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Discurso em banquete oferecido pelo Presidente chinês - Pequim, China, 4 de julho de 1988
Agradeço as cordiais palavras de Vossa Excelência em meu nome, no de minha mulher e da comitiva que me acompanha. Este país é rico de generosidade. Temos recebido demonstrações de amizade e carinho que refletem os laços que unem o Brasil e a China. Sou portador junto ao povo chinês, de uma mensagem de grande afeto dos brasileiros. O mundo deve à China decisivas conquistas do gênio humano, fronteiras do conhecimento abertas pela inteligência e sabedoria de sua gente. Fonte permanente de inspiração, a cultura e a civilização chinesas constituem um patrimônio da humanidade. É fantástica a obra modernizadora que a nação chinesa está empreendendo, em busca de soluções novas para os múltiplos desafios do presente e do futuro. A política de reforma e abertura para o exterior é exemplo de clarividência que a China oferece ao mundo inteiro. Ê o sinal de uma China que se renova sem perder o sentido de suas tradições.
As distâncias geográficas, a diversidade das culturas e as concepções políticas e sociais não mais podem separar as nações nos dias de hoje. O mundo está libertando-se da ilusão dos modelos autárquicos e fechados. Damo-nos conta de que a força está no enriquecimento mútuo das idéias, na difusão igualitária do conhecimento científico e tecnológico, no intercâmbio eqüitativo de experiências. China e Brasil compenetraram-se desse desafio. Queremos aproveitar todas as potencialidades de nosso desenvolvimento, em cooperação franca e desimpedida. Uma das prioridades de nosso relacionamento é intensificar a cooperação científico-tecnológica. Torna-se fundamental ampliar o intercâmbio das experiências acumuladas pelo Brasil e a China, tanto no plano das tecnologias avançadas, quanto no nível de aplicações científicas mais tradicionais. Por ocasião de minha visita, serão assinados importantes instrumentos nas áreas do sensoreamento remoto, da tecnologia industrial, dos transportes e da energia elétrica. Abriremos novas fronteiras para a cooperação bilateral, no que se refere às aplicações da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento. Juntos romperemos o monopólio fechado das tecnologias de ponta. Os vínculos entre o Brasil e a China tornam-se, assim, cada vez mais sólidos.
No comércio, chegamos, em 1985, ao nível de um bilhão e 200 milhões de dólares, o que bem revela o potencial de complementaçáo de nossas economias. No setor cultural, o acordo recentemente posto em vigor contribuirá para aumentar o conhecimento recíproco. O grau de amadurecimento de nossas relações políticas, fundadas no respeito mútuo, na igualdade e no diálogo construtivo, é comprovado pelo expressivo número de visitas trocadas em nível ministerial e de chefes de governo nos últimos anos.
A visita que ora vos faço, atendendo ao generoso convite do governo chinês, fortalece ainda mais os laços de entendimento e cooperação bilateral. Tive a satisfação de receber no Brasil o então Primeiro-Ministro Zao Ziang. Ele muito alegrou o povo brasileiro com sua visita. Com ele discutimos problemas comuns a nossos dois países. Ele conheceu o Brasil, viu nosso progresso e nossas deficiências. Acertamos uma cooperação estreita e um relacionamento de irmãos. A partir daquele instante nossa política exterior recebeu recomendação no sentido de dar prioridade às nossas relações. Países em desenvolvimento, com o mesmo nível industrial, podemos complementar nossas economias, enriquecer nossos povos, abrir novos horizontes tecnológicos e ajudar as nações do Terceiro Mundo. Agora, com o senhor Primeiro-Ministro Li Peng e as autoridades chinesas, damos prosseguimento e consolidamos nossa política comum.
A nossa identidade de pontos de vista é demonstrada pela coincidência_de_Jiossos votos nos foros internacionais. As questões que aí são submetidas, em 95% dos casos são vistasuda mesma maneira pelos nossos países. Brasil e China podemos orgulhar-nos de não sermos caíidatários de potências estrangeiras, nem prisioneiros de pequenos conflitos. Construímos nosso próprio destino, em função de nossas realidades e dos verdadeiros interesses de nossos povos em favor da paz e do desenvolvimento. Necessitamos para tanto superar e remover as barreiras existentes na ordem econômica internacional, que frustram a plena inserção de nossas economias nos mercados mundiais. Independência pressupõe desenvolvimento autosustentado, o qual, por sua vez, exige uma moldura externa favorável. Preocupam-nos as tendências protecionistas nas economias mais desenvolvidas, assim como políticas fiscais e monetárias responsáveis por taxas de juros elevadas, que provocam o agravamento da crise da dívida externa. Preocupa-nos também uma nova modalidade de protecionismo, talvez ainda mais ameaçadora, e que consiste em cercear a luta dos países em desenvolvimento pela conquista de seu domínio e capacidade tecnológicos de ponta.
Não podemos aceitar que se cristalizem divisões entre os países detentores de alta tecnologia e os que ficarão relegados à margem da acelerada revolução científica e tecnológica em curso no mundo. Estou seguro de que o futuro das relações entre o Brasil e a China será assinalado por grandes realizações. Temos uma contribuição a dar para o aperfeiçoamento da ordem internacional. A China é um país e um povo que marcam a história do homem, da civilização e das grandes descobertas. A China tem que ser vista com olhos de irmão, de amigo, de amor. São esses os olhos do Brasil para com esta fascinante nação. É com a certeza neste futuro de paz, prosperidade e entendimento entre nossos dois países, que convido todos os presentes a erguerem um brinde pela saúde e felicidade de Vossa Excelência e da senhora Yang, do PrimeiroMinistro Li Peng e senhora, bem como pelo progresso crescente do povo chinês e pela perene amizade entre o Brasil e a China.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)