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Discurso no recebimento das chaves da cidade - Quito, Equador - 25 de outubro de 1989
É com grande e sincera emoção que expresso a Vossa Excelência meus agradecimentos pela honrosa homenagem que aqui recebo. As chaves desta hospitaleira e bela São Francisco de Quito, berço desta valorosa nação, simbolizam a amizade fraterna que une brasileiros e equatorianos. É fascinante percorrer as velhas ruas, praças, ladeiras desta cidade quatro vezes centenária, onde aflora o testemunho silencioso da fidelidade de um povo a seu passado, rico e glorioso. Impressionam a beleza, a opulência dos templos quitenhos: a catedral, as igrejas, os mosteiros, os conventos, as capelas — monumentos que encerram tesouros deslumbrantes do gênio barroco. A sinuosa majestade das montanhas, a grandiosidade austera do Cotopaxi e suas neves eternas permitem decifrar a imagem do poeta, para quem Quito é a «capital das nuvens». Rendo aqui tributo ao nobre povo desta cidade. Aos seus filhos mais ilustres. A Eugênio de Santa Cruz y Espejo, personalidade ímpar que mesclou o culto da liberdade e da pátria à laboriosa dedicação à ciência e à cultura humanística. À maestria dos artistas de Quito, dos artesãos, arquitetos, pintores e escultores. A Caspicara, Bernardo de Legarda, Miguel de Santiago, Manuel Samaniego.
Celebro o Quito pré-colombiano, núcleo de um grande reino. O Quito, ponto de partida e o Quito, ponto de chegada: a cidade onde se encontraram, com o hiato de um século, os caminhos de Francisco de Orellana e de Pedro Teixeira, os primeiros desbravadores do vasto mundo amazônico. Reverencio o Quito libertário dos Patriotas de 1809, cultores e propagandistas do ato inicial no prolongado e sofrido drama de emancipação política da América Latina. Senhor Prefeito, Em Quito não faltam pontos de contacto e de referência com alguns dos mais belos e expressivos centros da História de meu país. As cidades antigas de Olinda, Ouro Preto, Salvador e São Luís do Maranhão. Cidades que surgiram do mesmo tronco de latinidade ibérica, em que brotou a seiva de nossa cultura. Imbuído deste espírito de fraternidade histórica, trago ao nobre povo de Quito, em nome de todos os brasileiros e brasileiras, mensagem de calorosa e perene amizade. E peço-lhe que aceite, Senhor Prefeito, a expressão renovada de meu profundo reconhecimento por esta homenagem, que guardarei para sempre entre as gratas recordações de minha vida.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)