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Discurso na cerimônia de entrega do Prêmio Luís de Camões ao Embaixador João Cabral de Melo Neto - Palácio de Queluz, Portugal - 23 de outubro de 1990
Por força de feliz acordo entre os governos do Brasil e de Portugal, toca-me, em solo lusitano, e na companhia amiga do Presidente Mário Soares, a honra especial de fazer entrega do mais alto prêmio literário da língua portuguesa a um poeta brasileiro. Instituído pelos governos de nossos países, para agraciar escritor que tenha contribuído para o engrandecimento e projeção da literatura de língua portuguesa, o Prêmio Luís de Camões rende igualmente tributo ao poeta da nacionalidade portuguesa. Nele homenageamos a mais pura expressão deste nosso extraordinário patrimônio: a língua comum. O legado poético de Camões é, na verdade, riqueza de todos os povos que se expressam na língua que nos une. Nas letras brasileiras, é notável sua influência. Na obra de um de nossos primeiros poetas, Bento Teixeira, por muitos considerado o verbo iniciador da literatura brasileira, há quem sinta com nitidez aquela honrosa semente. À semelhança de Camões, o poeta João Cabral de Melo Neto, alentado pela mais alta «virtude de muito imaginar», terminaria por transformar-se, ele, «o amador», na «cousa amada». João Cabral parece nada desejar senão exprimir por meio de sua obra poética a mais digna e preocupada fidelidade ao homem e ao compromisso fundamental do poeta com a linguagem, Esta aspiração, guardadas as diferenças do tempo histórico de cada um, só faz aproximar João Cabral de Camões. Nota-se, em ambos, o fascínio pela aventura humana e o rigor no tratamento da língua, o que é muito, mas justo, dizer. Morte e Vida Severina, síntese harmoniosa do sentimento humanista na obra de João Cabral, completa-se em poemas da hierarquia de «Faca só Lâmina» e «Cão sem Plumas». Em todos sobreleva aguda reflexão sobre o sentido e a natureza da poesia como linguagem. A obra de João Cabral vem enobrecendo de forma contínua a comunidade de língua portuguesa. Cabe hoje, por intermédio de seus governantes e representantes diplomáticos, tributar ao poeta de Pernambuco, do Brasil, de toda a nossa comunidade, o merecido reconhecimento. A intelectualidade brasileira e portuguesa, ao conferir a João Cabral de Melo Neto o Prêmio Luís de Camões, quer reverenciar a própria voz da poesia, de que ele tem sido, para nosso orgulho o magistral intérprete.