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Discurso na Câmara Municipal do Porto, Portugal - 24 de outubro de 1990
Divido com o povo brasileiro a generosa homenagem que o povo portuense, por intermédio de seus dignos representantes municipais, quis prestar-me. Do Brasil, trago-lhes as mais cordiais saudações e uma mensagem de renovada fraternidade pela gente do Porto. Desta cidade de tanta epopéia, privilegiada pela natureza, na moldura do Douro e do Minho, saíram as caravelas que aproximaram o mundo e desbravaram o Brasil. Aqui não resisto ao convite obrigatório de deixar-me impregnar pelas atmosferas múltiplas e fascinantes do Porto dos casarões de azulejo, do Porto dos bairros populares, cujas casas, como que a descer para o rio, são como barcos imóveis numa alegoria viva da indômita aventura de além-mar. Desta cidade, milenar e invicta, partiu o maior fluxo de imigração portuguesa que, além de consolidar a formação histórica do Brasil, forjou em nosso espírito o sentimento da lusitanidade, ao qual nos incorporamos com orgulho. Como assinalou ilustre pensador e sociólogo de meu País, Gilberto Freyre, é imperativo desenvolver a melhor e a mais exata compreensão das semelhanças que fazem de nós — portugueses, brasileiros e também luso-descendentes da África, da Ásia e das ilhas — uma unidade cultural das mais vivas e das mais cheias de possibilidades.
Senhores Presidentes,
Senhores Vereadores,
Descendente de portugueses como a expressiva maioria de meus concidadãos, sou, também, filho e neto de políticos. Nessa dupla condição, posso dizer que me sinto, na Câmara Municipal da cidade do Porto, absolutamente em casa. Tanto mais porque, tendo sido, além de deputado federal e governador de meu Estado, Alagoas, prefeito da capital, Maceió, posso compartir com Vossas Excelências o mais alto sentido da importância de que se revestem as estruturas municipalistas na vida política de uma nação. Não exageraríamos se afirmássemos que a planta sempre tenra e delicada da vida democrática repousa firmemente na tessitura complexa, variada e criativa das municipalidades. Neste ambiente, portanto, de tão gratas e edificantes recordações para mim, homem com profundas raízes municipais, e nesta cidade, que um dia inspirou a um Almeida Garret, a um Antônio Nobre, a um Camilo, começo minhas despedidas de Portugal, levando comigo o mais inestimável dos patrimônios, a amizade entre dois povos, vetor dinâmico do relacionamento luso-brasileiro.