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Discurso durante jantar oferecido à Rainha Margrethe II da Dinamarca - Brasilia, 3 de maio de 1999
É com grande honra e satisfação que o Brasil recebe Vossa Majestade. Em nome do povo brasileiro, desejo dar-lhe as mais calorosas boas-vindas, e também aos Príncipes Henrik e Frederik e à comitiva que os acompanha nesta primeira visita de Estado de um soberano dinamarquês ao Brasil. Esta visita é indicação eloquente de que a Dinamarca compartilha o desejo brasileiro de levar adiante o fortalecimento do diálogo político e a dinamização do intercâmbio económico e cultural entre nossos países. Nos últimos tempos, têm-se intensificado os contatos bilaterais de alto nível. As visitas do Príncipe Frederik, em 1996, e do Ministro Petersen, em 1997 - assim como a ida do Ministro Lampreia à Dinamarca, há dois anos -, contribuíram para dar ímpeto renovado e contornos cada vez mais modernos a uma relação antiga, mutuamente benéfica e sempre cordial. A presença entre nós de Vossa Majestade é, a um só tempo, símbolo e ponto alto desta etapa, nova e rica de promessas e possibilidades.
as pinturas do holandês Albert Eckhout, doadas ao Rei Frederico III, levaram as primeiras imagens do Brasil aos dinamarqueses. Naquela mesma época, a Dinamarca recebia uma pequena amostra da riqueza de nossa flora, na forma da coleção elaborada pelo cientista alemão Georg Marcgrave. Dois séculos mais tarde, em 1828, o Brasil já soberano assinava seu primeiro ato internacional com o Reino da Dinamarca, o Tratado de Comércio e Navegação, marco formal inicial de nossas relações políticas e de nossa interação económica. Pouco depois, o dinamarquês Peter Wilhelm Lund, introdutor da paleontologia no Brasil, iniciava seus trabalhos em Lagoa Santa, Minas Gerais, lugar ao qual o Príncipe herdeiro retornará agora para prestar homenagem, que muito nos sensibiliza, a esse ilustre dinamarquês que fez do Brasil sua segunda pátria. O magnífico trabalho de Lund, testemunho do interesse mútuo que desejamos fortalecer, poderá ser apreciado na exposição que Vossa Majestade inaugurará no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Majestade, o Brasil colonial dos tempos de Eckhout e Marcgrave e o jovem Brasil da época de Lund certamente terão parecido exóticos e causado algum espanto aos dinamarqueses. Como também, guardadas as devidas proporções, o Brasil dos anos 6o, ensimesmado e às voltas com um momento particularmente duro e difícil de sua história, terá parecido bem pouco familiar à jovem princesa dinamarquesa que então nos visitava. Hoje, às vésperas do ano 2000, é com evidente satisfação que posso afirmar que muitas daquelas distâncias se encurtaram. E Vossa Majestade terá a oportunidade de testemunhar a dimensão dessas mudanças no curso de seu périplo brasileiro. Hoje, o Brasil é um país aberto ao mundo e atento às necessidades de seu tempo. Um país integralmente comprometido com a democracia, com os direitos humanos, com a proteção do meio ambiente e com a promoção da paz e do diálogo entre as nações.
niu seu rumo e vem dando passos decisivos para se transformar no país mais equânime e mais justo que todos queremos. A tarefa é imensa. E árduas as provações que temos enfrentado. Mas a certeza de que encontramos a boa trilha nos dá a confiança para prosseguir. A maturidade demonstrada pelo povo brasileiro nos momentos mais difíceis e sua determinação na defesa da estabilidade nos dão a certeza de que não haverá retrocesso. Vamos enfrentar as dificuldades do momento - algumas delas fruto de circunstâncias das finanças internacionais sobre as quais não temos controle - e vencê-las. Como estamos fazendo. E aproveito a presença de Vossa Majestade para expressar de público o sentido reconhecimento do Governo brasileiro pela presteza e diligência com que a Dinamarca se associou à ação internacional de apoio ao Brasil, quando mais duramente nos atingia o impacto da crise financeira internacional. Majestade, neste momento de profundas transformações da ordem mundial, vemos na Dinamarca um importante parceiro político e económico, com o qual desejamos ampliar os vínculos e o diálogo. Não escondemos nossa admiração pelo modelo dinamarquês de desenvolvimento, baseado na promoção do bem-estar de sua população, na solidariedade e no respeito ao meio ambiente. Essa admiração aumenta quanto constatamos que a Dinamarca pertence ao reduzido grupo de países que dedicam mais de 1% de seu Produto Interno Bruto à cooperação para o desenvolvimento. A comunidade internacional certamente teria muito a ganhar - e também o projeto de construção de um mundo menos desigual - se outros países seguissem esse exemplo. Os objetivos do desenvolvimento sustentável e de uma sociedade mais igualitária e solidária - aos quais o nome da Dinamarca se associa tão naturalmente - são também o norte da ação de meu governo. Estou certo de que a parceria entre o Brasil e a Dinamarca terá um papel crescentemente importante a cumprir. Há ainda muito conjuntas. A dimensão inter-regional de nosso relacionamento, por exemplo, se destaca entre as áreas que merecem atenção prioritária. Como membros do Mercosul e da União Europeia, respectivamente, Brasil e Dinamarca têm interesse direto no bom encaminhamento do processo de aproximação entre esses que são dois dos três maiores esquemas de integração regional do mundo. Nesse sentido, esperamos que um novo patamar, à altura dos desafios que nos reserva o próximo século, possa ser alcançado já em junho próximo, na Cimeira do Rio de Janeiro, com iniciativas concretas que conduzam à progressiva liberalização do comércio entre os dois blocos regionais. O fortalecimento do intercâmbio económico e comercial com a União Europeia tem para o Brasil uma elevada importância estratégica e se refletirá de forma positiva em nossas relações bilaterais. Uma eventual perda de espaço pela Europa na sua relação com o Mercosul, porém, conduziria a um estreitamento de opções, cenário indesejável para ambas as partes. Majestade, o Brasil confia no continuado estreitamento dos laços que o unem à Dinamarca. Contamos para isso com a base sólida de uma amizade de longa data, com o empenho manifesto dos dois governos e com a participação ativa dos setores privados nos dois países. Os benefícios, estou certo, serão muitos e mútuos. É com esse espírito que peço a todos que me acompanhem em um brinde à prosperidade do povo dinamarquês, à amizade fraterna entre o Brasil e a Dinamarca e à saúde e felicidade pessoais de Sua Majestade a Rainha Margrethe II, do Príncipe Henrik e do Príncipe Frederik.
Muito obrigado