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Discurso no jantar em homenagem ao primeiro-ministro de Portugal, António Guterres - Brasília, 15 de abril de 1996
Excelentíssimo Senhor Primeiro-Ministro da República Portuguesa, meu amigo António Guterres; Excelentíssima Senhora Luíza Guterres; Senhor Embaixador da República Portuguesa em Brasília, Pedro Ribeiro de Menezes; Senhores Membros da Comitiva Portuguesa; Senhor Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Luís Eduardo Magalhães; Senhores Ministros de Estado; Senhor Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal, Senador António Carlos Magalhães; Senhores Senadores; Senhor Líder do Governo no Congresso, Deputado Germano Rigotto; Senhores Deputados Federais; Senhores Senadores; Senhoras e Senhores; Peço licença ao Primeiro-Ministro de Portugal para, em vez de ler um texto, falar com mais liberdade, para poder dar asas ao sentimento, que é muito profundo, de todos nós, brasileiros, de reconhecimento por Portugal, pelo fato de o Primeiro-Ministro ter feito sua primeira viagem, depois de empossado na função, aqui à nossa terra; e pelos laços tão profundos que nos unem, cultural, política e economicamente, Brasil e Portugal.
Primeiro-Ministro António Guterres, eu me recordo de, no Palácio de Queluz, quando nos vimos fora da agenda, creio, um encontro que não foi fortuito, foi conhecido, mas foi rápido, o suficiente para deixar no meu espírito, com muita clareza, a impressão de que Portugal tem um líder e que esse líder é um homem que, por convicção, sabe que o relacionamento do Brasil com Portugal é um relacionamento básico, tem a ver com as nossas raízes, tem a ver com os nossos sentimentos, tem a ver com os nossos interesses, tem a ver com o modo como nós encaramos o futuro. É curioso ver que, num país como o Brasil, um país multirracial, um país tão diversificado, um país que recebeu influências culturais as mais diversas, a marca portuguesa é absolutamente indelével. É impossível não reconhecer a marca portuguesa. Essa marca portuguesa não está apenas caracterizando aqueles que têm ascendência portuguesa, como muitos de nós temos. Não. Basta olhar um paulista de origem japonesa, ou um gaúcho de origem alemã e, de repente, vai se ver que, embora tragam, ao mesmo tempo, algo das suas raízes culturais, eles são também brasileiros. E, quando são brasileiros, são portugueses. Isso é muito dentro de nós, e esse "nós" é o conjunto dessa população brasileira. Portugal é parte direta do Brasil, é tão parte nossa como o ar que se respira. A gente nem percebe que o oxigénio é fundamental, mas é só fechar um pouquinho os canais de oxigénio e ver-se o que acontece. A mesma coisa é com Portugal e o Brasil. Todas as vezes em que há qualquer problema, em que nos afastamos um pouco, nós nos sentimos inquietos.
E, ao vê-lo no Palácio de Queluz, eu me senti tranquilo. Tranquilo porque apostava — não posso, sou estrangeiro, mas apostava de longe -, porque sabia que, vencedora a aposta, o Brasil iria respirar com calma esse estar juntos, esse sentido de pertencermos a alguma coisa que, muitas vezes, não sabemos nem definir muito bem. É, portanto, a esse líder, a essa pessoa que aqui está, que quero dirigir as minhas primeiras palavras, de gratidão, por ter vindo nos visitar e porque tem já mostrado, desde o início do seu exercício no Governo, o interesse que tem pelo Brasil. Interesse não retórico, interesse que já não tem muito a ver com aquela história de que algum dia o Brasil, para entrar na Europa, precisaria de Portugal. Precisa. Mas não é por isso que nós temos interesse recíproco, é muito mais profundo do que isso. E o Primeiro-Ministro Guterres expressa com muita naturalidade esta realidade contemporânea de Portugal e do Brasil. Mas eu queria, ao referir-me a Primeiro-Ministro, não esquecer também de fazer duas referências, e, ao fazê-las - e aos três que menciona, aos dois além do Primeiro-Ministro -, faço uma homenagem a todos os portugueses que têm liderado aquele país. Jorge Sampaio também é pessoa muito querida nossa e hoje é Presidente de Portugal. Recordo-me de que, quando estava nessa visita recente a Portugal, havia um encontro na Câmara de Lisboa, e nós, depois de uma solenidade em Coimbra - solenidade bonita, pomposa -, como somos brasileiros, fomos nos fartar numa cidade próxima, comer uns leitões à barrada, exatamente, e tomar um vinho extraordinário. Houve um momento em que se duvidou: chegar-se-á até a Câmara de Lisboa? Eu disse: chega-se, temos que chegar. E fui lá para dar um aperto de mão em Jorge Sampaio. Na época, era o Presidente da Câmara de Lisboa; hoje, é Presidente de Portugal.
E, aqui no Brasil, como, de resto, em muitas partes do mundo, não há pessoa que não tenha carinho todo especial por Mário Soares. Eu também queria homenageá-lo nesta noite e repetir o que disse em Bariloche numa reunião que houve na Cúpula Ibero-Americana - estava lá o Rei da Espanha. O Presidente da Argentina homenageou o Rei da Espanha, e eu disse: nós, brasileiros, temos a satisfação de dizer que temos dois reis, o da Espanha e o de Portugal, que é Mário Soares. E, sendo Rei de Portugal nos tempos modernos, é também, de certa maneira, Imperador do Brasil. De modo que eu gostaria de, nesta noite tão grata para nós, fazer essas referências pessoais e, ao fazê-las, estendê-las a todos aqueles que estão nesta comitiva portuguesa que acompanha o PrimeiroMinistro - comitiva importante, de homens de espírito, de homens políticos, de empresários que perceberam, como nós, brasileiros, percebemos também, que é chegado o momento de estreitarmos mais as nossas relações. Sei que Portugal se dedicou muito à sua inserção europeia e sei da importância da União Europeia. E os portugueses sabem, também, que o Brasil se dedicou, se devotou à nossa inserção sul-americana, em especial no Mercosul. As duas realidades são realidades palpáveis, realidades presentes, geográficas, além de históricas, Portugal na Europa e o Brasil na parte sul da América do Sul. Mas é exatamente por isso, exatamente porque neste momento Portugal já tem uma posição tranquila na Europa, e nós também temos uma posição tranquila no Mercosul, mais necessária do que nunca, que a relação brasileiro-portuguesa se mantém forte, não porque tenhamos o que temer dos nossos vizinhos. Pelo contrário. Ao contrário do que muita gente imaginava, que viesse a ser um mundo homogéneo, um mundo, digamos, achatado pela mídia, achatado pelos meios de comunicação rápidos, por uma cultura uniforme, é um mundo que, ao mesmo tempo em que é trabalhado por forças de uniformização, é também um mundo da diversidade. É precisamente ao nos integrarmos numa economia que é global, numa sociedade política que se globaliza crescentemente, em valores que se universalizam, é nesse momento que esse plus, esse "a mais" que as distinções culturais acrescentam é decisivo. É por isso que o Brasil no Mercosul e Portugal na União Europeia têm muito de próprio, muito de si. E, nesse próprio, nesse de si, é irrefreável uma referência à nossa língua comum. Dentro de poucos dias, estaremos lá em Maputo, para discutir a comunidade dos países de língua portuguesa, assunto que é muito nosso, brasileiro, português, assunto com o qual os nossos embaixadores, o Embaixador Lampreia, que estará presente lá em Maputo, o Embaixador Itamar Franco, o Embaixador José Aparecido, que antes esteve em Portugal, e os que os antecederam todos tivemos sempre essa preocupação. E o mesmo se diga dos Embaixadores portugueses no Brasil. No caso do Embaixador Lampreia, é uma maravilha: o avô do Embaixador Lampreia era Embaixador português no Brasil - e aí há a junção, em pessoa, desse espírito luso-brasileiro.
Bom, todos nós, os nossos Embaixadores, os nossos povos, nos preocupávamos sempre com a questão da língua. Hoje pela manhã - um caso de generosidade - nos foi dito que, embora o português tenha como pátria Portugal, e, portanto, é uma vocação paterna de Portugal, não é um pai possessivo. Disse o Ministro da Cultura que pediu que não fosse um pai possessivo e nos perdoasse o modo um pouco capenga de falarmos o português. Mas, como somos numerosos, repetimos os nossos erros, e eles acabam sendo incorporados. É com esse espírito que hoje temos a Comunidade da Língua Portuguesa. E isso é muito importante. Eu dizia ao Primeiro-Ministro, esta manhã - e agora me chama muito a atenção -, do fato de que, também aqui na América do Sul, onde antes o espanhol era (e ainda é) a língua predominante, uma língua belíssima, de grande importância e que muitos de nós falamos como se fosse quase língua própria, nossa, era avassalador, porque os de fala hispânica não falavam português. Recentemente, estive em Buenos Aires: o número de pessoas que buscam escolas para aprender português é impressionante. É preciso preparar e formar professores de português: em função do Mercosul, como os homens de negócio e os homens políticos não podem se limitar às camadas cultas, têm que entrar em contato com aqueles que não entendem a outra língua, passam também a se interessar pelo português. Na África, é fundamental que se mantenha o português. Há pouco, estive em Macau. Fui porque o Mário Soares queria estar junto comigo em Macau. Não deu certo. Havia um problema: o dia em que eu podia ir não era o dia da sorte. E, na China, há dias de sorte. Sorte foi do Mário Soares, que pôde estar lá em um dia de sorte. Eu não pude.
Quando cheguei a Macau, vindo da China, mais uma vez fiquei impressionado: falavam português - não serão muitos os que falam português, mas falavam português. E, além de ouvi-los falar português, vi, lá em Macau, um pouco disso que descrevia sobre o Brasil, lá longe, na China, urn outro mundo: pois tem algo que é nosso. De pronto, a gente sente uma certa familiaridade. Não sei se é por causa da comida, que foi extraordinária, na casa do Governador de Macau, e que era certamente portuguesa, mas o fato é que nos entusiasmou muito aquela presença portuguesa. Meu Deus do céu, lá na China, lá longe, Portugal conseguiu plantar suas raízes. Pois bem. Com isso, com essa língua, com esse povo que foi capaz desse gesto imenso, nós, agora, temos uma responsabilidade histórica, e quero recordar, para terminar esta saudação, essa nossa responsabilidade. Dentro de pouco tempo, vamos comemorar os quinhentos anos do descobrimento. É data marcante. É data marcante porque é o momento não apenas de recordarmos os feitos, mas é data de divisarmos o horizonte, vermos o futuro, vermos o que faremos desta herança, o que faremos, juntos, desta herança. Hoje me entusiasmei porque o Primeiro-Ministro pediu que o Ministro da Cultura de Portugal permanecesse aqui no dia 22 de abril. Eu irei à Bahia: como sabem os baianos que aqui estão, vamos a Porto Seguro e vamos ver, lá, o início do que vai se chamar um museu ao vivo, um museu natural. Disse o Ministro Weffort, da Cultura, que, ainda hoje, quem se aproxima da costa pode divisar a mesma paisagem que foi divisada pelos portugueses que aqui aportaram; e pode descrever aquela costa à moda de Pêro Vaz de Caminha. Queremos que aquele local seja, hoje, um símbolo não apenas do fato acontecido há quinhentos anos, mas da perpetuidade desse fato, por essa presença portuguesa tão marcante aqui. E o Ministro da Cultura, que representará Portugal nesse simbolismo, no início da comemoração - porque estamos preparando a comemoração - certamente mostrará aos brasileiros exatamente o que estou dizendo: que ali, em Porto Seguro, nós estamos, na Bahia, comemorando ao mesmo tempo a presença portuguesa. Quanto mais pensamos que o Brasil, hoje, é um país independente, autónomo, cioso de si mesmo, mais nos sentimos próximos de Portugal. Por todas essas razões, peço aos presentes que brindem comigo em homenagem a António Guterres e a D. Luíza Guterres.