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Discurso em almoço no Paço Ducal de Guimarães - Guimarães, Portugal - 8 de maio de 1986
É com intensa emoção e profundo respeito que visito Guimarães, berço da nacionalidade portuguesa, de onde saiu D. Afonso Henriques para a História. Recebo as demonstrações de carinho com que acabam de me acolher como um gesto destinado a todos brasileiros, unidos em fraterno congraçamento aos seus irmãos portugueses em todos os momentos de longa história comum, e especialmente neste, em que o processo político de nossos países converge em fase de promissora sincronia. Essa realidade afiança, com a marca contemporânea e a promessa de crescente entendimento, uma história e fraterna relação, solidamente construída sobre o patrimônio de uma herança comum e da afinidade de valores e sentimentos entre os dois povos. Impressiona-me vivamente caminhar nesta cidade, que há oito séculos recebia o seu primeiro foral. Este conjunto monumental erguido no sítio outrora ocupado pelo passo do primeiro Henrique, e conde portucalense, marca pelo aspecto compacto de fortaleza medieval. A solidez dessas muralhas de granito traduz bem o caráter arrojado de seu construtor, D. Afonso, que participou da heróica Jornada de Ceuta.
Meus queridos amigos de Guimarães, Tivemos, ontem, minha mulher e eu, junto com os que nos acompanham, o privilégio de andar por este país, de Lisboa ao Porto, e, hoje, de Porto a Guimarães foi como se estivéssemos percorrendo os caminhos da História; no bordejar do Tejo, Vila Franca de Xira, com sua imponente fortaleza medieval; um passo em direção à Batalha, deixando oliveiras, sobreiros e videiras ao longo da estrada junto com memórias de Mestre de Avis e do condestável Nuno Álvares Pereira, seis séculos de Aljubarrota. Depois Leiria, desfile interminável de pinhais, a recordar D, Dinis, e rei «plantador de naus a haver». E Coimbra, com o esplendor de suas tradições e de sua universidade; sons de aulas doutas entremeados com o tanger antigo das guitarras, capas-pretas na vetusta escadaria, nova juventude de Portugal, sebentas à mãe, olhos postos no futuro. Colinas cultivadas se amiúdam, Rio Vouga, encostas douradas de sol, já era o Douro. Carros de boi, modernas estradas, o eterno Portugal.
Se Guimarães e a região que a tem por cabeça orgulham-se de seu passado glorioso, também hoje se orgulham de ter-se transformado em pólo de desenvolvimento industrial do Norte, concentrando ativas indústrias têxteis. Este rincão, onde se localiza cerca de 70% de toda a indústria portuguesa, naturalmente enfrenta desde agora os desafios da modernização acarretados pelo ingresso de Portugal na Comunidade Européia. Minha visita a estes lugares, para além do privilégio de percorrer os marcos da história portuguesa, permite-me transmitir aos senhores industriais e comerciantes o interesse das associações industriais e comerciais brasileiras na busca de oportunidades de investimentos recíprocos, de projetos de complementação industrial e na formação de joint ventures entre Brasil e Portugal.
Senhoras e senhores,
No início deste século, e por bastante tempo, nossas culturas nacionais experimentaram uma secreta angústia. Portugal e Brasil ainda duvidavam de si mesmos. Lendo Eça de Queirós e Oliveira Martins, Euclides da Cunha e Graça Aranha, lendo até mesmo o seu querido Fernando Pessoa, tem-se a sensação de quanto doeu em nosso espírito essa dúvida sobre os destinos da nacionalidade. Portugal, repleto de glória no passado heróico das descobertas, sentia-se então inferiorizado ante a Europa moderna. Enquanto isso, no jovem Brasil republicano, os debates sobre a qualidade da raça, os preconceitos sobre o valor cultural do mestiço, ensombreciam nossa meditação sobre o futuro nacional. Como tudo isso está radicalmente mudado! Hoje, não é dúvida e sim na certeza que Portugal penetra na Europa, numa integração que Vossa Excelência, senhor Presidente, tão bem soube conduzir e tão bem sabe encarnar aos olhos do mundo. Não é na angústia, e sim na mais plena e radiosa esperança que o Brasil abraça a democracia, precedido, nesse reencontro definitivo com a liberdade, pela sua nação materna, a estremecida pátria portuguesa. Pois bem, a integração na Europa é para vós, portugueses, o que a construção da democracia, política e social representa para nós, brasileiros: o mergulho completo e resoluto na modernidade, a navegação sem volta no mar da liberdade, do desenvolvimento e da justiça. Escritor, não sei se os nossos grandes escritos de amanhã conseguirão igualar-se ao gênio de Eça e Pessoa, de Machado e Euclides. Mas sei que não teremos governado em vão, se nos couber presidir à aurora dessa metamorfose em nossas consciências coletivas. A alma de nossos povos, o espírito de nossa raça vai transpondo o limiar do novo século com a segurança das opções fecundas e históricas. Fizemos a opção sem retorno por uma sociedade aberta, uma economia dinâmica, uma ordem social mais justa e um sistema internacional pacífico e mais bem equilibrado. Nesse esforço, Portugal e Brasil irmanam e congraçam seus melhores talentos e suas mais nobres aspirações. Partilham, de mãos dadas, e afã da modernidade, certos de que só ele saberá fazer felizes nossas populações tão humanas e tão sofridas. Nenhuma outra atitude histórica saberia refletir nossa melhor natureza. Nenhuma outra determinação coletiva saberia ser digna da nossa melhor tradição luso-brasileira. Para citar um dos vossos predecessores na liderança do socialismo internacional, Jean Jaurès: «É correndo para o mar que os grandes rios se mantêm fiéis à sua fonte». É esposando o moderno que Portugal e Brasil se manterão leais ao legado esplêndido de nossa História.
Senhor Presidente,
A intensa programação que venho desenvolvendo nesta visita a Portugal ofereceu-me a oportunidade de promover a mais franca troca de impressões e pontos de vista sobre o tema amplo de nossas relações bilaterais e da conjuntura internacional contemporânea. Tocamos, de forma sempre construtiva, nos mais importantes aspectos que fazem desta uma visita especialmente significativa na longa história do relacionamento Brasil-Portugal: a identidade democrática de nossos países, que reforça e renova a antiga amizade luso-brasileira; os grandes passos dados recentemente, aqui e no Brasil, para intensificar a atividade econômica e abri-la ao influxo de novas contribuições; e a crescente responsabilidade internacional que decorre, para o Brasil e Portugal, dessa nova era em suas respectivas histórias. Depois de dois dias de proveitosas conversações, que muito enriqueceram a minha visão do potencial de desenvolvimento dos nossos vínculos, alcancei a convicção de que existe uma base concreta e muito extensa para elevar significativamente o tom das relações entre Brasil e Portugal. A experiência destes dias e os resultados a que chegamos em muitos aspectos tangíveis animam-se a ver, na crescente comunhão de interesses de nossos países, a possibilidade de criar novas áreas de atuação conjunta, de forma a conferir verdadeiro conteúdo político à tradicional relação de amizade e cooperação luso-brasileira.
Penso, sobretudo, na possibilidade de inaugurarmos na Europa e na América, com a África, com todos os recantos onde se fala e se entende a nossa língua — a nossa amada língua, com as doçuras e riquezas, tão marcada pela própria história de contato entre os povos — um canal diplomático de comunicação e consulta em português, para refletir e agir, sem rigidez nem formalismo, sobre os grandes problemas do nosso tempo. Agir não com o poder das hegemonias, mas com a força da persuasão, do exemplo, da prática do bom convívio, do exercício da nossa natural afinidade com as artes da diplomacia. Tenho presente que a nota dominante no conjunto de países que falam a língua portuguesa é a diversidade, que se espraia na própria situação geográfica de cada um, que alcança a natureza dos sistemas políticos e econômicos; que toca as inspirações ideológicas e sobressai na diferença de vínculos e compromissos externos; que se mostra, enfim, na própria disparidade do nível de desenvolvimento econômico. Há, não obstante, a unir-nos todo um vasto território comum, que é o da herança de uma cultura, enriquecida por outras contribuições, de uma história compartilhada e, principalmente, de uma mesma língua — elo fundamental da identidade e da fraternidade entre os povos. E, assim, compartilhamos de valores e sentimentos muito próximos, capazes de ampliar, muitas, vezes, a convergência de interesses em muitas matérias. O idioma nos une na nossa diversidade geográfica. É o idioma, precisamente, que facilita o intercâmbio de experiências e a cooperação, que começam por ganhar um intenso sentido de preferência no terreno cultural, técnico, científico e educacional a partir da convicção de ser esse o interesse de todos e de cada um dos nossos países.
Neste mesmo momento, estamos dando um exemplo muito expressivo do potencial desse tipo de coordenação. A reunião que se realiza no Rio de Janeiro para tratar da uniformização ortográfica da língua é expressiva desta qualidade de iniciativas em que todos nós temos algo a oferecer e muito a receber. O sentimento da comunhão que o idioma dá — «A minha pátria é a língua portuguesa», dizia Fernando Pessoa — torna-se, assim, o vetor de uma iniciativa concreta, capaz de congregar o interesse de vários países.
Senhor Presidente,
Senhor Primeiro-Ministro,
Senhoras e senhores
É para mim uma honra encerrar em Guimarães e no Porto minha visita a Portugal, após ter vivido mornentos tão felizes dos quais guardarei as melhores recordações. Em meu nome, da minha mulher, dos que me acompanham, agradeço a acolhida generosa a nós propiciada nesta histórica cidade. Não diremos adeus, pois as relações entre Brasil e Portugal não comportam despedidas. Deixo aqui as mais sentidas evocações de carinho ao povo de Guimarães e de Portugal, e manifesto meu sincero desejo pelo contínuo progresso e permanente felicidade do povo português. Queria aduzir, ainda, umas poucas palavras. O senhor presidente da Câmara teve a oportunidade de dizer que há momentos para guardar: momentos para guardar numa vida, momentos que pertencem a cada um de nós; há momentos para guardar que pertencem Já cada povo; e há momentos para guardar, na história da Ihumanidade, porque pertencem a toda aventura do gênero humano. Este instante em que aqui estou é um momento para guardar na minha vida, e ele indelevelmente ficará, porque jamais poderei esquecer a visita que faço, como Presidente do Brasil, a este histórico sítio.
Mas, Guimarães é um momento para guardar. Guardar na história da humanidade, porque nesta área a aventura do gênero humano tem um dos momentos mais altos no gesto de D. Afonso Henriques, no heroísmo daqueles que fundaram a nação portuguesa. Aqui começa uma grande nação e, enquanto existir o homem sobre a Terra, enquanto existir a história de todos nós, existirá, sem dúvida, um momento para guardar. E este momento, entre os grandes momentos da humanidade, será o momento de Guimarães.
(Texto reproduzido em conformidade com o acordo ortográfico vigente à época de sua publicação original)