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Discurso no almoço oferecido ao Presidente da República Popular da China Yang Shangkun - Palácio do Itamaraty, Brasília - 18 de maio de 1990
Tenho a grande satisfação de dar as boas-vindas a Vossa Excelência e a sua comitiva. Ao recebê-lo na condição de primeiro Chefe de Estado chinês a visitar o Brasil, faço votos calorosos de que a permanência de Vossa Excelência entre nós marque o início de etapa ainda mais frutífera nas relações entre nossos povos. Evoco, com particular apreço, a viagem que fiz à China, em dezembro de 1987, como Governador do estado de Alagoas. Tenho presentes a generosa hospitalidade e a amabilidade do povo chinês. Como Presidente eleito, fui honrado por um convite de Vossa Excelência para visitar a China. Espero poder realizar, muito em breve, o desejo de voltar a seu grande país. A China, terra de civilização multimilenar, tem dado provas de capacidade de acompanhar a dinâmica do mundo contemporâneo. Nos últimos dez anos, sua abertura ao exterior e as demais reformas econômicas resultaram em singular ritmo de desenvolvimento.
Senhor Presidente,
Celebramos, há pouco, 15 anos do relacionamento entre o Brasil e a República Popular da China. Nesse espaço de tempo, foram muitas as realizações. Desenvolvemos diálogo político, permanentemente enriquecido pelo contato direto, cordial e franco entre governantes de nossos países. Hoje, nosso encontro se dá em momento de rápida, profunda e surpreendente transformação. Assistimos ao ocaso de um universo condicionado pela estrutura bipolar do poder. Vemos emergir uma nova realidade internacional, definida pela pluralidade de caminhos e de escolhas, pela valorização do respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente, numa época na qual a paz parece estar ao alcance das mãos. Saudámos o novo tempo, na esperança de que traga a concretização dos ideais e aspirações de nossos povos.
Na verdade, Brasil e China têm atuação que os aproxima no plano internacional. Na Assembléia Geral das Nações Unidas a concordância de nossas posições e a coincidência de nossos votos é significativa. Encontram-nos lado a lado as causas do respeito à independência e soberania dos Estados. As diplomacias brasileira e chinesa cooperam ativamente em foros internacionais, com vistas a reformar um sistema injusto, que penaliza economias como as de nossos países, carentes de capitais e tecnologia avançada e necessitadas de novas aberturas comerciais. Preocupam-nos as novas formas de protecionismo, que limitam nosso acesso à tecnologia de ponta. Não aceitamos a cristalização da divisão dos países entre aqueles possuidores de alta tecnologia e aqueles que ficarão marginalizados, no quadro de acelerado desenvolvimento científico e tecnológico. O Brasil e a China acreditam no potencial do diálogo SulSul e trabalham decididamente no sentido de aprofundar, em todos os campos, o relacionamento entre as nações em desenvolvimento. No plano bilateral, ao longo desse período de 15 anos, construímos expressivo quadro institucional, fundado em mais de 25 atos bilaterais. Desenvolvem-se, entre outras, a cooperação no terreno espacial, para a construção de satélites de levantamento de recursos terrestres e foram já lançados os alicerces da cooperação em energia nuclear para fins pacíficos. Esperamos que, em breve, essas atividades compreendam ainda outros setores de tecnologia avançada, como química fina e novos materiais.
Senhor Presidente,
Apesar da distância geográfica, aproximam-nos semelhanças de território, panorama de rica variedade regional, níveis próximos de desenvolvimento econômico e tecnológico e, sobretudo, a vontade determinada de cooperar. Hoje, com crescente sentido de responsabilidade, compete-nos, conforme afirmei em meu discurso de posse, ampliar e multiplicar as vias de entendimento. A última década marcou para o Brasil um período de mudanças. Apesar das dificuldades enfrentadas na economia, foram grandes as conquistas políticas. Preparamo-nos, agora, no limiar dos anos 90, para nova década de paz, de democracia e prosperidade.
Em dois meses de Governo conseguimos vencer a inflação. Temos contado com todo apoio da Nação e de suas instituições representativas, particularmente do Congresso Nacional. A estabilização monetária e financeira, prioridade absoluta desta fase de meu Governo, garantirá a retomada do investimento, a consolidação do crescimento, a conquista de melhor padrão de vida para a população. Meu projeto de modernização do Brasil significará a busca de ganhos de produtividade e de maior eficiência mediante nova inserção do País na economia mundial. Procuraremos aproveitar todas as oportunidades de nosso interesse no plano comercial e financeiro, dispondo-nos, em contrapartida, a abrir nosso mercado à maior competição externa. Estou seguro de que o Brasil já pode marchar para a experiência de abertura de sua economia, convencido dos benefícios que trará tanto no aprimoramento de nossa indústria como aos consumidores brasileiros. O Brasil e a China, segundo seus próprios caminhos, objetivam a modernização do Estado e da sociedade. Temos dado mostras de uma acentuada capacidade de renovação. Na China, pude testemunhar a força dessa tendência e acredito que Vossa Excelência levará do Brasil a imagem do dinamismo e transformação que caracterizam nosso presente. Senhor Presidente, É assim, confiante no futuro e com a certeza da permanência dos interesses comuns e da amizade entre o Brasil e a República Popular da China, que convido todos os presentes a brindar pela saúde e felicidade pessoal de Vossa Excelência, pelo contínuo progresso, felicidade e paz duradoura para o povo chinês.
Muito obrigado.