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Discurso no almoço oferecido ao Presidente da África do Sul, Nelson Mandela - Brasília, 21 de julho de 1998
Bem-vindo ao Brasil, Presidente Nelson Mandela, e - com alguns poucos dias de atraso — feliz aniversário e votos de muitas felicidades pelo casamento, extensivos à senhora Graça Machel. A sua presença é motivo de alegria e inspiração para todos nós brasileiros - alegria porque estamos dando mais um passo importante no reencontro de duas nações irmãs. Sempre soubemos que o Brasil e a África do Sul tinham todas as razões para caminharem junto. No passado, porém, a repulsa da sociedade brasileira pelo regime do apartheiá adiou o projeto de parceria e integração que hoje podemos levar adiante e que celebramos com esta visita. Inspiração porque o exemplo de sua vida de luta pela liberdade e seu papel decisivo na reconciliação da sociedade sul-africana valem para o conjunto das nações.
O nome de Nelson Mandela é hoje um símbolo universal das virtudes da liderança política em seu significado histórico e humano mais pleno. Por isso, lamentamos apenas que Vossa Excelência seja um só. O mundo de hoje ainda está marcado por conflitos e manifestações de intolerância em diversas regiões. O mundo de hoje, Senhor Presidente, precisa de vários Mandelas, pois, embora a experiência do apartheid tenha sido realmente singular em sua lógica absurda, em todas as regiões do mundo, mesmo nas mais prósperas, existem problemas por vencer, injustiças por corrigir, dívidas por saldar e laços de solidariedade para recompor. E a lição que vem do seu exemplo; confirmada pela história recente de nossos países, é que a superação dos desafios coletivos passa pela conquista da liberdade, pela tolerância, pela valorização da diversidade, pela iniciativa e participação dos indivíduos. E isso é especialmente verdadeiro em nações como o Brasil e a África do Sul, infelizmente ainda caracterizadas por graves disparidades de riqueza e qualidade de vida entre os seus cidadãos. Na África do Sul, seu governo está conduzindo a sociedade na enorme e difícil tarefa de superar o legado de injustiças e desigualdades de um regime de triste memória. Também no Brasil, ainda hoje, enfrentamos o desafio de superar uma pesada herança de séculos de exclusão social. A sociedade brasileira, ao longo da História, aprendeu a valorizar a diversidade étnica e cultural como um elemento de fortalecimento da nacionalidade, motivo de orgulho para todos os brasileiros. Aprendeu também que a persistência de qualquer forma de exclusão ou discriminação impede a realização mais plena daqueles valores.
Senhor Presidente, nossos países têm ainda um longo caminho a percorrer. Esse caminho, que brasileiros e sul-africanos já estamos trilhando, é feito de democracia, mais democracia e mais democracia. As enormes distâncias sociais que separam parcelas de nossas sociedades devem ser encaradas de modo algum como um impedimento a um desse projeto. A indignação diante do injusto e do injustificável, força maior do progresso histórico, tem no regime democrático seu melhor veículo de influência sobre a realidade. As hierarquias sociais que resistem teimosamente ao passar do tempo, os privilégios antigos e também os novos, as discriminações de toda ordem só podem ser abolidos pela ação livre e consciente da cidadania, em um ambiente de democracia e de liberdade. Para isso, é necessário que o motor central das transformações seja, não o Estado, nem o mercado, mas, sim, as pessoas, os cidadãos, a sociedade. Senhor Presidente, não basta, no entanto, mudar os países isoladamente. É preciso também mudar as relações internacionais. Como no âmbito interno das nações tal mudança passa necessariamente por processos decisórios mais abertos e democráticos e pela participação mais ampla e representativa, o Brasil e a África do Sul desempenham um papel de grande importância em seus continentes. São atores de peso reconhecido no cenário mundial e reúnem as melhores credenciais para assumirem maiores responsabilidades nas deliberações internacionais. Nossas credenciais serão ainda mais fortes se estivermos unidos por uma parceria ampla e intensa e se, cada vez mais, dialogarmos sobre os temas da agenda internacional. E isso é exatamente o que estamos fazendo. A minha visita à África do Sul em 1996 e a sua presença, hoje, no Brasil simbolizam a importância que atribuímos à amizade entre os nossos países.
Presidente Nelson Mandela, o Brasil celebra com emoção a sua visita. Homenageamos a sua pessoa e saudamos a grande nação irmã da África do Sul. Por todas essas razões, peço aos presentes que se juntem a mim em um brinde pela felicidade pessoal de Vossa Excelência e da senhora Graça Machel, pela boa ventura do povo sul-africano e pelo futuro de amizade e cooperação que mais haverá de unir o Brasil e a África do Sul.