a um novo patamar de relacionamento. Ao receber hoje a alta distinção acadêmica da Universidade de Moscou, quero, neste tradicional e dos mais avançados centros de excelência e cultura do mundo, homenagear os jovens da União Soviética, os professores, os cientistas, os técnicos, herdeiros da história de um grande povo escrita em páginas de heroísmo e audácia, de resistência e de afirmação nacional. Quero ainda louvar suas conquistas do presente, no terreno das idéias políticas, das conquistas científicas e tecnológicas, no mundo fantástico das letras e das artes. E trazer, para deixar com minha gratidão, a homenagem do povo brasileiro, irmão na aventura do homem e na busca de um mundo de paz e de bem-estar. Sei que esta solenidade não me pertence: é um elo marcante na amizade entre o Brasil e a União Soviética.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)