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Discurso em almoço oferecido ao Presidente da República da Namíbia, Senhor Sam Nujoma - Brasília, 28 de setembro de 1999
É com grande prazer que dou as boas-vindas a Vossa Excelência, Presidente Sam Nujoma, e à comitiva que o acompanha. Sua presença em Brasília nos dá a oportunidade de expressar-lhe nossa satisfação pelos avanços alcançados pela Namíbia desde sua independência, há nove anos. Oportunidade também de manifestar nosso respeito e admiração pelo estadista que, durante cerca de quatro décadas, lutou pela liberdade de seu povo e agora o lidera em seu esforço de construção nacional. Não temos dúvida de que as conquistas logradas com o funcionamento do sistema democrático e a perseverança no caminho do desenvolvimento económico asseguram à Namíbia um papel de crescente relevo no continente africano. Vossa Excelência é um símbolo de luta pela liberdade e de resistência contra a opressão. Amadurecido por essa experiência, seu governo colhe hoje os frutos de uma política consistente de defesa dos interesses e anseios do povo namibiano. Um política com visão de longo prazo, responsável pela implantação, em apenas dois anos, de cerca de 6o novas empresas no país, o que representa um aporte de capitais e tecnoogias que é decisivo para a criação de novos empregos e para enfrentar os desafios de uma economia internacional cada vez mais competitiva. A Namíbia fez uma clara opção pela dinamização de sua economia e, para isso, tem sabido adotar as medidas necessárias. O desenvolvimento de um importante sistema de transporte e comunicações, que oferece condições privilegiadas de contatos para além de sua vizinhança imediata, permitiu que seu país venha se afirmando como portão de entrada para toda a região do centro e do sul da África. No plano político, a Namíbia tem participação destacada na discussão e no encaminhamento das grandes questões que preocupam os povos africanos. Temos consciência de que a segurança na África, e particularmente na África Central e Austral, é tema essencial para a Namíbia. Esse é um problema que preocupa também aos brasileiros, ligados a seus irmãos africanos por tantos vínculos históricos, culturais e geográficos.
É uma grande tristeza, para nós, testemunhar a deterioração da situação em Angola, país ao qual o Brasil se sente tão próximo e ao qual atribui alta prioridade em sua política externa. Como conversamos esta manhã, Presidente Nujoma, é mais do que tempo de se dar fim ao conflito interno em Angola. Para isso temos trabalhado no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no qual Brasil e Namíbia atuam em estreita cooperação neste e em outros temas. Para isso temos trabalhado também no âmbito de nossas relações bilaterais, a fim de contribuir para a solução desse conflito que já se prolongou demasiadamente e atinge proporções inaceitáveis de uma verdadeira tragédia humanitária. Durante os anos da Guerra Fria, vimos desenrolar-se, no território daquele país irmão, um dos piores capítulos do conflito ideológico. Hoje, mais do que nunca, impõe-se a necessidade de atuarmos com determinação e vontade política para resgatar as condições de paz indispensáveis para que o povo angolano possa dedicar-se à construção de seu progresso e de seu bem-estar social. Acompanhamos também, com muito interesse, o processo de paz na República Democrática do Congo, que tem contado com a ativa participação de Vossa Excelência. Congratulamo-nos com a assinatura do Acordo de Lusaca e esperamos que, em breve, a estabilidade naquele país possa augurar melhores momentos para os povos da região dos Grandes Lagos. O reconhecimento da atuação internacional da Namíbia refletiu-se, Presidente Nujoma, na recente eleição de seu Chanceler, Theo-Ben Gurirab, para a presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas. O Governo brasileiro se rejubila com essa escolha, animado pela profunda convergência de interesses e de pontos de vista que caracteriza a atuação de nossos países nos foros multilaterais. Somos parceiros na vizinhança atlântica. Estamos unidos pelo mar, pelo Atlântico Sul, que representa, entre nossos dois países, algo assim como uma vasta fronteira, repleta de possibilidades e desafios. A Zona de Paz e Cooperação no Atlântico Sul é um património diplomático que compartilhamos. Continuaremos a valorizá-lo como instrumento para a promoção de nossos interesses comuns em áreas tão diversas como a não-proliferação, o desarmamento nuclear, a preservação ambiental, a cooperação e o desenvolvimento económico. E quando falo em desenvolvimento - objetivo central de nossos povos - não posso deixar de notar que temos muito a fazer, juntos, também no plano comercial. De importância crescente têm sido os contatos entre o Mercosul e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral.. O Brasil e a Namíbia muito têm a ganhar com a aproximação entre os dois agrupamentos. Muito a ganhar se continuarmos a perseguir resultados práticos a partir da percepção de que, nas circunstâncias que hoje vivemos na economia mundial, nenhum país e nenhuma região pode aceitar o isolamento sem por isso pagar um alto preço. Senhor Presidente, a visita de Vossa Excelência ao Brasil em 1987, ainda como líder de um movimento de libertação nacional, produziu os primeiros frutos no plano da cooperação técnica entre o Governo brasileiro e a Swapo. Em 1995, em sua primeira visita oficial ao Brasil, já como Chefe de Estado, pudemos celebrar os primeiros êxitos na cooperação bilateral, refletidos em um conjunto de acordos que atualmente regulam nossos esforços conjuntos.
Hoje, esses esforços desdobram-se em diversas áreas que incorporam temas específicos de grande interesse para nossas aspirações de desenvolvimento. Na área agrícola, graças a semelhanças climáticas e de produção, desenvolvemos um expressivo programa de treinamento de técnicos namibianos em estações e centros de estudo e experimentação da Embrapa. No campo da saúde, acaba de regressar de Windhoek uma missão brasileira que manteve diversos contatos com o objetivo de elaborar um programa de cooperação no domínio das doenças sexualmente transmissíveis e da Aids. Estamos trabalhando juntos na educação, que é um dos temas centrais de nosso tempo. Pela primeira vez, está sendo oferecido a estudantes namibianos o acesso a universidades brasileiras para cursos de graduação, bem como bolsas de estudo para cursos de mestrado e doutorado. Esperamos estabelecer, em breve, mecanismos para a cooperação entre universidades brasileiras e a Universidade da Namíbia, da qual Vossa Excelência é Reitor. Temos alcançado resultados importantes também no plano militar. A Marinha brasileira orgulha-se de ter ajudado a formar os oficiais que hoje compõem os quadros de comando da Ala Naval das Forças de Defesa da Namíbia. Praças e técnicos namibianos que irão compor os seus quadros de apoio encontram-se atualmente em centros de instrução e treinamento no Rio de Janeiro. A Escola Naval, que Vossa Excelência tevê a oportunidade de visitar ontem, forma este ano a primeira turma de guardas-marinhas namibianos. Esperamos que venha a assumir maior importância também a cooperação com a Força Aérea através da formação de pessoal. Senhor Presidente, por cinco séculos, os caminhos do Brasil e da África se entrecruzaram, tecendo complexa rede de influências e consolidando importante legado histórico e cultural. Em 1984, durante cem dias, o navegador brasileiro Amyr Klink atravessou, pioneiro e solitário, o Atlântico Sul, em um barco a remo, partindo de Lúderlitz, na Namíbia, e chegando a Salvador, na Bahia. Mostrou-nos o que podem o engenho e a arte, e uma vontade de ferro, mesmo quando contam apenas com a força dos braços e o conhecimento das correntes sul-atlânticas. Mostrou-nos também, com sua travessia, que os 7 mil quilómetros que separam nossos países são, na realidade, 7 mil quilómetros que nos aproximam. É essa aproximação que estamos celebrando hoje com a visita de Vossa Excelência. O Brasil quer aprofundar sua ligação com a Namíbia. E é com esse sentimento de proximidade que convido os presentes a me acompanharem em um brinde à prosperidade e ao bem-estar do povo da Namíbia, ao contínuo desenvolvimento das relações de amizade entre nossos povos e à saúde e felicidade pessoais de Vossa Excelência e da Senhora Nujoma. Muito obrigado.