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Jantar oferecido ao Senhor Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos - Bras´lia, 15 de agosto de 1995
Senhor Presidente, Quero dar-lhe as calorosas boas-vindas do Governo e do povo brasileiros. É uma honra ter novamente a oportunidade de recebê-lo entre nós. A cada visita sua, reforça-se a admiração dos brasileiros pela coragem e pelo sentido de responsabilidade com que Vossa Excelência tem conduzido o processo de pacificação em Angola. A visita de Vossa Excelência ocorre em momento particularmente positivo para as relações entre o Brasil e Angola, porque nossos países atravessam um período de potencialidades que se reabrem; as promessas adiadas no passado hoje começam a reunir condições objetivas para se materializar. O Brasil consolidou a democracia e avança rapidamente na estabilização da sua economia e na retomada do desenvolvimento em bases sustentadas, com forte impacto sobre as nossas parcerias externas. Vossa Excelência está ajudando a construir uma Angola soberana e livre, ancorada em sua pujança natural, na riqueza espiritual e no valor do seu povo. Angola atravessa momento de grande e renovada esperan-ca, pois seu povo tem ao alcance das mãos o convívio harmónico na democracia e o desenvolvimento económico com progresso social. A assinatura do Protocolo de Lusaka, no final do ano passado, abriu novo caminho para a consolidação da paz. O recente encontro de Vossa Excelência com Jonas Savimbi é exemplar das crescentes possibilidades para o entendimento político em Angola e das perspectivas que a partir daí se abrem para o povo angolano. O mundo quer uma Angola reconciliada, estável e em desenvolvimento, que seja um tributo à fraternidade e uma prova da viabilidade dos países em desenvolvimento. O Brasil tem acompanhado esse processo com o interesse e a atenção do amigo de sempre, do parceiro dos grandes momentos das horas difíceis. Desde 1989, temos participado de todos os esforços de pacificação em Angola, sob os auspícios das Nações Unidas. Quando estive à frente do Itamaraty, disse certa vez que nossa atuação no processo de paz em Angola é movida por um genuíno sentimento de solidariedade. O Brasil, Senhor Presidente, primeira nação a reconhecer a independência de seu país, não poderia omitir-se de sua obrigação para com o povo angolano. Estamos dispostos a continuar contribuindo para a paz em Angola, através da participação na UNAVEM-III. O meu Governo está empenhado em assegurar todos os meios para que nossa presença na UNAVEM, com mais de mil e cem soldados, traduza literalmente a prioridade que Angola representa para nossa diplomacia. A singularidade da nossa amizade assim o exige.
Os laços que unem Brasil e Angola têm como traço maior um sentido pleno de comunhão — de raízes étnicas, culturais e históricas comuns, de um passado marcado pela colonização e pela busca da identidade nacional, que nos dá sentido entre os povos do mundo. Uma mesma língua nos vincula, podando nossas relações, enriquecendo nossa parceria fraterna. Porque falamos a mesma língua, expressamos de forma mais próxima sentimentos, convicções e formas de ver o mundo, o que conduz naturalmente à certeza do entendimento.
O Brasil orgulha-se da sua herança africana, boa parte da qual nos veio diretamente de Angola. Essa herança se traduziu em muito do que temos de melhor a oferecer: nossa capacidade de abolir as fronteiras étnicas e raciais e de conviver pacificamente com a diversidade da cor, o ritmo e a criatividade de nossa cultura, que se alimenta da alegria de viver dos povos africanos. Senhor Presidente, a consolidação da paz permitirá que Angola finalmente assuma o lugar de destaque que lhe cabe nos cenários regional e internacional, abrindo perspectivas positivas para o aprofundamento das muitas dimensões de nossa cooperação bilateral. Angola desponta com fortes credenciais para ter um papel de relevo na África Austral, região que tem gerado uma longa série de fatos positivos e comandado boa parte da atenção da comunidade internacional no Hemisfério Sul. A independência da Namíbia, o fim do regime do apartheid e a eleição de Nelson Mandela na África do Sul, a democratização de Moçambique e, agora, a consolidação da paz em Angola permitem antever um período de desenvolvimento acelerado para toda a região. O Brasil está pronto para participar desse processo. Temos em Angola um de nossos mais importantes parceiros no mundo em desenvolvimento. Empresas brasileiras já estão presentes em diversos setores da economia angolana. O comércio bilateral, que já foi muito significativo e dinâmico, continua a apresentar um imenso potencial. Estamos buscando soluções que permitam retomar os créditos e ampliar os investimentos brasileiros em Angola. O bom encaminhamento da questão da dívida bilateral é um compromisso que estamos consolidando.
Além dos organismos multilaterais, onde temos uma notável coordenação, estamos desenvolvendo esforços conjuntos de concertação política, em foros como a projetada Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, Desprovidas de qualquer conteúdo hegemónico e qualquer veleidade de prestígio, essas iniciativas respondem a um imperativo do mundo atual.
Nossos países têm uma história de parceria no âmbito do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que tantas vezes se debruçou sobre a questão angolana, e estendem essa parceria às discussões sobre a reforma das Nações Unidas e, em particular, do Conselho de Segurança. O Brasil vem defendendo uma maior participação dos países em desenvolvimento no processo decisório internacional, como forma de ampliar a eficácia dos instrumentos de promoção da paz e da segurança internacionais, e está pronto a assumir maiores responsabilidades no plano global. Senhor Presidente, há duas décadas, Angola surgia para o mundo como nação independente. Fomos os primeiros a saudá-la. Queremos ser os primeiros a comemorar os vinte anos daquela histórica data. Olhamos para o passado e jamais nos arrependemos de nossa decisão. Antes, queríamos ter contribuído ainda mais para que as promessas de desenvolvimento, paz e justiça incorporadas ao ideal da independência não tivessem de ter esperado duas décadas para enfim poderem tornar-se realidade. Olhamos para o futuro e nos convencemos de que muito temos a construir juntos, em benefício de nossos dois povos. Esse foi o sentido das conversações que estamos mantendo; esse é o sentido da parceria que pretendemos para o futuro.
Com esse espírito, convido todos a me acompanharem em um brinde à grandeza de Angola renascida, à prosperidade do povo angolano, à amizade fraterna que nos une, à coragem e responsabilidade das lideranças angolanas que conduzem o processo de paz e à saúde e felicidade pessoais do Presidente José Eduardo dos Santos.
Muito obrigado