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Discurso em Jantar oferecido pelo Presidente do Equador, Rodrigo Borja Ceballos - Quito, Equador, 25 de outubro de 1989
Muito agradeço as generosas e expressivas palavras de Vossa Excelência. Desde que chegamos a esta bela cidade, minha mulher e eu temos sido cercados de manifestações de afeto, pelas quais somos extremamente reconhecidos. É para mim um privilégio e motivo de particular satisfação ser o primeiro Presidente brasileiro a efetuar visita à República do Equador. Prossigo, aqui, um amplo programa de estreitamento das relações do Brasil com seus vizinhos sul-americanos, objetivo prioritário da política exterior que tracei desde o início do meu Governo. Desejo que minha estada aqui contribua eficazmente para inaugurar novo capítulo na história das relações entre nossos países. Que sirva para estreitar ainda mais os vínculos de fraterna amizade que unem nossos povos. Que fortaleça o processo de entendimento e cooperação entre as nações latino americanas.
Está o Brasil republicano às vésperas de completar cem anos. Cem anos que serão festejados, no dia 15 de novembro vindouro, quando estarão os mais de 80 milhões de eleitores brasileiros elegendo, pelo voto direto, o próximo Presidente da República. Como a República equatoriana, a República brasileira celebrará seu centenário, fiel aos ideais de paz, justiça, liberdade e igualdade. São múltiplas e expressivas as conquistas da causa da Democracia na América Latina, ao longo desta década. Chegaremos ao término deste ano com todos os países do Continente sul-americano democratizados. Trata-se de processo sem precedentes na História mundial e que é razão de justificado orgulho para todos nós, latino-americanos. Alegra-me especialmente poder ressaltar semelhante fato neste nobre País, de tantas e tão arraigadas tradições democráticas e republicanas. No cenário internacional, a atmosfera de entendimento entre as superpotências, os progressos alcançados no campo do desarmamento, a solução de conflitos regionais, são eventos que se articulam em expressiva cadeia de fatos políticos de universal importância, prenunciando uma era de maior entendimento no relacionamento entre os Estados.
Mas a década que se encerra foi também uma época de agruras e frustrações para os países em desenvolvimento, mormente para a América Latina. Nossos países se viram assediados, a todo instante, por pressões fortíssimas: a dívida externa, o protecionismo, a deterioração dos termos de intercâmbio, os monopólios de ciência e de tecnologia e, mais recentemente, o meio ambiente. Estou convencido de que só poderemos superar este quadro crítico se formos efetivamente capazes de nos integrarmos. Se juntarmos as nossas vontades e as nossas potencialidades em torno de um projeto comum. A integração da América Latina não pode mais ser vista como uma utopia ou artifício de retórica. Deve ser um artigo de fé. Um objetivo compartilhado, cimentado pela democracia e destinado a mobilizar as nosssas sociedades e os nossos Governos.
Só assim, faremos chegar à América Latina os benefícios, hoje tão evidentes em outras áreas do mundo, das economias de conjunto. Só assim seremos capazes de enfretar decididamente os desafios da modernidade. E a integração, Senhor Presidente, começa no nível das relações bilaterais. No dia-a-dia dos contactos entre cada um de nossos países. Na trama de interesses convergentes que formos capazes de forjar nos diversos setores em que se desdobram as atividades produtivas de nossas sociedades. Brasil e Equador têm aí, estou convencido, amplo e inesgotável caminho a percorrer. Longa e rica é a história de nossas relações. É uma convivência que data dos primórdios da Colônia, da epopéia trágica de Francisco Orellana — o descobridor do grande Rio das Amazonas —, primeiro europeu a transpor os desfiladeiros gelados da Cordilheira dos Andes, a devassar a imensidão verdejante da Hiléia, a viajar, em busca do Eldorado, do Pacífico até o Atlântico. Nossos passados se entrelaçam já no longínquo outubro de 1638, quando a expedição de Pedro Teixeira alcançava Quito, depois de trilhar em direção contrária o caminho de Orellana, convertendo em busca do real a procura da mitológica terra da ilimitada riqueza. Naquela época éramos colônia de um mesmo soberano. Desbravamos e seguimos nossos caminhos. Conquistamos nossas independências. Lutamos hoje, juntos, pelo desenvolvimento. Acreditamos na cooperação como caminho para o futuro de prosperidade a que têm justo direito nossos povo.
Temos sabido multiplicar, nos anos recentes, os campos e as iniciativas de colaboração, num suceder de projetos e empreendimentos conjuntos, que demonstram crescente complementariedade. Ressalto, entre outros, pela importância social que têm, a abertura, por firma brasileira, da Rodovia Mendez-Morona; a execução do Projeto de Irrigação do Transvase de Santa Elena; e a instalação de unidades de tratamento para o sistema de água potável de Quito.
Pelo caráter pioneiro, sobressaem, ainda, o acordo de cooperação entre a Petrobrás e a Petroecuador, para troca de experiência em diferentes segmentos da indústria petrolífera; e o fornecimento ao IETEL, por companhias brasileiras, de equipamentos de telefonia urbana e rural. Muito nos honra figurar entre os principais parceiros econômicos do Equador. As elevadas cifras de nosso comércio são reflexos da vontade mútua de cooperar. De construir um destino comum. Unidos atuamos em prol do entendimento e da integração dos países da América Latina - objetivos fundamentais de nossa atuação externa que, lado a lado, temos defendido, sem esmorecimento, em foros regionais como a ALADI e o SELA. Estamos, sobretudo, conscientes dos benefícios da cooperação horizontal, como ferramenta para a transferência das tecnologias apropriadas à edificação e à modernização de nossas estruturas produtivas. Temos, por outra parte, responsabilidades comuns na preservação do ecossistema amazônico. Apoiamos o fortalecimento do Tratado de Cooperação Amazônica, esse patrimônio jurídico de todos os Estados da região, de importância fundamental para o desenvolvimento e o aproveitamento ordenado dos imensos recursos da Amazônia.
Senhor Presidente,
Já no início desta década, o eixo do comércio mundial principiava a deslocar-se do Atlântico Norte para a Bacia do Pacífico. Essa é certamente uma tendência que tende a reforçar-se nos próximos anos e a moldar o perfil do comércio nos albores do terceiro milênio. O Equador, por sua posição geográfica, mas, principalmente, pelo talento e pela perseverança de seu povo, terá papel cada vez mais destacado no cenário internacional do século XXI, que já se esboça hoje. Seguirá tendo atuação proeminente nesta nossa América Latina, que queremos todos coesa e integrada. Nesse futuro, que antevejo de grandes realizações, o Equador terá sempre a seu lado o Brasil, um Brasil que fez uma clara opção latino-americana. Um Brasil para o qual, como não me canso de repetir, a sorte dos seus vizinhos é a sua sorte! É com esse espírito de fraterna amizade que peço a todos os presentes que comigo elevem suas taças num brinde à saúde e felicidade pessoais de Sua Excelência o Doutor Rodrigo Borja Ceballos, Presidente da República do Equador, e da Senhora de Borja, à crescente prosperidade da Nação equatoriana, e ao estreitamento cada vez maior dos laços que vinculam nossos povos.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)