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Discurso durante visita oficial à Argentina - Buenos Aires, 25 de maio de 1993
As amáveis palavras de boas-vindas de Vossa Excelência e a hospitalidade com que somos acolhidos, em Buenos Aires, refletem a cordialidade e a simpatia que surgem naturalmente entre brasileiros e argentinos, e as relações fraternas entre nossos Governos. Sou-lhe profundamente grato, Senhor Presidente, pelo honroso convite de Vossa Excelência, que me traz de regresso à Argentina, poucos meses depois de haver participado, nesta bela capital, da VI Reunião de Cúpula do Grupo do Rio. No grato convívio que tivemos na Cimeira do Grupo de concertação política das democracias latino-americanas e em nosso encontro, em Montevidéu, durante a Cúpula do MERCOSUL, pude identificar em Vossa Excelência a exemplar figura do estadista que vem conduzindo os destinos de seu país com sabedoria e determinação, fazendo-se credor da justa admiração da comunidade internacional. Sinto-me particularmente sensibilizado pela oportunidade que me foi dada de vir a Buenos Aires no dia de maior significado cívico do calendário argentino, e de comparecer, no lado de Vossa Excelência, às cerimonias comemorativas do 25 de Maio. Esta circunstância histórica é simbólica de uma união que se intensifica, a cada dia, em proveito de nossas sociedades e de nosso Continente.
Ao participar, na manhã de hoje, das solenidades na Casa Rosada, e ao caminhar até a Catedral para, juntos, render graças a Deus pelas conquistas do passado argentino e pelas realizações de seu presente, fizemos também profissão de fé na grandeza de nosso futuro comum. Ficará para sempre gravada na memória de nossos povos a imagem da confiança e apreço recíprocos retratada neste 25 de maio de 1993, em que a Nação Argentina acolheu o Presidente do Brasil como um dos seus, como um concidadão, na celebração de sua data maior. Esteja certo Vossa Excelência de que retribuiremos com a mesma civilidade este gesto nobre, que muito nos comove, e que imprime a esta visita oficial o significado solene de uma confraternização irrevogável.
Senhor Presidente,
Vossa Excelência acaba de me impor o grande colar da Ordem do Libertador San Martin. Esta insigne homenagem, que agradeço em meu nome e em nome do povo brasileiro, representa de modo emblemático o entrelaçamento entre nossas nações. O herói da Independência, cujo nome é sempre recordado com respeito e admiração no Brasil, foi escolhido para denominar o Décimo Nono Regimento de Cavalaria Mecanizada — sediado em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul —, que receberá o nome de «Regimento San Martin», em reconhecimento ao talento e à coragem deste grande militar e estadista argentino.
Senhor Presidente,
Terei, por minha vez, o prazer de recebê-lo, dentro de poucas semanas, na cidade de Salvador da Bahia, primeira capital do Brasil. Lá, em companhia da família ampliada ibero-americana, procuraremos avançar na tarefa de implantar em nosso Continente uma ampla arquitetura integracionista.
Senhor Presidente da Nação Argentina,
Observa-se no Brasil um processo de consolidação da democracia, em que os cidadãos assumem, com crescente convicção, suas responsabilidades individuais no esforço coletivo de articulação de uma sociedade mais justa. Meu Governo orienta o Brasil na direção do desenvolvimento com justiça social, mediante uma política de estabilização, pautada pelo rigor fiscal e por um esforço gradual de controle inflacionário, transparente e imune a decisões arbitrárias. Mantêm e aprofunda o programa de desestatização, permitindo participação do capital estrangeiro — aspecto que terá, certamente, impacto positivo sobre nossa cooperação com o empresariado argentino. Lutamos, também, contra o espectro da miséria e da fome. Associados na busca dos mesmos objetivos, Brasil e Argentina redescobrem sua identidade mais profunda no processo irreversível da integração, a via natural e segura para o bem-estar de nossos povos. Situados em uma das regiões mais pacíficas do mundo, argentinos e brasileiros têm sabido trabalhar sobre a folha limpa de uma História que não legou nódoas nem ressentimentos.
Os andaimes da nossa construção já foram erguidos. Os acordos que assinaremos no decorrer de minha visita,em áreas de sensibilidade e atualidade, levam-nos adiante e aperfeiçoam nossa cooperação. Senhor Presidente, Os esforços conjuntos de aproximação empreendidos por Brasil e Argentina já produziram resultados notáveis. Haverá poucos exemplos de evolução tão rápida e segura de um relacionamento bilateral como o nosso, que se consolida em patamares cada vez mais elevados de proximidade e entendimento. No cenário mundial abrem-se novas oportunidades de atuação. Hoje, sabemos que a permeabilidade em nossas relações e sua previsibilidade favorecem a projeção internacional dos dois países. Esse quadro está solidamente assentado no campo económico e comercial, que manifesta, hoje, um dinamismo sem precedentes na América Latina, havendo nosso intercâmbio bilateral alcançado, em 1992, cifra superior a 4 bilhões de dólares. O nível de entrosamento a que chegamos tern suas raízes no Tratado de Assunção, que reúne, além de nossos dois países, o Paraguai e o Uruguai. Alguns de nossos interesses requerem cuidadosa harmonização. Estou certo, contudo, de que as dificuldades conjunturais ou setoriais que venhamos a enfrentar serão sempre vencidas com as forças do diálogo e da vontade política.
Senhor Presidente,
No momento em que os esquemas regionais de concertação política e integração económica passam a desempenhar papel crescente na definição dos rumos nas relações internacionais, nas decisões sobre destinos de investimento, e na produção das empresas, o espaço comum sul americano adquire nova importância e um potencial que nos cumpre valorizar. Já tive oportunidade de afirmar nesta mesma cidade de Buenos Aires, em dezembro passado, durante a última Cúpula do Grupo do Rio: «Nossa região não é apenas um grande espaço económico, mas também — e sobretudo — um espaço democrático onde povos encontram sua identidade numa cultura própria, de valor universal». Senhoras e Senhores, Ao saudar a Argentina no seu grande dia cívico, falo por um país irmão, vizinho, companheiro, para dizer a toda a Nação argentina que prosseguiremos com o grande desenho da integração. Uma integração sensível a todos os nossos interesses e, principalmente, exemplar em sua visão de um futuro de prosperidade e de paz.
Muito obrigado.