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Discurso no almoço em homenagem ao Presidente do Governo Espanhol, José Maria Aznar - Brasília, 18 de abril de 1997
Eu vou pedir licença ao Presidente do Conselho da Espanha para não ler um discurso. A alegria dos brasileiros é tão grande, de podermos receber, mais uma vez, e hoje, agora, na condição de Presidente do Conselho de Ministros da Espanha, o nosso homenageado, Presidente Aznar; e a espontaneidade das relações entre o Brasil e a Espanha é de tal nature2:a que eu preferiria, se me permitissem, dizer umas poucas palavras de improviso. Eu quero deixar bastante marcado na delegação espanhola, uma vez mais, o quanto para nós, brasileiros, nos parece oportuno e nos leva a uma consideração de aproximação a presença do Presidente Aznar e de todos os senhores aqui. Vivemos, hoje, um momento da história da Espanha e da história do Brasil, que tem algumas semelhanças. E nós vamos ter que enfrentar um mundo que se renova e que coloca algumas questões e que traz também algumas perplexidades. Semelhanças - hoje, pela manhã, nós estivemos conferindo-as - são várias. Tanto a Espanha quanto o Brasil têm de enfrentar situações de ajuste das suas economias. A Espanha já o fez, com brilhantismo. Os indicadores todos que nos foram apresentados são extraordinários. A Espanha está pronta para entrar na nova fase da vida monetária europeia, tendo um desempenho comparativo que faz inveja à maioria dos países europeus. A Espanha enfrentou problemas de desemprego. A Espanha enfrentou problemas de readaptação da sua estrutura produtiva aos desafios do mundo contemporâneo. E a Espanha soube manter a democracia e deu demonstrações de grande maturidade, desde quando passou do regime autoritário a um regime democrático, como agora, nas sucessivas eleições que têm ocorrido na Espanha e na alternância de poder dentro dos principais partidos políticos de lá. Mais ainda: a Espanha soube, em todo esse momento de transição, dar a atenção devida às populações que, pelas circunstâncias do mundo contemporâneo, têm dificuldades de integração social - aos aposentados, aos pensionistas, aos professores, aos sindicatos. Houve uma renegociação, colimada agora com alguma coisa que a nós, brasileiros, dá inveja: uma negociação díreta entre os sindicatos e o setor patronal, que permitiu um avanço muito grande nas relações de trabalho da Espanha, dentro de um marco da democracia, do diálogo e da negociação.
Há, portanto, muito a aprender com a Espanha. E há, portanto, razões adicionais para que nós, brasileiros, nos aproximemos crescentemente da Espanha. Há mais do que isso. Nessa fase de reorganização da vida brasileira, nós ainda às voltas com muitos problemas, mas com o rumo definido, precisamos, ardentemente, aumentar a nossa capacidade produtiva e, sobretudo, precisamos agregar valor à nossa produção - ou seja, ciência, tecnologia -, capitais que tragam ao Brasil oportunidades maiores de desenvolvimento e de bem-estar para o seu povo.
E a Espanha percebeu isso. Se é verdade que, até há pouco tempo, os empresários espanhóis e o próprio Governo espanhol não tinham ainda percebido o quanto eles podem ser úteis no Brasil e o quanto, também, o Brasil pode lhes oferecer de oportunidades, agora, já não é mais assim. Nós podemos já comemorar uma série de presenças espanholas significativas na área económica, de bancos, de empresa de eletricidade. Mas, sobretudo, queria me referir ao fato de que nós fizemos no Brasil um esforço» grande para manter em condições de produção tecnológica a nossa fábrica de aviões, a Embraer. E foi com cooperação espanhola que foi possível fazer o Embraer 145, que o Presidente Aznar teve a gentileza de utilizar aqui, no Brasil, como eu já tinha tido a oportunidade de provar. E tenho certeza de que somos, ambos, muito torcedores desse avião, que deu bons resultados e que tem uma forte participação, em sua tecnologia, de empresas espanholas. Dou esse exemplo apenas à guisa de ilustração, porque em muitos outros setores a Espanha pode - e, certamente, o fará - ajudar nessa cooperação com o Brasil. Mas os nossos laços de relacionamento não se esgotam na área comercial, nem na área de investimentos, na área económica e nem sequer na busca de uma compreensão do mundo contemporâneo e, talvez, de traçarmos caminhos aproximados nas nossas adequações aos desafios do mundo de hoje. Há mais do que isso. Há mais do que isso, certamente, no plano cultural. E eu não preciso insistir num tema que é de todos conhecido, que é a enorme influência que tem no Brasil a literatura espanhola, o teatro espanhol, a poesia espanhola. Enfim, a presença cultural espanhola sempre foi muito forte entre nós e continuará sendo.
E, além disso, nós temos hoje oportunidades de, nos nossos âmbitos respectivos regionais, no Mercosul, aqui, na questão geral da América Latina e á Espanha, na União Europeia e, mais amplamente, na Europa, nós temos a possibilidade de nos tornarmos instrumentos de aproximação entre o mundo europeu e o mundo latino-americano. Nos une muita coisa, a começar peio fato de que nós todos somos latinos e que, pelo menos por aí, há uma sensibilidade mais facilmente identificável, nós podemos nos relacionar mais de imediato, até porque eu posso me dar ao luxo de falar a minha própria língua e os espanhóis, a própria língua da Espanha, e nós, mais ou menos, nos entendemos, se o ouvido está um pouco mais atento. Uma ou outra palavra pode escapar, mas, no conjunto, não há dificuldades maiores nessa aproximação. E isso é muito importante, essa comunidade cultural, essa comunidade de idiomas que alcança toda a América Latina e uma parte da Europa, facilita muito as aproximações. E essa aproximação, hoje, tem uma tradução política imediata: o acordo que foi feito entre o Mercosul e a União Europeia e, agora, as propostas que nós, hoje, pela manhã, renovamos. Com isso, estamos absolutamente afinados, o Presidente Aznar e eu, no sentido de haver uma cúpula euro-latino-americana, pois são, essas propostas, instrumentos valiosos na redefinição dos nossos respectivos espaços ou dos nossos espaços conjuntos, nesse mundo que está cada vez mais globalizado, mas que requer, por isso mesmo, cada vez mais que nós busquemos certas afinidades que vão além da homogeneização da globalização e que digam respeito aos interesses específicos de certas regiões. Estamos todos nos regionalizando para melhor nos universalizarmos. E, certamente, nesse empreendimento comum, Espanha e Brasil vão estar juntos, não só nas cúpulas que estão sendo propostas, não só na atividade que eu espero que nós, brasileiros, possamos exercer com maior presença nas cúpulas ibero-americanas, mas também no relacionamento bilateral e numa análise que nós temos que é muito aproximada dos problemas das Nações Unidas, na necessidade de estabelecerse a paz no Oriente Médio; na necessidade da presença espanhola e brasileira, o quanto possível, na cena internacional, de uma maneira coordenada.
Por todas essas razões, mas também pela simpatia pessoal do Presidente Aznar, pelo fato de que tão rapidamente aqui, quando nos encontramos, espanhóis e brasileiros, nós, de imediato, como se diz em espanhol, nos tuteamos. Deixamos de lado as excelências, que são características da nossa língua - e meu discurso está todo em excelência - para falarmos a linguagem coloquial do você, que em espanhol é o tu. Tudo isso mostra que existem muitas possibilidades de aproximação e algo tem a ver com a personalidade do Presidente que nos visita, que é uma pessoa dinâmica, que se impôs em seu país e que, ao mesmo tempo em que guarda toda a majestade, se assim posso dizer - sem desrespeito ao meu amigo Juan Carlos, que guarda toda a majestade do cargo -, ao mesmo tempo, é capaz de ser uma pessoa de afabilidade, de simplicidade, de cordialidade. Por todas essas razões, para expressar a nossa alegria, eu peço que nós ergamos o nosso brinde ao Presidente Aznar e às Suas Majestades, o rei e a rainha de Espanha.