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Discurso em resposta à saudação do Presidente Raul Alfonsín - Aeroparque, Buenos Aires, 28 de julho de 1986
Agradeço profundamente sensibilizado, as amáveis palavras de boas-vindas com que Vossa Excelência nos acolhe. Elas expressam, com a generosidade que o caracteriza, o clima de fraterna amizade e de grande expectativa que cerca esta visita. O afeto e a hospitalidade, com que os argentinoá participam deste encontro de duas nacionalidades irmãs, despertam em todos os brasileiros os mesmos sentimentos de união, simpatia e solidariedade. Sou profundamente grato a Vossa Excelência pelo honroso convite para vir à Argentina, poucos meses após nosso encontro na fronteira de Foz do Iguaçu. A oportunidade de revê-lo e de poder homenagear na sua figura de estadista o destino de liberdade que os argentinos souberam escolher, constitui para mim motivo de especial satisfação. A repetição de nossos contatos enriquece uma amizade que considero um privilégio pessoal, e que felizmente temos podido colocar a serviço da amizade e cooperação, que unem cada vez mais argentinos e brasileiros. Chego à Argentina com a consciência de estar participando de um momento especial nas nossas relações. Um sentido de construção do novo, de projeção de um presente de certezas num futuro de esperanças, inspira nosso! reencontro nesta cidade, cuja beleza e magia nos fazem a todos cativos daquele «Fervor de Buenos Aires» evocadp por Borges desde seu livro de estréia. Irmanados pela liberdade e a democracia, nossos povos redescobrem sua identidade mais profunda. Nunca estivemos tão próximos como hoje. Nunca, como hoje, tivemos tantas condições de dirigir conscientemente nossa história no rumo de uma integração cada vez maior. Nunca, como hoje, tivemos oportunidades tão favoráveis de vincular nossas relações ao nosso destino, nossa colaboração mútua aos imensos esforços internos que estamos fazendo para retomar o crescimento, reconstruir a confiança, fazer as reformas que nos garantam estabilidade democrática, bem-estar, plena realização, enfim, da nacionalidade reerguida.
Senhor Presidente,
Desde que nos encontramos nos dias difíceis que marcaram o início da Nova República no Brasil, verificamos que a sintonia de regimes democráticos criava condições sem precedentes para nosso convívio. Cedo passamos das palavras à ação. Construímos um diálogo inédito entre nossos governos, coordenando posições e participando conjuntamente em iniciativas de interesse comum. As relações bilaterais, a integração regional, a paz e a estabilidade da América Central foram temas e áreas sobre os quais fomos capazes de somar nossas contribuições. O encontro de Foz de Iguaçu e a declaração que ali firmamos, engajando a vontade política de nossos governos em programas concretos e inovadores, marcou o ponto de partida de uma mudança qualitativa nas nossas relações. Fizemos da coincidência democrática a alavanca de um relacionamento que carecia desse elemento fundamental que é a legitimidade democrática e a coerência entre o discurso externo e a prática interna. A declaração de Iguaçu recolheu os anseios e as necessidades de nossos povos. As intenções, então anunciadas, amadureceram com rapidez em iniciativas concretas e realistas, que nos permitirão agora definir um programa de cooperação e integração capaz de promover o crescimento econômico e a expansão equilibrada no nosso intercâmbio em todos os campos.
Esse programa depende da participação insubstituível de empresários, trabalhadores e demais setores das duas sociedades. Seus benefícios deverão concretizar-se em melhoria dos níveis de renda e de vida de argentinos e brasileiros.
Em todas as etapas da sua execução, estará presente a preocupação de avançar de maneira firme e prudente, com a flexibilidade necessária para manter um ritmo contínuo, harmonioso e reciprocamente vantajoso. Nada do que vamos empreender pode perder de vista nosso empenho em inserir os projetos entre a Argentina e o Brasil dentro do quadro mais amplo da integração da América Latina, objetivo maior a inspirar e guiar nossos passos. Desde o início do meu Governo, afirmei que a prioridade latino-americana da política externa brasileira corresponde a uma consciência da nossa própria condição, do nosso lugar no mundo. Daí minha insistência em dizer, em todas as oportunidades, que nossa integração ao continente deveria ser real e efetiva, e não apenas retórica. É por essa razão que, num espírito aberto e igualitário, desejamos que nossas iniciativas revertam para o benefício geral da América Latina, fortalecendo e aprimorando a convivência entre povos com os quais mantemos um permanente diálogo. Renovo meu agradecimento pelas suas acolhedoras palavras e pelo carinho com que nos recebe o povo argentino. Iniciamos este encontro sob o signo da amizade, do entusiasmo, do empenho pessoal de cada participante. Vamos, cada vez mais a partir de agora, somar criatividade, recursos e esforços para o grande desafio e promessa do nosso futuro: o compromisso que hoje assumimos de crescer juntos.