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Discurso no Palácio do Povo - São Vicente, Cabo Verde - 9 de maio de 1986
Generoso povo de Cabo Verde, que eu visito a começar pela Cidade de São Vicente. Aqui estou com uma grande emoção. Como Presidente do Brasil, venho trazer o respeito do nosso País, a admiração dê nossa Pátria e a consideração do nosso Governo ao Governo e ao povo de Cabo Verde. Mas, bem mais do que isto, venho trazer a palavra de um Governo identificado com o povo e assim posso dizer que venho trazer o abraço fraterno, amigo e irmão de 130 milhões de brasileiros. Eu acredito e peço que acreditem que todos os brasileiros desejariam estar aqui, neste instante, para viver as emoções do reencontro das nossas origens comuns e sentir o afeto, o calor humano desta gente tão extraordinária que habita estas ilhas.
Gente que venceu a tudo. Venceu as intempéries, vence as secas, vence os mares e aqui permanece com esse sentimento de pátria que está no coração de cada um de vocês. Povo de Cabo Verde, que vive um raro instante, que cada povo vive na história da humanidade, os senhores estão começando o Estado, construindo os primeiros passos de um país. Os senhores lutaram pela independência e vivem a independência; os senhores, obstinadamente, estão plantando árvores contra tudo e contra os elementos, mas plantando as árvores, porque essas árvores não são somente as que estão plantadas no chão, mas as árvores do espírito, através das instituições que estão sendo construídas em Cabo Verde. São Vicente, este porto está ligado à história do Brasil e às recordações mais profundas de todos os brasileiros. Era um marco no meio desse oceano desconhecido do passado; e hoje continua a ser um marco, um marco de gente obstinada, de grande gente e de grande povo.
Se os senhores, no passado, venceram tantas dificuldades, atravessaram tantos perigos para chegar até hoje, quando não tinham as condições que têm hoje à disposição do homem no mundo inteiro, nada mais têm a temer porque, pela frente os senhores têm a alma dos pioneiros que aqui plantaram a alma definitiva deste povo. Esta alma de Cabo Verde é a mesma alma do povo brasileiro: somos povos irmãos. E, orgulhosamente, nós do Brasil, dizemos que somos um país mestiço, e temos muito orgulho de sermos um país mestiço, ouvindo os mesmos sons que eu ouço aqui e que são os sons que embalam a minha terra. O Brasil, pela minha palavra, pelo desejo de todos os brasileiros, estará sempre ao lado de Cabo Verde, colaborando, ampliando os espaços da nossa amizade, da nossa cooperação, do nosso desejo de cada vez mais nos unirmos às nossas raízes africanas. Levo desta minha passagem por Cabo Verde essa lembrança indelével, e transmitirei ao povo brasileiro que este carinho dado ao Presidente é dado ao povo do Brasil.
Há muitos anos, numa noite na região do Brasil que é o Norte e Nordeste, que tem as mesmas brisas que correm por aqui, e que chegaram das costas da África, batendo por estas Ilhas, aportando às costas do Brasil, eu fiz um poema que está no livro meu, que tem o título de Cabo Verde. Era, na minha memória, na minha lembrança, a inspiração que me vinha, era a inspiração desta terra que eu nunca pensei um dia visitá-la como Presidente do Brasil. E, então, eu me recordava das caravelas que chegaram, das caravelas que partiram, e dos sofrimentos das minhas mães escravas de Cabo Verde, de Guiné, de Angola, de Moçambique, de tantos mares de tantas terras tão distantes. Em nome do Brasil, deposito o coração dos brasileiros no coração do povo de Cabo Verde.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)