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Pronunciamento no encerramento do Seminário Brasil-China, uma Parceria Estratégica - Xangai, China - 16 de dezembro de 1995
Eu queria dizer o quanto me sinto honrado em participar deste seminário e em mostrar, com a minha presença aqui, o quanto o Governo brasileiro valoriza esse tipo de iniciativa como instrumento na promoção das relações do Brasil com os seus principais parceiros. É muito expressivo que o seminário se realize em Xangai, uma espécie de vitrine da nova China, que vem sendo construída graças ao esforço deste povo e à liderança demonstrada pelos seus governantes. Nós estamos aqui no próprio coração da revolução económica que a China está realizando e, certamente, a efervescência dessa revolução inspirou os senhores em seus debates e trocas de informações neste seminário. É desnecessário frisar a importância deste encontro e de que tantos brasileiros se tenham deslocado até Xangai para se tornarem atores desta nova etapa que se abre no relacionamento Brasil-China. Esse é um exercício que nós temos feito, sempre ligado a visitas presidenciais, e que tem dado um extraordinário resultado, como fator de mobilização dos agentes económicos e governamentais que são os atores, em última análise, do intercâmbio e da cooperação entre os países.
Este seminário foi concebido como forma de engajar representantes dos Governos e da iniciativa privada dos dois países em um exercício de reflexão conjunta e de maior conhecimento recíproco. É preciso construir pontes sobre a distância e o desconhecimento que nos separam, e é o que estamos fazendo com as inúmeras visitas das mais altas autoridades chinesas ao Brasil e de muitas autoridades brasileiras à China. É o que estamos fazendo com essa minha visita, que não é uma iniciativa individual de um ou do outro parceiro, é uma iniciativa conjunta. E é o que estamos fazendo com este seminário que agora vai chegando ao seu final. Fico feliz também de ver o quanto o seminário mobilizou o Governo chinês, numa verdadeira parceria conosco - uma parceria que espelha o conjunto das nossas relações. A cada contato, a cada diálogo, a cada interação com os nossos parceiros chineses, fica claro que as relações entre o Brasil e a China são uma estratégia dos Governos, que não ficam apenas na vontade política ou no campo do entendimento político mais geral, mas descem a projetos muito concretos de cooperação e de intercâmbio. E isso é muito bom, porque nós concebemos as relações com os nossos principais parceiros como uma dimensão a mais da nossa própria vida interna, como parte das nossas atividades económicas e de desenvolvimento científico e tecnológico. Nós temos muito que aprender com a China, que tem uma tradição milenar de sabedoria e que valoriza, como, aliás, todos os povos de tradição confuciana, a educação, o apego ao trabalho, a disciplina, o preparo individual e o sentido do equilíbrio.
A China tem sido um exemplo de sucesso económico, crescendo a taxas em torno de 10% ao ano ao longo já de muitos anos. E isso por quê? Porque a China soube, primeiro, investir em educação básica, em bem-estar social. Depois, porque a China soube fazer as reformas indispensáveis para adaptar-se às mudanças no mundo e para um melhor proveito da realidade da globalização da produção e dos fluxos financeiros e tecnológicos. Os chineses saíram na frente e agora estão colhendo bons resultados, que ajudam a vencer os enormes desafios que esta sociedade gigante sempre teve que enfrentar. A China é o grande acontecimento internacional neste final de século. É preciso prestar muita atenção ao que acontece neste país. Basta olhar o desempenho da economia chinesa no comércio internacional. Em meados dos anos 8o, a China e o Brasil exportavam mais ou menos a mesma coisa, na faixa dos 27 bilhões de dólares. Hoje, nós estamos alcançando a faixa dos 40 bilhões de dólares, mas os chineses já passaram a faixa dos 100 bilhões! E isso porque reduziram o custo de produção dos seus bens, melhoraram a sua competitividade, abriramse ao capital internacional, pouparam e investiram na produção, foram atrás dos mercados. Agora, preparam-se para reingressar na Organização Mundial de Comércio, para o que contam com o apoio entusiasmado do Brasil, t começam a adotar as medidas de rebaixa tarifária de milhares de produtos de sua pauta comercial. Essas medidas e o posterior ingresso da China na OMC, com tudo o que daí decorre em termos de obrigações contratuais e compromissos com o multilateralismo comercial, integrarão ainda mais o mercado chinês ao mercado mundial e aos fluxos do comércio internacional. Isso é parte de um processo amplo, ousado e refletido de reformas na China. Tudo isso constitui uma grande e variada lição para nós.
Não é que nós não tenhamos hoje melhores condições de competir e de nos inserir na economia mundial globalizada. Nós já fizemos muito em termos de abertura, de estabilização e até de algumas reformas que tornam o Brasil mais atraente para o investimento internacional e brasileiro também. Mas nós ainda temos um caminho a percorrer, sobretudo em termos de redução de nossos custos produtivos, e é o que estamos fazendo. Aliás, essa é parte da mensagem que eu quis trazer à China: nós estamos criando novas e melhores condições para promover a nossa parceria, porque o que nós estamos fazendo dentro do Brasil tem um efeito direto sobre o intercâmbio do Brasil com o exterior. Nós estamos nos tornando mais competitivos, inclusive em áreas em que sempre fomos bastante competitivos, como na de serviços de engenharia, por exemplo. A estabilização, as reformas, o crescimento económico no Brasil estão mudando o perfil da nossa inserção internacional e o interesse com que os nossos parceiros olham para nós. E isso ocorre também na relação com a China. Senhoras e Senhores, para ilustrar a solidez do relacionamento bilateral, o Vice-Primeiro-Ministro Zhu Rongji cunhou a expressão "parceria estratégica", que exprime, com precisão, o tipo de relação que o Brasil e a China, dois grandes países em desenvolvimento, vêm mantendo há já 21 anos.
Essa expressão reflete, ao mesmo tempo de forma concisa e abrangente, como é próprio da língua chinesa, a consciência que Brasília e Pequim desenvolveram no sentido de que o interesse mútuo vai muito além do momento presente e de questões pontuais na agenda internacional. Como disse, os nossos respectivos processos internos de estabilização da economia e a abertura ao mundo exterior já vêm trazendo benefícios imediatos ao aspecto comercial do relacionamento sino-brasileiro. Os dois governos têm consciência de que o crescimento macroeconômico na China e no Brasil deve ter como consequência o crescimento sustentado das relações entre os dois países. Mas esse processo não é automático, ainda mais quando estamos falando de dois países gigantes que se encontram, em regiões muito distantes uma da outra. E preciso um engajamento maior dos agentes económicos e governamentais dos dois países para explorarmos as oportunidades, para mapearmos o terreno e conhecermos melhor os mecanismos que permitem uma maior integração entre os dois mercados e uma parceria mais intensa entre agentes económicos de um e outro país. Embora histórica, a cifra superior a i bilhão de dólares alcançada pelo comércio bilateral em 1994 e próxima de 1,5 bilhão em 1995 representa muito pouco em face da potencialidade dos dois países. Com o intuito de reforçar o intercâmbio econômico-comercial, o Governo brasileiro tem procurado sensibilizar as empresas para irem além da área tradicional de comércio de bens e procurarem os setores onde o empresariado brasileiro poderá contribuir para os esforços de crescimento estrutural da China.
Hi4reletricidade, siderurgia, fármacos, tecnologia de ponta, telecomunicações e aviação civil se apresentam como novas áreas com excelentes perspectivas para as empresas brasileiras. Os interesses brasileiros, em uma parceria com a China? se multiplicam. Furnas Centrais Elétricas tem interesse em aprofundar a cooperação bilateral no campo da utilização de recursos hídricos para fins de produção dg energia elétrica» particularmente na implementação de pequenas centrais hidrelétricas. Estamos çonteniplando ampliar a cooperação entre o Brasil e a China com vistas à diversificação das áreas de intercâmbio nos campos 4a hidr@Ietriçídade? baseando-se prioritariamente no princípio de benefícios rnútuos com a formação de pequenas centrais hi4relétrieas. QueremOiS ampliar a difusão da tecnologia .chinesa e a implantação dessas centrais no Brasil, particularmente em locaMades isoladas e no meio rural, A China está iniciando a construção 4a Usina Hidreiétriça de Três Gargantas. A obra constituirá a major hidrelétrica já construída e tem atraído a atenção, 4as autoridades chinesas para o Complexo 4e itaipu, Plante da§ perspectivas ,de cooperação, as empresas brasileiras, públicas e privadas, que atuaram na construção de Itaípu, assinaram protocolo de intenções para a formação do ''Three Gorg.es Brazilian Joint-yenture5 ', co,m o objetivo de participar, na Criina» do projeto de IVês Gargantas, Em norne dessas empresas, técnicos brasileiros J.á «coordenam com os chineses as obras preliminares do projeto, .oferecendo serviças, de colaboração técnica e transferência 4e tecnologia. As empresas brasileiras têm possibilidade 4e participar 4a efetivação 4a Usina de Três Gargantas, sobretudo no estágio das obras ern que será necessária a participação 4e empresas fornece4.oras 4e equipamentos de transmissão e turbinas, A parte brasileira já teve oportuni4ade de rnanifestar .seu interesse no projeto de construção dê Três Gargantas e seu apoio integral ao conisórcio constituído pelas empresas responsáveis peia implementação de Itaipu, Temos çon4ições 4e fornecer .montagem técnica? incorporan4o consórcios de empresas 4,e companhias de construção civil, engenharia, niontagem e suprimerito de equipamentos.
A China oferece oportunidades de negócios nos setores do meio ambiente (tratamento de água, despoluição do ar, reciclagem e reutilização do lixo); exploração de petróleo; construção civil; e conservação de florestas. Algumas dessas áreas são praticamente inexploradas para a cooperação. Elas precisam passar a fazer parte da nossa agenda. Há algum tempo, o Governo brasileiro vem procurando incentivar a expansão da parceria sino-brasileira nos setores da hidreletricidade e construção de barragens, mineração e comércio de produtos minerais, intercâmbio de tecnologia petrolífera em águas profundas, química fina, transporte fluvial e construção de portos. O incremento do comércio bilateral poderá beneficiar-se dos resultados alcançados pela realização de mostras e seminários, como este que agora se encerra e como a feira que visitaremos a seguir. Esses eventos repercutem na formação de joint-ventures e no objetivo de despertar o interesse de empresários brasileiros e chineses para as oportunidades de negócios que ambos os países têm a oferecer-se reciprocamente. É preciso que nós nos engajemos, portanto, na divulgação da capacitação tecnológica e dos padrões de qualidade da indústria brasileira, suas possibilidades de fornecimento de bens e serviços e sua competência para explorar as potencialidades do mercado chinês. Esse mesmo convite nós fazemos aos nossos parceiros chineses em relação ao Brasil. As similaridades de nível de desenvolvimento tecnológico entre o Brasil e a China habilitam nosso país a fornecer bens e serviços adaptados às necessidades e aos padrões chineses, através de joint-ventures, e a assimilar tecnologias, bens e produtos chineses indispensáveis ao nosso desenvolvimento. Podemos cooperar também com vistas a abrir novas janelas de oportunidade em terceiros mercados. Os setores chineses que oferecem perspectivas para a formação de joint-ventures são inúmeros. Vou mencionar apenas alguns: telefonia; tecnologia espacial; tecnologia agrícola; biotecnologia; recursos genéticos; formação de cooperativas; agroindústria; irrigação; automação bancária; indústria farmacêutica; prospecção de petróleo; infra-estrutura; e construção de barragens, rodovias e ferrovias.
A feira que se inaugura em instantes - a Expo China 95 -, no contexto do grande evento denominado "Brazil - A Strategic Partner", sob a coordenação do Departamento de Promoção Comercial do Ministério das Relações Exteriores, é um passo a mais nessa intensa aproximação entre os dois países e nessa política determinada de ampliarmos o conhecimento recíproco. Eu os convido a visitá-la com esse ânimo de construir a nossa relação com base no conhecimento. Afinal, é o conhecimento que gera confiança, é a informação que gera opções e alternativas. Por isso, tenho certeza de que este seminário, que se voltou para o conhecimento recíproco, terá sido um outro elemento central para que nós possamos promover o início de uma nova etapa no relacionamento Brasil-China, uma etapa baseada em tudo de positivo e criativo que vem ocorrendo nos dois países. Ao encerrar este encontro, quero congratular-me com os seus organizadores e com todos os participantes, pela contribuição inestimável que estão dando ao constante aperfeiçoamento de uma amizade da qual nós só podemos orgulhar-nos: a parceria estratégica que o Brasil e a China oferecem ao mundo como exemplo da cooperação entre dois grandes países em desenvolvimento.
Muito obrigado.