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Discurso na Câmara Municipal do Porto - Porto, 7 de maio 1986
É com imensa satisfação que visito esta leal cidade, vinculada ao Brasil por laços antigos e permanentes. Jaime Cortesão — português da melhor cepa que deu a meu País anos de sua vida — definiu o Porto com palavras magistrais: «Democracia urbana, Estado dentro do Estado, o seu zeloso amor às liberdades locais nunca ofuscou o sentido e a consciência da unidade nacional. Bem pelo contrário, século a século, é na pena de portuenses que vamos, com freqüência, encontrar o fervor cívico aliado a uma maneira equilibrada de pensar e de dizer, o amor às sadias tradições da grei, o sentido das necessárias renovações políticas e a capacidade para dar novas expressões literárias ao etos nacional.» Veio-nos do Porto, através de maciça imigração para o Brasil, esse caráter liberal e democrático no nortenho, sua operosidade, sua tenacidade. Esses traços fortes tanto permitiram, aqui em Portugal, domar as margens íngremes do Douro, como, no Brasil, criaram riquezas, desbravaram terras, fundaram cidades. Quero, nesta oportunidade e nesta Câmara, realçar a contribuição que o sistema português de governo deu à organização política do meu País. Até hoje, a instituição do município — tal como a criou Martim Afonso de Sousa, em 1532, ao fundar São Vicente — constitui o núcleo central de nosso arcabouço político-administrativo.
Senhor Presidente,
Em nossos países, os ideais comuns de democracia e de liberdade brilham intensamente nestes tempos. Retoma o Brasil, hoje, o caminho do crescimento econômico e do aperfeiçoamento de suas instituições políticas e sociais. Graças às raízes de sua tradição democrática e à perseverança e ao trabalho de todos os cidadãos, seiva natural da árvore portuense, soube superar as vicissitudes de uma conjuntura econômica internacional perversa e de um sistema financeiro mundial e anacrônico. A adesão de Portugal à Comunidade Econômica Européia significará, por sua vez, a ampliação de mercados para seus produtos industriais. Não é difícil antever sucesso nessa empresa a que se lançam os portugueses, sobretudo pela tradição de eficiência que têm as indústrias nortenhas, cujo ponto nuclear é o Porto.
Senhoras e senhores,
A força e a riqueza desta terra, para além dos campos e da indústria, residem nos homens aqui nascidos. Pero Vaz de Caminha, homem de olhos puros, cuja carta a D. Manuel, o Rei Venturoso, é exemplo de realismo e visão de História; Tomás Antônio Gonzaga, homem de duas pátrias, cujas letras colocou a serviço da liberdade do Brasil; Almeida Garrett, que defendeu o humanismo liberal; Ramalho Ortigão, apóstolo até a heresia das tradições nacionais portuguesas; Antônio Nobre, cujo mundo interior media o tamanho do mar-oceano de Camões. Esses homens ficam como padrão na defesa do realismo, do humanismo e do apego à liberdade e à fraternidade do homem portuense.
Não apenas por contingência militar, nosso primeiro Imperador, o vosso Pedro IV, escolheu o Porto para aqui dar seguimento à sua gesta libertária, nem por puro impulso afetivo doou a esta cidade o seu nobre valente coração. Senhor Presidente, Desejo agradecer, através de Vossa Excelência e dos integrantes desta Câmara, a calorosa acolhida com que o povo portuense honrou a mim, a minha mulher e aos que me acompanham. Esse sentimento de gratidão é ainda o mais expressivo porque as homenagens que aqui recebo dão-se nesta cidade em que o brasileiro se acostumou a identificar a terra da liberdade. Essa palavra — liberdade — quero expressamente que esteja entre as que pronuncio neste final de minha visita a Portugal. Se hoje o povo brasileiro a sabe praticar, foi porque a aprendeu com o seu irmão, o povo português. E quero também dizer as palavras que Camilo Castelo Branco, próximo do fim, ele que fora tantas vezes amargo com sua terra, escreveu a um amigo: «Estou triste. Aproxima-se a hora de deixar para sempre esta terra, onde, a par de muitos dissabores, experimentei alegrias instantâneas. Não é da gente que tenho saudades. É de não-sei-quê...» Eu não os deixo para sempre, mas tenho já saudades de sua gente e de não-sei-quê...
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)