Notícias
Discurso em almoço de trabalho por ocasião de sua visita oficial à República Bolivariana da Venezuela - Caracas, 6 de abril de 2000
É um prazer revisitar Caracas e estar aqui com a missão que é a nossa: a de continuar avançando na parceria entre Brasil e Venezuela. Quando participamos há pouco da cerimónia no Panteão Nacional, foi-me trazido à atenção algo interessante, o fato de que, na data nacional de cada país, os Embaixadores seguem a prática de depositar uma oferenda floral no mesmo local onde estive na manhã de hoje. O gesto me parece significativo. No dia em que o país celebra sua identidade, presta-se homenagem não só à Venezuela, mas também ao Libertador Simon Bolívar, cujo nome está associado à ideia de um destino comum latino-americano e sul-americano. Parece-me um belo símbolo para nações como as nossas, que são independentes e soberanas, mas têm a consciência de pertencer a uma mesma família. Foi esse o espírito, Presidente Chávez, que identifiquei em nosso encontro na manhã de hoje. Tivemos a oportunidade de falar amplamente sobre os desafios enfrentados pelo Brasil e pela Venezuela. Felicitamo-nos por nossa integração crescente.
Há poucas semanas, o Chanceler Lampreia me reportou os avanços alcançados na Comissão Binacional de Alto Nível, a Coban, em que foram assinados acordos e discutidos temas fundamentais para o desenvolvimento comum. Esse é um mecanismo que nos dá os meios para ampliar e diversificar nossa cooperação. Hoje, Brasil e Venezuela já estão fisicamente integrados. A estrada que une os dois países - no Brasil é chamada de BR-i/4 - prolonga-se por 2 mil e 500 quilómetros e liga a floresta amazônica ao mar caribenho. É a única conexão terrestre que temos com nossos vizinhos do norte da América do Sul. Sabemos que as oportunidades a serem geradas por essa estrada são imensas. Da mesma forma, a linha de transmissão elétrica entre Brasil e Venezuela reflete a complementaridade de interesses entre os dois países. Como sabem todos aqui, o Governo brasileiro considera prioritário esse projeto, que permitirá distribuir energia para uma região do país ainda pouco povoada, que necessita desenvolver-se. Disse que Brasil e Venezuela já estão fisicamente integrados, mas talvez mais importante do que isso é o fato de que estamos politicamente integrados. Integrados pela adesão aos mesmos valores: os da democracia, da liberdade, da transformação social, da superação das injustiças e distorções acumuladas durante séculos de história. Vossa Excelência, Presidente Chávez, vem liderando o povo venezuelano em um processo histórico de mudança, de transformação de seu sistema político. O Brasil acompanha com grande interesse esse processo, que dá um exemplo daquilo que é a principal virtude da democracia: a sua capacidade não apenas de acomodar a mudança, mas de ser ela própria um instrumento de mudança. Nossos países têm atuado para fortalecer as instituições democráticas. Nossa cultura política valoriza as liberdades públicas, o equilíbrio de poderes, o respeito aos direitos humanos. Tudo isso é fundamental. E é irreversível. Ao mesmo tempo, nossas sociedades aprendem que a democracia não é um ponto final, mas um ponto de partida. Aprendem que, sobretudo quando há tanta desigualdade e injustiça como ern nossos países, o próprio exercício da cidadania coloca a necessidade de que a democracia não seja apenas formal, mas seja também substantiva. Lembro-me de como Vossa Excelência levantou esse problema em nossos debates na Cimeira América Latina-União Europeia, no ano passado. É uma questão real, que eu tenho descrito como a da necessidade de radicalização da democracia. É o desafio de reduzir as desigualdades; de combater a exclusão social; de assegurar a universalização do acesso aos serviços públicos básicos, como a educação, a saúde, a segurança; e de fazer tudo isso através dos mecanismos da democracia que, às vezes, exigem paciência, esforço, mas que são eficazes, como tem demonstrado a experiência de nossos países. Quero, portanto, aproveitar este momento para renovar minha confiança no futuro de nossa região e nas grandes realizações que haveremos de alcançar no século XXI, para o bem de nossos povos. Convido a todos que me acompanhem em um brinde à perspectiva deste novo século, à amizade brasileiro-venezuelana e à saúde e felicidade pessoal do Presidente Hugo Chávez.