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Discurso em jantar oferecido pelo Presidente Mário Soares, no Paço Ducal - Guimarães, Portugal, 24 de outubro de 1990
Excelentíssimo Senhor Doutor Mário Soares, Presidente da República Portuguesa, Excelentíssima Senhora Doutora Maria de Jesus Barroso Soares, Minhas Senhoras, meus Senhores, Somente a finura da alma lusitana escolheria Guimarães como cenário de meu último compromisso oficial. Convidou-me Vossa Excelência para encerrar minha visita precisamente onde teve início a nacionalidade portuguesa — uma maneira simbólica de dizer que, mesmo ao fim de minha estada, se rejuvenesce a amizade luso-brasileira. Venho, pois, a Guimarães como numa peregrinação à origem européia da própria nacionalidade brasileira e levo daqui estímulo idêntico ao que, outrora, projetou este país nos quatro cantos do mundo e que, hoje, impulsionará — estou certo — o relacionamento entre Brasil e Portugal a níveis condizentes com nossas potencialidades e nossa vontade política. Este berço da lusitanidade emoldura à perfeição o projeto de futuro que portugueses e brasileiros almejamos para nossos países.
E bem o merecemos, Senhor Presidente. Olhem o exemplo de Guimarães. Pólo industrial nortenho, abrigando e alimentando febril atividade produtiva, a cidade medieval soube adaptarse, com engenho e arte, aos novos tempos e, bem assim, dar sua contribuição ao importante programa que Portugal tem diligentemente cumprido com vistas à plena integração nas comunidades européias. Também em nossa terra, estamos empenhados em ajustar o País às principais tendências contemporâneas. Introduzimos, desde 15 de março, mudanças vertiginosas na maneira como o Estado deve proteger os interesses dos cidadãos, sem asfixiar as forças de mercado. O objetivo prioritário é promover a retomada do desenvolvimento e assegurar a prosperidade do País, sem descuidar da justiça social — a maior dívida pública brasileira. Considero, portanto, Senhor Presidente, que o evento desta noite ilustra um encontro de dinamismos, em que a amizade luso-brasileira se enriquece de perspectivas promissoras de cooperação. No plano político, quis a história, quiseram nossos povos, que este fosse o encontro de duas democracias irmãs. Em janeiro, quando Vossa Excelência me deu fraterna acolhida na visita que fiz como Presidente eleito, recordei que desde 1922 não se avistaram presidentes do Brasil e de Portugal escolhidos ambos segundo normas universalmente aceitas por seus compatriotas. Em alguns meses, esta é a terceira vez que nos reunimos. Cumprimos, assim, a vontade de nossa gente, vontade de que trilhemos os caminhos da democracia na construção de um intercâmbio ainda mais rico entre brasileiros e portugueses. No terreno da economia, a trajetória ascendente de Portugal no seio das comunidades européias e o resgate da vocação universalista do Brasil, sob o impulso das novas forças revitalizadoras da sociedade brasileira, deverão acentuar as convergências e aproximar ainda mais as duas nações. Sempre defendi a posição de que o ingresso de Portugal na CEE, longe de afastá-lo do Brasil, contribuiria para reforçar o relacionamento, não só por conta de uma fraternidade escrita em séculos de história comum, mas também pela pujança recobrada dos setores produtivos e de comércio portugueses.
Não fosse por outros motivos, minha visita a este país querido e amigo renovou garantias de que Brasil e Portugal, tanto na bilateralidade das relações quanto em seus reflexos frente à Europa dos Doze, desejam trilhar juntos e solidários a evolução dos tempos modernos, marcados por crescente interdependência. Imbuído desse espírito, Senhor Presidente, convido todos a me acompanharem num brinde que, para nós brasileiros, eternizará a lembrança das constantes e inexcedíveis gentilezas que nos foram reservadas durante nossa presença em Portugal, e que simbolizará, neste cenário privilegiado da história lusitana, a grandeza e o futuro da comunidade luso-brasileira.