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Ministro das Relações Exteriores tenta convencer governo americano a avisar com antecedência e fornecer rotas aéreas sem escalas para brasileiros repatriados
Mauro Vieira diz que negocia rota direta para deportados dos EUA: 'Temos interesse de trazê-los tão pronto possível' - Brasília, 31/01/2025
Uma semana depois de um impasse diplomático envolvendo a deportação de brasileiros dos Estados Unidos que desembarcaram algemados, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirma que o governo negocia um acordo para ter uma rota direta para o transporte dos imigrantes ilegais detidos no país americano. "Temos interesse em trazer os brasileiros de volta tão pronto possível, e eles (os EUA) também têm interesse em mandar as pessoas", diz o chanceler.
O plano, segundo ele, prevê o uso de aviões melhores, que possam voar diretamente dos Estados Unidos até Belo Horizonte, Minas Gerais, sem a necessidade de escalas no Panamá ou em Manaus (AM), onde 88 brasileiros desembarcaram algemados na sexta-feira da semana passada.
Por que o governo brasileiro só viu necessidade agora de criar um planejamento para receber os deportados dos EUA?
O sistema de recepção existe desde do início de 2018, quando foram acertados esses voos regulares de deportação. O que aconteceu foi um acúmulo de erros em um problema específico num desses voos. A preocupação do atual governo é a de que todos fossem recebidos dignamente e que voltem o mais rápido possível, sobretudo para os que querem e aceitam, que é a grande maioria.
O governo estuda uma rota direta para a vinda de brasileiros deportados dos EUA?
Um grupo de trabalho foi estabelecido e estamos estudando melhor essa operação, como voos diretos (sem escalas em outros países) e aviões melhores. Vai depender também do raio de ação do avião, da autonomia. Temos interesse em trazer os brasileiros de volta tão pronto possível, e eles (os EUA) também têm interesse em mandar as pessoas.
O Itamaraty fez uma série de notas consulares sobre o tratamento com dignidade a esses deportados brasileiros. Por que o Brasil foi ignorado?
Não foi ignorado. Estamos negociando. Estamos conseguindo tratar de temas importantíssimos: possibilidade de voos diretos, de atendimento correto, frequência dos voos e avisar antes. Os americanos se comprometeram a avisar os voos cinco dias antes. Mas não estavam cumprindo. Comunicavam, mas não em cinco dias, como acertado. Estamos trabalhando para estabelecer um novo prazo sob todos os aspectos, frequência e tudo mais.
Outro descumprimento é o fato de as algemas não terem sido retiradas antes do desembarque...
É uma das coisas que estamos tratando. O voo direto facilita, e muito, em tudo. Todo o protocolo do voo tem de ter o atendimento normal, como seria em qualquer voo, sem qualquer limitação. Não pode um voo durar tantas horas e não ter comida. E quando vem criança?
O tema da imigração afeta toda a América Latina. O Brasil está se articulando com outros países em busca de uma posição comum?
Cada país tem um problema unilateral. O Brasil está longe de ser o primeiro, em número. Há outros países que têm muito mais nacionais nessa situação do que nós. É um tema que temos interesse em tratar bilateralmente pela dimensão do problema e pelas características de cada país. Não dá para fazer uma coisa única. Não nos negamos (em tratar em conjunto). Havia uma reunião da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), que acabou sendo adiada.
A situação da Colômbia, de bater de frente com o governo Trump e depois recuar diante de retaliações tarifárias, demonstra a fragilidade da América Latina perante os EUA?
Não acho que haja fragilidade. A relação é muito intensa, muito grande e muito importante. Os setores privados se falam e têm o maior interesse. Os países têm relações que também são diferentes entre si. A Colômbia tem uma relação muito importante, de longa data, com os governos americanos.
A situação da Colômbia, de bater de frente com o governo Trump e depois recuar diante de retaliações tarifárias, demonstra a fragilidade da América Latina perante os EUA?
Os países têm relações que também são diferentes entre si. A Colômbia tem uma relação muito importante, de longa data, com os governos americanos, que não é de hoje. Não acho que haja fragilidade. A relação é muito intensa, muito grande e muito importante, ela tem múltiplas escolhas. Os setores privados se falam e têm o maior interesse.
O fato de o presidente Lula dizer que estava torcendo por Kamala Harris (democrata, adversária de Trump na eleição) afeta a relação com os EUA?
Não. A relação é muito maior e importante, muito mais densa entre os dois países do que esse tipo de especulação.
A Organização Internacional para Migrações (OIM) avisou ao Brasil que o Trump deixou o país fora da liberação da verba humanitária. Como ficará a Operação Acolhida, que recebe refugiados venezuelanos no Brasil?
A operação não vai acabar por causa disso. Aliás, a maior parte já é financiada pelo governo brasileiro, e continuará a ser. Não se pode abandonar. Um pouco mais de 1,2 milhão de venezuelanos entraram no Brasil. E há outras fontes, outros organismos que fazem esse trabalho. A operação não será paralisada pela falta da participação da OIM.
O fato de o governo Trump recolher o apoio ao combate à crise climática pode atingir a COP 30 no Brasil?
Os EUA saíram do Acordo de Paris, mas não do Acordo Macro da ONU sobre mudanças climáticas, do qual faz parte da COP. Vamos tratar, dentro da COP, dentro da Conferência, das partes dos países membros desse Acordo Marco das Nações Unidas para a Mudança Climática. Isto é diferente do Acordo de Paris, que é à parte. A COP estabelece os princípios negociadores – como foi feito até agora –, os mecanismos de financiamento, promove apresentação das contribuições nacionalmente determinadas e está trabalhando em mecanismos de financiamento para mitigar o impacto da mudança climática.
O Brasil está na presidência do Brics (grupo de países emergentes), que é visto por alguns, como o próprio Trump, como uma articulação contra as nações ocidentais. Isso preocupa?
Há um grande mal-entendido com relação ao Brics. Não sei de onde nasceu isso, de que é contra o Ocidente. Não é contra ninguém. É a favor dos países que fazem parte do grupo. É um movimento de países em desenvolvimento para promover a cooperação e o crescimento. Também não existe moeda do Brics. O que se discute é um sistema de pagamento bilateral de cada país com as moedas nacionais. O Brasil tem esse mecanismo há mais de vinte anos com a Argentina.
Como o governo brasileiro tem atuado para contornar as diferenças com o presidente da Argentina, Javier Milei, na América Latina?
Os dois governos têm um ótimo relacionamento. Tinha um excelente contato com a ex-ministra das Relações Exteriores, Diana Mondino, e temos com o atual, Gerardo Werthein. E os presidentes Lula e Milei se encontraram na Cúpula do Mercosul, no Uruguai, e no Rio de Janeiro, no G20. Só não se encontraram na primeira ocasião, na Cúpula do Mercosul no Paraguai porque o presidente Milei não foi.
Há uma cobrança para que o governo Lula eleve o tom das críticas em relação ao que tem acontecido na Venezuela, sobretudo levando em conta o resultado das eleições e questões humanitárias. Por que governo tem adotado essa postura de expectador em relação ao governo de Nicolás Maduro?
Não somos expectadores, de forma alguma. A política externa é feita por movimentos tranquilos, sem arroubos, como se fosse jogo de xadrez. Há um grande interesse do setor privado dos dois países em termos de negócios. Não vamos aumentar a pressão ou fazer qualquer tipo de iniciativa que possa ser interpretada como pressão. Ficamos esperando a apresentação da documentação que comprovasse o resultado da eleição, que não foi apresentada. As pessoas perguntam por que não reconhecemos o resultado. O Brasil não reconhece. A doutrina internacional que nós seguimos diz que o Brasil reconhece Estados, e não governos. E assim vai ser.