Notícias
Discurso na sessão de encerramento da Reunião de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e Caribe e da UE - RJ, 29 de junho de 1999
Quero reafirmar nesta sessão de encerramento as palavras ditas pelos que me antecederam. Não quero deixar de mencionar que um evento desta natureza requer uma cooperação internacional muito intensa. E essa cooperação existiu. Entre as Chancelarias, entre aqueles que trabalham como nossos assistentes diretos, os Ministros de Relações Exteriores, os tradutores, o pessoal de apoio, o pessoal de segurança. Todos podem imaginar o esforço imenso que significa reunir quase 50 Chefes de Estado e de Governo. Quero deixar a expressão do meu agradecimento a todos aqueles que, anonimamente, trabalharam para o êxito do nosso encontro. Quero, também, juntar as minhas palavras finais às considerações do Chanceler Schrõder e agradecer à Espanha a oferta que fez, para que nós possamos ter um novo marco em nosso caminho comum por uma maior integração, tanto na área política quanto na área económica, na futura reunião em Madri. Não posso deixar de fazer referência ao tema que foi tocado no final, que é o tema da cultura, da educação. Iniciamos o nosso encontro - e eu especialmente - fazendo referências, que hoje foram aízes comuns. E se uma boa parte do nosso encontro esteve dedicada à discussão das assimetrias, das questões relativas ao sistema financeiro internacional, não podemos deixar de reconhecer pelo menos outros dois aspectos importantes que se destacaram em nosso diálogo. O primeiro é essa solidariedade que se impõe, tanto no caso, já mencionado, do Equador, quanto no dos países que têm problemas de endividamento mais forte e que precisam de um apoio efetivo dos países que dispõem de mais recursos. O Brasil, não sendo um dos países que dispõem de mais recursos, não se furtou, em casos necessários, a anular as dívidas de alguns países da América Central que enfrentaram problemas. Sendo o Brasil um país ainda com dificuldades de crescimento, não pode deixar de ver o quanto a solidariedade é importante. Assim, nós anulamos algumas dívidas e, agora, saudamos o fato de que o G-/ tenha resolvido, em forma muito mais ampla, tomar decisões sobre dívidas, anulando-as para os países mais pobres. A outra questão que eu gostaria de mencionar, ao encerrar esta reunião, é que, no esforço para diminuir as assimetrias, a questão da educação é fundamental. O Primeiro-Ministro da Dinamarca fez referência a que o grande ativo da Europa é que ela dispõe de uma população bem educada, com acesso às novas tecnologias. Se os Senhores e as Senhoras dispusessem de tempo, para que pudéssemos mostrar os esforços imensos de vários de nossos países para ultrapassar a barreira da ignorância, da falta de alfabetização e da impossibilidade de acesso ao progresso técnico, veriam que os esforços são, realmente, grandes.
No Brasil, nós conseguimos dar acesso às escolas primárias a 96% das crianças em idade escolar. Foi possível, nos últimos quatro anos, aumentar a matrícula nas universidades, a uma taxa de 7% ao ano, totalizando um aumento de 28% nas matrículas, um ritmo de crescimento superior ao registrado no período de 1980 a 1994, no qual as matrículas aumentaram em 20%. Isso é fruto da estabilidade, da governabilidade e, também, do empenho da sociedade brasileira em ultrapassar as barreiras do atraso.
A maioria dos nossos países ainda sofre fortes assimetrias no setor da educação. Só para dar-lhes um exemplo: ao mesmo tempo em que ainda lutamos contra o analfabetismo, quando se verifica como os brasileiros e brasileiras fazem as suas prestações de contas relativas ao Imposto de Renda, para nossa surpresa, cerca de 83% daqueles que informam seus rendimentos à Receita Federal utilizam a Internet ou o fazem em disquetes que enviam ao Governo. Se os Senhores e Senhoras pudessem ver, nas regiões mais pobres desta cidade, conversando com professoras, crianças e mães de crianças, as demandas que são feitas - e ainda recentemente recebi uma pesquisa a esse respeito - verificariam que, além do desejo de dominar o português, é frequente o interesse em duas linguagens: uma, a da Internet, dos computadores; a outra, o inglês. É a demanda das populações mais carentes. Por quê? Porque sentem que a globalização é um fato. Como disse uma das mães: "Se o FMI está no Brasil, por que os meus filhos não vão aprender inglês, para que possam discutir com aqueles que têm algo a ver com as diretrizes do mundo?" Percebem, e percebem agudamente, que a globalização é um fato da realidade. Não querem participar dela de forma passiva, mas de forma ativa. Esse é o grande desafio, e ele passa inequivocamente pela questão cultural, pela questão do progresso técnico e pelo acesso de todos aos benefícios do progresso cultural. Concluo retomando um tema que foi mencionado pelo PrimeiroMinistro Basdeo Panday. Na verdade, se é certo que nós realizamos um encontro histórico e se é certo que as nossas raízes culturais são europeias, elas não são só europeias. Elas são, sobretudo, raízes culturais que se redefinem e que criam algo de novo. Há alguns anos - há muitos anos, na verdade - eu estive em Cambridge, como professor visitante, e tive a oportunidade de escrever um trabalho a que dei o título de "A originalidade da cópia". Eu me referia ao pensamento económico latino-americano, que, apesar de estar embasado em alguns autores clássicos, tinha m contorno muito específico, que teve uma imensa influência em todo o nosso continente. Era uma cópia, mas era original.
E eu me pergunto: que cultura não é uma "cópia original"? Confirmei isso quando pude ver, para minha alegria, em certas regiões da Ásia, como o classicismo helénico se transformou, em contato com o hinduísmo, e produziu uma grande cultura como a Gandhara e grandes marcos civilizatórios. Aqui, de alguma maneira, o que nós estamos fazendo é recriar a Europa. Mas com pitadas de África, com pitadas de Ásia, de índia, com pitadas de Japão. Ê todo um universo novo, que é perceptível. Basta olhar qualquer dos jardins do Rio de Janeiro: tem desenho francês, eventualmente um desenho inglês, mas o trópico domina tudo e faz com que as raízes culturais fiquem esmaecidas e, talvez, abrandadas pelas sombras imensas das árvores tropicais.
Na culinária, perceberão a mesma coisa: quando imaginamos estar oferecendo uma comida francesa, ou alemã, ou portuguesa, sempre colocamos um pouco de pimenta ou algum desses condimentos locais que, sem deformar, transformam o paladar. Com relação a mim mesmo, costumo dizer que tenho, basicamente, do ponto de vista do espírito, uma formação cartesiana. Mas digo sempre: com algum elemento de candomblé ou de vodu, porque, sem esse elemento, eu não seria propriamente brasileiro, não seria propriamente latino-americano. É esse encontro, desse Mundo Novo, s, em conjunto, que dá um significado cultural às decisões políticas e económicas que são necessárias para combater a miséria, a pobreza, para que possamos preservar o meio ambiente, para que possamos ter, cada vez mais, o G-7 atuando positivamente, no desenvolvimento de todos esses elementos novos, da cultura contemporânea, do meio ambiente, da tecnologia. E tenham os Senhores e as Senhoras a certeza de que tudo que vier da Europa não será deformado, mas transformado. A nossa aspiração é que também o mundo europeu possa desfrutar do que de bom tenha sido feito aqui. Quem sabe, amanhã, na Europa, possam encontrar, também, elementos culturais, até mesmo materiais, de algo que tenha sido produzido por nós. E ficarão sem saber: é original ou é cópia? Somos nós que copiamos ou foram eles que copiaram de nós? Pouco importa. Estaremos juntos, construindo um mundo melhor. Muitíssimo obrigado.
Está encerrada a sessão