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Discurso no jantar em homenagem ao Presidente do Chile, Patrício Aylwin - Palácio do Itamaraty, 25 de julho de 1990
Aguardamos este momento há 22 anos, tempo decorrido desde a última visita de Estado, ao Brasil, do mais alto dignitário da nação chilena. O diálogo entre nossos países não sofreu interrupção, porque, antes de ser um contacto entre governos, é um constante entendimento entre povos irmãos, numa tradição de amizade que remonta a 1838. Hoje podemos celebrar a abertura de novo e auspicioso ciclo nas relações bilaterais — o Presidente do Chile está entre nós, desembarca em terra brasileira para dizer-nos de suas prioridades em política externa, honranos com sua primeira visita de Estado.
Presidente Patrício Aylwin;
Uma importância especial marca a presença de Vossa Excelência no Brasil, em atenção ao convite que lhe fiz logo no início de meu governo. Não bastassem a fraternidade e a nobreza dos sentimentos que há tanto tempo unem chilenos e brasileiros, não fossem particularmente promissoras as perspectivas de crescimento de nossas relações bilaterais, sua visita vem a ser ainda um tributo à grandeza de nossos povos. Chile e Brasil voltam a se dar as mãos como duas democracias consagradas pela vontade popular. Nos dois países, as eleições para a Presidência da República representaram o coroamento de uma transição pacífica. A sociedade chilena, como a brasileira, demonstrou maturidade, equilíbrio e perseverança na reconquista de suas liberdades democráticas.
Saudámos em Vossa Excelência o estadista que, em seu país, inspirou essa transição, e que agora, como legítimo Presidente de todos os chilenos, se empenha na grandiosa obra de reconciliação nacional. No Chile como no Brasil, não nos faltam entusiasmo e confiança para empreendermos a modernização política, econômica e social. A liberdade que hoje desfrutam, a democracia que se obstinam em consolidar já constituem patrimônio da nossa história. Chilenos e brasileiros fizeram por merecê-lo, e para conquistá-lo, não mediram sacrifícios.
Como Vossa Excelência teve oportunidade de afirmar, «um governo do povo não significa que todos os problemas serão solucionados milagrosamente». O compromisso sagrado com a democracia exige devoção permanente. Nossos governos, Senhor Presidente, são depositários de um voto de confiança, mas receberam também um claro mandato de renovação. Este reencontro entre o Chile e o Brasil ocorre, assim, em circunstância afortunada: hoje, como ontem, a história nos aproxima. O anseio de mudança em nossos países atualiza-nos na modernidade. O aperfeiçoamento democrático implica combate firme às causas e mazelas do subdesenvolvimento econômico e exige, ao mesmo tempo, atenção prioritária aos desníveis sociais. Não podemos contemplar o projeto de uma sociedade moderna sem cuidarmos da construção de uma sociedade ética. Chilenos e brasileiros irmanam-se, mais uma vez, na consciência de que o respeito aos direitos do homem significa necessariamente o acesso a condições dignas de existência. Falo em nome da sociedade brasileira que, em momento crítico de sua história, me conferiu mandato de incontornável leitura: aperfeiçoar o modelo democrático, em clima de absoluta liberdade de expressão, e conjurar a crise econômica, com ênfase na luta contra os desequilíbrios sociais.
A palavra crise, em sua própria raiz, importa decisão. E não tem faltado a meu governo, a coragem de fazer frente à mais grave crise da história econômica brasileira. Vossa Excelência poderá testemunhar que já começamos a recolher resultados alentadores nesse esforço solidário de derrubada da inflação, de saneamento financeiro, de estímulo às estruturas produtivas, de agilidade administrativa, de arejamento ético e de resgate da esperança nacional. Poderá também verificar que estamos promovendo o retorno do País às principais correntes do comércio, das finanças, da tecnologia e das relações econômicas e, bem assim, recuperando a eficiência e a competitividade da indústria brasileira. Acreditamos que a modernização reclamada pela sociedade exige a abertura ao exterior, ao amparo de uma crescente cooperação internacional, em bases de igualdade e respeito mútuo. Temos consciência de que as conquistas democráticas na América Latina decorreram, apesar da insidiosa crise econômica, da evolução política que hoje privilegia uma dinâmica integracionista. A integração latino-americana deixou de ser um sonho distante para tornar-se um horizonte previsível, de que nos aproximamos pela própria vontade de nossos povos. Chile e Brasil conferem clara prioridade à América Latina, em seu empenho de reinserção orgânica na nova ordem internacional. De forma realista e flexível, incorporando as lições do passado, estamos dando passos concretos para a criação de um mercado comum a partir do Cone Sul.
Em homenagem aos que nos precederam nesse esforço, permita-me, Presidente Patrício Aylwin, lembrar a figura de um grande paladino da integração latino-americana que, como meu pai, o Senador Arnon de Mello, abraçou e enriqueceu o pensamento democrata-cristão no continente. Refiro-me ao saudoso Presidente Eduardo Frei, que, em 1968, realizou a última visita de um primeiro mandatário chileno ao Brasil. No discurso que pronunciou nesta capital, então recém-construída, indagava ele: «Por que, sendo a América Latina um continente novo, não há de dar um exemplo novo? Por que não se pode conceber nossa integração na rica variedade de expressões de cada uma de nossas pátrias, que poderiam crescer internamente segundo suas proporções, sem prejuízo de nenhuma?».
Hoje podemos dizer que Chile e Brasil, dentro do objetivo maior da integração latino-americana, já têm resposta afirmativa e comum a essa pergunta. Como regimes fundados na liberdade e nos anseios majoritários do povo, recobramos nossa vocação integracionista e desejamos fortalecer nossa trajetória solidária. A união haverá de fazer nossa força, contribuindo para a modernização de nossas economias e permitindo que a América Latina participe do núcleo dinâmico das grandes mudanças no cenário internacional. Devemos atuar de forma concertada, sobretudo ante os novos horizontes que parecem abrir-se para uma ampla solidariedade hemisférica, à qual seria bom que oferecêssemos, como pressuposto, a consistência da unidade latinoamericana.
Presidente Patrício Aylwin;
Temos em Vossa Excelência, a imagem viva da fidalguia e da vitalidade do povo chileno. A comunhão de propósitos, que hoje reaproxima nossos países, transpareceu ao longo de nossas conversações e haverá de projetar-se nas decisões que tomaremos. Convido os presentes a brindarem comigo a este momento histórico no relacionamento entre Chile e Brasil, à prosperidade crescente do povo chileno, à paz mundial e à felicidade pessoal de Vossa Excelência.