Notícias
Discurso em jantar no Palácio da Bolsa - Porto, Portugal - 8 de maio de 1986
Privilégio será sempre, para qualquer brasileiro, visitar a Cidade do Porto. Muito têm escrito os cronistas de meu País sobre esta bela e sempre leal Cidade do Porto. Faço minhas as palavras do grande poeta Ribeiro Couto, nascido também num porto, a Cidade de Santos, pois elas interpretam o que todos nós sentimos:
«O Porto é meu. O simples devanear pelos seus cais, pelas suas vielas, desperta 'correspondências' com o que há de mais fundo no meu ser moral. Na minha infância e na minha adolescência senti sempre na longíngua imagem desta cidade uma espécie de recôndita fonte das minhas energias afetivas. O ideal de simpatia humana, que está nas raízes de quem nasceu numa cidade imigratória, pode ter um simbólico ponto de cristalização aqui, nesta região onde irradiou a expansão portuguesa na península e que, ao longo do tempo, continuou a dar homens para as caravelas, homens para a fundação do Império, homens para o Brasil.»
Mestre Gilberto Freyre define as três qualidades dos portugueses no Brasil: adaptabilidade ao trópico, capacidade de aculturação e de miscigenação. Essas qualidades, que são dos portuenses, proporcionaram no Brasil a formação de uma sociedade plurirracial, universalista e aberta ao diálogo. Graças a essa versatilidade, no seio da sociedade brasileira, diferentes etnias convivem num ambiente cordial, voltado para o progresso comum. Os ideais de liberdade têm sido aqui defendidos com vigor. Aqui reuniram-se as cortes em 1820, para debater e aprovar a primeira Constituição portuguesa. O Porto soube defender com ardor os princípios liberais nela contidos, e, sob a liderança de D. Pedro IV -— O Proclamador, chama e garantia da nossa Independência — afastou as tentativas de recuperação absolutista, fato que determinou fosse esta cidade escolhida por D. Pedro como guardiã e depositária do seu nobre e valente coração. Aqui foi o trabalho que o fez a terra, como foi o trabalho que construiu os caminhos, o comércio e a indústria, como foi o trabalho que criou a sua cultura e a diversificou.
E como o espaço fosse pequeno para tanta vontade, foram os nortenhos, inumeráveis e fortes, para a nossa terra, onde ajudaram a construir casas, ruas, cais, cidades que trazem lembranças ao Porto. Graças, em grande parte, a esses portugueses, o Brasil situa-se hoje entre as dez maiores nações industrializadas do mundo. Senhor Presidente, Senhor Presidente da Câmara do Porto, Conta o cronista Fernão Lopes que o homem do Porto Domingos Peres das Éiras assim respondeu ao enviado do Mestre de Avis:
«Eu digo por mim e por todo este povo que aqui está, nós somos prestes com boa vontade de servir o Mestre, nosso Senhor, e fazemos tudo que ela mandar por seu serviço e defensão do Reino.»
Desejo dizer neste meu último compromisso em Portugal o quanto saímos daqui com o coração cheio de gratidão por tudo que recebemos de afeto e carinho e de estima. Eu conhecia o Portugal da sua história, conhecia o Portugal de sua literatura, conhecia a geografia de Portugal, o sentimento português que, tantas vezes, anonimamente, com minha mulher, tivemos oportunidade de usufruir, percorrendo as aldeias, conversando com o povo. Mas estou certo que eu não conhecia, como também os portugueses não conheciam, o Portugal moderno. Este Portugal das instituições democráticas consolidadas, da convivência pluralista e aberta. Este Portugal em transformação profunda que todos acabamos de testemunhar. Trouxe comigo nesta comitiva homens dos mais representantivos do meu País, para homenagear Portugal, para ajudar o humilde Presidente do Norte a que pudesse a nossa comitiva dar uma homenagem bem maior a Portugal. Trouxemos grandes escritores: Jorge Amado, Josué Montello, Francisco de Assis Barbosa, Orígenes Lessa, Luís Viana Filho, José Guilherme Merchior, Herberto Sales, Marcos Vilaça e Zélia Gatai e a grande Rachel de Queirós. E deputados e senadores dos mais representativos do Congresso: Senador Alfredo Campos, que é o nosso líder no Senado Federal, líder do Governo; um vice-presidente da Câmara dos Deputados, deputado Wilson Campos. Trouxemos dois deputados também em homenagem a Portugal e ao Porto. Trouxemos o senador Luís Cavalcante, trouxemos o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, e trouxemos dois filhos do Porto que são representativos do povo brasileiro, escolhidos dentre os nossos representantes: um o deputado José Lourenço, aqui da área do Porto, que é também líder do meu partido na Câmara dos Deputados, e trouxemos Ruth Escobar, deputada, presidenta do Conselho Feminino dos Direitos da Mulher, que leva para o Brasil permanentemente esta alma irrequieta da Cidade do Porto. As figuras mais representativas do comércio e da indústria. Mais de cem industriais brasileiros aqui estavam.
E todos nós somos testemunhas dessa transformação extraordinária que hoje nós encontramos em Portugal e com um espírito que eu acho importante: o progresso sempre destrói os valores culturais, o desenvolvimento acelerado não substitui a cultura imediatamente por outra cultura. Exerce uma certa desorganização. E aqui em Portugal nós assistimos que esse desenvolvimento não matou e não está de maneira nenhuma prejudicando a identidade cultural, a identidade cultural de Portugal. Porque estas os portugueses têm de preservar a todo custo em meio aos embates dessas transformações, porque esse é um patrimônio que não é somente do povo português, é de todo povo de língua portuguesa do mundo inteiro.
E trouxemos, também, um fato inédito no Brasil, para mostrar o Brasil atual dessa convivência portuguesa. Trouxemos o deputado Fernando Santana que é de um partido muito popular, o único de nós todos a quem foi indagado, ao sabermos que nas nossas recepções teríamos que usar casaca, como é que ia a casaca dele? Ele respondeu: Tenho três'. Trouxemos o presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores da Indústria, José Calixto, que está abrilhantando conosco a nossa comitiva. Trouxemos também o ministro Abreu Sodré, esse representativo dos restos da nobreza brasileira, ele é ainda do tempo do império. Também tínhamos de trazer, diante de tantas figuras do pensamento atual brasileiro, um paulista quatrocentão. E como Ministro da Cultura, uma das figuras mais importantes da inteligência brasileira, com repercussão no mundo inteiro, que hoje colabora com nosso Governo dando a ele brilho, que é o ministro Celso Furtado. E representando as nossas Forças Armadas, que têm tido um comportamento impecável em todo o processo da restauração democrática brasileira, o chefe da minha Casa Militar, que é o general Bayma Denys.
Senhor Presidente da Câmara Municipal do Porto,
Sempre há oportunidade de se dizer que é difícil colocar-nos em lugar de outros. Ponha-se no meu lugar. Nessas situações, Gilberto Amado dizia que, como as palavras, se nós as usarmos de novo elas começam a ficar gastas e perdem aquele sentido verdadeiro que tinham. Ele gostava de dizer: 'Não tenho palavras.'
A minha situação quase que neste instante é aquela de dizer a todos os portugueses: eu não tenho palavras. Mas tenho ainda duas palavras: provérbio popular que todos nós temos; que tem em Portugal e tem no Brasil. Certa vez soube que nasceu a alguns séculos, na tradição de despedida dos estudantes de Coimbra, que diz «quem parte leva saudades e deixa saudades». Mas há também um outro verbo-verso, que procura definir saudades. Diz que «saudades é a vontade de ver de novo». É quando a gente parte, provando no coração aquele sentimento de querer voltar. Eu digo que todos nós, quando chegamos a Portugal, e que essa palavra é intraduzível, que se sente também no fundo dentro dela é aquilo, a vontade de querer voltar. Quero dizer a todos, ao seu Presidente da República e a todos os portugueses do Porto e desse país extraordinário, país moderno, que a gente olha e fica feliz. Nós, brasileiros ficamos felizes quando olhamos as águas de seus rios, as águas do Tejo, que tive a oportunidade uma vez de olhar, tranqüilo Alto Minho. E aqui quero fazer um parêntese também para dizer que, o primeiro maranhense do ramo da minha família dos Araújo, venho de Arcos de Valdevez, daqui do norte de Portugal em 1705. Mas quero dizer que aqui passaram muitos presidentes do Brasil, cada um viveu a sua realidade. Todo Presidente do Brasil tem por dever amar Portugal. E eles devem ter amado com muita intensidade. Mas eu quero dizer que, com meu orgulho humilde, não acredito que nenhum deles tenha amado tanto Portugal quanto eu amo.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)