Notícias
Discurso no jantar oferecido ao Presidente do México - Brasília, 28 de janeiro de 1999
Contrariando os hábitos desta Casa, que respeito, vou me afastar um pouco do texto. Como não me foi dada a autorização para falar em espanhol, falarei o quanto possível lentamente, para que talvez, mesmo com pouca tradução, possam me entender. Quero falar, fora do texto, que a presença de Ernesto Zedillo no Brasil é alguma coisa que tem para nós um significado muito forte. Eu queria expressá-lo de viva voz, diretamente. E tem um significado muito forte porque o Presidente Zedillo tem sido, para nós, brasileiros, uma pessoa que representa modificações muito importantes no México e uma integração crescente do México à América Latina. Se dificulu ali, num ou noutro ponto, uma coisa é certa: a amizade entre o México e o Brasil só tem se robustecido, só tem se fortalecido com a presença do Presidente Zedillo à frente da República do México. Agora, que vem acompanhado da Dona Nilda, e desse conjunto tão impressionante de seus auxiliares - e me permita citar, Senhor Presidente, Rosário Green, conhecida minha há tantos anos, que foi responsável por publicar no México um debate que tive com nosso mestre Raul Prebisch -, cercado por pessoas dessa eminência, como os Senhores Ministros que o acompanham. Com este grupo tão expressivo de empresários que aqui está, só tenho que agradecer e dizer que sinto na presença de Vossa Excelência e de seus acompanhantes a força dos laços que unem o Brasil e o México e a projeção de uma dimensão latino-americana e hemisférica. Fiz questão de visitar o México. Não me esquecerei mais do modo carinhoso como fui recebido naquelas terras. Carinho esse que para mim, agora como Presidente, acrescenta a sensação que sempre tive no México. Se me permitem uma referência pessoal, depois que, por razões certamente estranhas à minha vontade, saí do Brasil em 1964, o primeiro Natal que passei no exílio, longe da minha família, foi na Cidade do México. Cercado de amigos. Menciono um só: Pablo Gonzales Casanova. Cercado de amigos, encontrei no México aquele ambiente de afetividade e aquela continuidade espiritual, que é o que une, realmente, os nossos povos. De modo que, se tive oportunidade, e tantas vezes as tive, de estar no México e de lá ser recebido, primeiro como cidadão, como professor e depois, aí nesse caso como representante do Brasil, eu não posso senão estar muito contente pela retribuição da visita.
- e foi a última vez que eu o vi - Octávio Paz, com o qual jantamos, na residência de Los Pinos. E se há algum intelectual en nuestra América que realmente signifique, nos dias contemporâneos, uma expressão sublime, do pensamento e do modo de escrever, é Octávio Paz. Quisera que Octávio Paz pudesse ter sido Embaixador no Brasil e, talvez senão ao invés, junto com Vislumbres de 'índia, pudesse ele ter escrito Vislumbres do Brasil. Ele nos ensinaria, a nós, brasileiros, como foi capaz de ensinar àqueles que vivem na índia, a riqueza da nossa cultura. Uma terra, que é capaz de produzir um homem como Octávio Paz só pode ser abençoada, e tem que ser aplaudida e estimada por todos aqueles que, vizinhos, embora um pouco distantes, seguem, mesmo de longe, os acontecimentos da América Latina. Tenho, também, nessa mesma direção, a satisfação de ver e de saber que agora a Academia Brasileira de Letras e a Academia Francesa estabeleceram um prémio da latinidade, e o primeiro agraciado foi um mexicano, Carlos Fuentes, outro mexicano que engrandece a vida cultural latino-americana. Um homem que, com certa frequência, nos visita e que deixa a sua marca. Ainda recentemente, recebi suponho que seu último livro: Los anos de laura diaz, e me recordei de La muerte áe Artémio Cruz e da La región más transparente, e de tantas obras que, para aqueles que tivemos a ventura de poder conhecer a literatura mexicana, sabemos que são obras que marcam para sempre. Além dessa relação que nós temos, espiritual, com o México, quero dizer, também, que temos outros lados do nosso relacionamento que merecem realce. Recordo-me que eu era, então, Ministro das Relações Exteriores, em Montevidéu, quando recebemos a informação e discutimos, na Aladi, que havia algum problema da permanência do México na Aladi, porque o México tinha feito uma associação com o Nafta. A minha posição foi imediatamente clara, foi de apoio. E pedimos que se inscrevesse - foi o Presidente Itamar Franco quem o fez, em seu discurso - que, nas nossas declarações de Montevidéu, que os destinos do México estavam, em parte, traçados pela geografia, pela sua vizinhança, que o levam, necessariamente, a uma aproximação legítima, por seus interesses com os vizinhos mais próximos, do norte. Mas a essência do seu espírito é latino-americana, e nós queríamos ter o México sempre entre nós. Portanto, não via contradição entre o México no Nafta e o México na Aladi.
é com esse mesmo espírito que nós, hoje, no Mercosul, estamos construindo, juntos, uma integração hemisférica, que há de ser feita respeitando as nossas peculiaridades, mas há de ser feita, sempre, com essa sensação que nós todos temos, de que, fundamentalmente, nós pertencemos - eu uso, de novo, Octávio Paz - à mesma hermandad. Estamos juntos por alguma coisa que transcende, até mesmo, interesses eventualmente contraditórios, aqui e ali, e saberemos levar adiante, neste momento de desafio, de reorganização das economias mundiais, saberemos levar adiante as nossas relações. Como mesmo vimos, esta manhã, na reunião de trabalho que tivemos, o que ficou claro é uma mensagem de otimismo, no que diz respeito aos acordos que vamos traçar, de comércio, das tarifas alfandegárias, para que possamos intensificar a relação entre o México e o BrasilS Relação essa que não queremos apenas no plano comercial, mas queremos - e já ouvis com alegria, agora, ao saudar tantos empresários - uma relação muito viva, também, de participação direta na produção aqui, no Brasil, e espero que, também, de produção lá no México. Senhor Presidente, não me quero alongar. Meu entusiasmo pelo México é tanto, que eu falaria além do razoável para as pessoas que aqui estão, com muita amizade, mas, certamente, com alguma fome. Quero apenas lhes dizer que há algo mais que me parece que nos aproxima, além da nossa relação pessoal, além do quanto tenho aprendido, Scompanhando a evolução do México e tratado, muitas vezes, de aproveitar essa evolução para aplicar algumas medidas aqui, no Brasil. Existe alguma coisa de que eu falo há alguns anos. Talvez não tenha o assentimento de Vossas Excelências. Mas acho que Brasília é a cidade mais "asteca" do Brasil. Brasília é uma cidade que me lembra, muitas vezes, algumas daquelas pirâmides, algumas daquelas regiões onde há, realmente, o local da celebração cerimonial do Poder. E ninguém como os antigos astecas sabiam o quanto era necessário simbolizar o Poder. Brasília é, de certa maneira, uma revivescência desse espírito simbólico e uma capital que foi feita para que nela se celebrassem os ritos do Poder. Vejo - pode ser que me equivoque - e não só entre os astecas, vi também algo em Oaxaca, vi em tantos lugares monumentais, a presença do que hoje chamariam Estado. Só que lá, como aqui, essa presença é só simbólica. Finalizo dizendo que se alguma coisa - e há muitas - há de ficar para sempre marcada, na história do México, é que, estando no ápice dessas colunas de Poder, esses monumentos de Poder, o Presidente Zedillo mostrou saber que o verdadeiro Poder, realmente, emana do povo. E foi capaz de, realmente, tomar medidas de muita coragem, que fizeram com que a democracia, progressivamente, passasse a ser - como aqui fizemos nós, também - não apenas uma referência retórica, mas uma prática que começa pelo exercício do Poder por aquele que mais Poder tem, que é o Presidente. O Presidente Zedillo fez aquilo que me parece que marca os homens de Estado: mostrou saber que há limites para o Poder. E que o Poder, para ser respeitado, o Poder, para ter autoridade, tem que ser um Poder que, realmente, esteja embasado não nos monumentos que erigimos em homenagem a ele, mas na vontade do povo. E o Presidente Zedillo foi capaz de superar várias crises importantes, do México, de reconstruir o México, de reconstruir a democracia, de permitir que o jogo democrático funcione. E nós, que estamos na Presidência, sabemos que, muitas vezes, esse jogo é um jogo delicado. Outras vezes é bruto, mas ele é essencial, porque é ele que, realmente, garante a continuidade da sociedade, dentro de um espírito de liberdade.
Quero, portanto, saudar o meu amigo, o Presidente do México, o grande estadista Ernesto Zedillo. E peço, também, que, ao elevarmos nosso copo, nós saudemos a sua esposa, Senhora Nilda Patrícia Velasco.