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Discurso no jantar oferecido pelo primeiro-ministro do Japão, Ryutaro Hashimoto - Tóquio, Japão - 14 e março de 1996
Agradeço as palavras amáveis com que Vossa Excelência nos distingue nesta noite de continuado congraçamento entre os Governos do Japão e do Brasil. Esta homenagem do Chefe de Governo do Japão traduz com grande eloquência a amizade que este país devota ao Brasil. Tenha a certeza, Senhor Primeiro-Ministro, de que o mesmo sentimento nos anima em relação ao Japão. Nós podemos, com franqueza, falar em entendimento e compreensão entre nossos países, porque entre nossos povos criou-se, há muito, o forte laço formado pela imigração, hoje um fenómeno que inverteu sua centenária direção, mas sempre uma realidade que torna especiais as relações entre o Japão e o Brasil. Ruth e eu temos desfrutado, desde nossa chegada, ao lado de todos os que nos acompanham, de uma hospitalidade que nos sensibiliza e desvanece. Ela revela, a um tempo, o refinamento da tradição japonesa e um carinho especial pelo Brasil e pelos brasileiros.
Nós somos gratos por esses gestos e pelas extraordinárias mostras de distinção com que temos sido tratados. O Brasil inteiro é sensível a essas demonstrações. É como mais um grande símbolo da nossa amizade centenária que se está desenvolvendo esta visita de Estado ao Japão. O seu significado político é, para nós, o melhor resultado do esforço que a preparação e a realização de uma visita deste porte implicam. Ao atravessar o mundo para promover este verdadeiro reencontro entre os nossos países, quis sinalizar o desejo do Brasil de elevar a parceria com o Japão ao mais alto patamar nas nossas relações com o mundo desenvolvido. Porque, como uma força económica indiscutível no plano internacional, o Japão tem uma vocação natural de projetar-se além de sua região e um lugar de destaque na era da globalização. Tenho discutido com meus anfitriões uma agenda que se traduz em um compromisso: desenvolver ainda mais uma relação única entre dois países muito diferentes, mas que souberam vencer as distâncias que os separam. Trago aos japoneses a palavra de um novo Brasil, um Brasil que recuperou a sua auto-estima, que está estabilizando a sua economia, fazendo ou aprofundando as reformas indispensáveis e que, por isso mesmo, está passando por uma ampla transformação. Nossa realidade nacional é a de uma democracia consolidada, capaz de garantir estabilidade política e social. Nossos compromissos são com a cidadania, a liberdade económica e a justiça social.
Nossos desafios: crescer com equidade e de forma sustentável, gerando empregos e riqueza. Nossos instrumentos são vários. Temos um plano de estabilização cuidadosamente concebido e gradualmente implementado, sem sustos, surpresas ou quebra de confiança dos agentes económicos, apoiado pela população e, sobretudo, eficaz no combate à inflação, na melhoria dos padrões de consumo das classes menos favorecidas e na retomada do crescimento económico.
Estamos vencendo a luta contra a inflação, uma luta que continuamos a travar todos os dias e na qual persistiremos até eliminar definitivamente da realidade brasileira os últimos resquícios da cultura inflacionária em que vivemos no passado e que tanto dano causou à economia brasileira e ao desenvolvimento social no País. Temos uma estratégia coerente e cuidadosa de desestatização, através da flexibilização de monopólios e da privatização. Não nos referimos a setores sem maior expressão ou a empresas desimportantes ou com sérios problemas administrativos, mas a setores de enorme potencial e a empresas de grande porte. Por isso o programa de privatização vem sendo conduzido cuidadosamente pelo Governo brasileiro. Temos avançado com determinação nas reformas estruturais necessárias à abertura da economia. Eliminamos restrições à participação do capital estrangeiro na atividade económica e reservas de mercado em setores como telecomunicações, energia, navegação de cabotagem. Estamos aprovando, em processo de ampla negociação com a sociedade civil, através do Congresso Nacional, uma legislação moderna e abrangente sobre propriedade intelectual, cujos efeitos positivos para a economia brasileira não tardarão. Temos uma política externa que busca maximizar os benefícios trazidos por nossas parcerias tradicionais e ampliar nossa presença em todo o mundo, particularmente na Ásia. Estamos ampliando por todas as formas nossos compromissos com a não-proliferação de armas de destruição em massa e, com isso, melhorando nossas credenciais para ter acesso a tecnologias e parcerias indispensáveis ao nosso desenvolvimento.
No nosso plano regional, formamos o Mercosul, um dos espaços económicos mais dinâmicos do mundo, com 200 milhões de consumidores potenciais, e uma verdadeira nova dimensão internacional do Brasil — um agrupamento regional que vai ampliando seus laços com os países vizinhos e com outros, atraindo cada vez mais investimentos. Conseguimos manter a tendência de crescimento da economia, reforçada pela retomada dos investimentos produtivos no Brasil e pela liberalização económica em curso. Este é um movimento irreversível, que estamos administrando de forma cuidadosa, pragmática e realista. Por isso, não se deve confundir eventuais correções de rumo com um retrocesso. O Brasil está inteiramente consciente de que a estabilidade a longo prazo e uma melhor participação relativa nos fluxos internacionais de comércio, investimentos e tecnologias passam por uma maior integração na economia globalizada, que caracteriza esta etapa do desenvolvimento histórico mundial.
Estamos fazendo o que era preciso fazer: estabilizar, crescer, abrir a nossa economia, de forma competitiva, à economia mundial e aos fluxos de capitais produtivos e de tecnologias indispensáveis ao nosso desenvolvimento. Por isso o Brasil é hoje, e será sempre, um parceiro confiável e responsável, um parceiro capaz de colocar suas relações com o Japão em um novo patamar. Porque o Japão tem um papel fundamental a desempenhar no desenvolvimento brasileiro e na consolidação do rumo positivo que tomamos. E porque o Brasil oferece ao Japão uma parceria singular e privilegiada nesse mundo globalizado. Senhor Primeiro-Ministro, minha visita ocorre quando estamos comemorando os cem anos das relações entre Brasil e Japão. Este é um momento de renovação - um ciclo se encerra e outro se inaugura, pleno de possibilidades, mas com uma nova base na realidade. Estamos iniciando uma nova era nas relações nipo-brasileiras, uma etapa que, estou certo, trará uma proximidade cada vez maior entre brasileiros e japoneses. É com esse espírito que peço a todos que se juntem a mim num brinde à prosperidade do povo japonês, à nossa amizade centenária, símbolo da união entre brasileiros e japoneses, a essa nova era que se inicia para nós, à saúde e felicidade de Suas Majestades, os Imperadores do Japão, e à ventura pessoal de Vossa Excelência e da Senhora Ryutaro Hashimoto.
Muito obrigado