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“Admiramos a Polônia, por defender seus interesses” (Diário Rzeczpospolita, 14/02/2019)
Entrevista do ministro Ernesto Araújo ao Diário Rzeczpospolita, em 14/02/2019, por ocasião de sua visita a Varsóvia para a Conferência Ministerial sobre Oriente Médio
Tradução não oficial para o português pela embaixada do Brasil em Varsóvia
MRE do Brasil: “Admiramos a Polônia, por defender seus interesses”
“Chegou a hora de adotar uma nova estratégia para buscar solucionar os persistentes desafios internacionais” – diz Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores do Brasil.
JEDRZEJ BIELECKI: O senhor é o único ministro de relações exteriores de todos os países da América Latina que participou da conferência sobre o Oriente Médio em Varsóvia. De onde partiu essa decisão?
Sr. ME: Entendemos que chegou a hora de adotar uma nova estratégia para solucionar os persistentes desafios internacionais, e não só no Oriente Médio. Os brasileiros sentem-se próximos a Israel, que é o país da Terra Santa, mas também um país de democracia dinâmica e tecnologias modernas. As relações com esse país vêm há muito tempo sendo negligenciadas por governos brasileiros anteriores. Também queremos aplicar essa nova estratégia de maior aproximação com interlocutores europeus.
JEDRZEJ BIELECKI: Quais?
Sr. ME: Antes de partir de Brasília para Varsóvia, conversei com o presidente Bolsonaro. Ele mencionou sua admiração pela Polônia por ter sido o primeiro país a derrubar o comunismo, e que durante séculos tem cultivado um espírito de luta, independência, ligação com os valores tradicionais, fé e identidade nacional. País que, hoje, sabe resistir ao politicamente correto e às doutrinas da União Europeia e defender os seus próprios interesses, no lugar de apenas seguir as recomendações das organizações internacionais. Admiramos também o dinamismo econômico da Polônia. O presidente Jair Bolsonaro teve uma reunião há pouco tempo com o presidente Duda, em Davos, mas gostaria de visitar a Polônia ainda neste ano ou no início do próximo. Eu estarei de volta a Varsóvia no final de fevereiro. Também queremos desenvolver relações próximas com outros países do Grupo de Visegrado e com a Itália.
JEDRZEJ BIELECKI: Estamos falando, porém, de uma conferência organizada principalmente pelos Estados Unidos. A presença do Brasil uma mudança de rumos, de maior aproximação com os Estados Unidos?
Sr. ME: Infelizmente, as relações com os Estados Unidos também têm sido neglicenciadas por governos anteriores. Por intermédio de potenciais investimentos americanos, o nosso país poderá construir uma economia ainda mais moderna. Por isso, precisamos de uma parceria mais forte com os EUA nas áreas de defesa e de combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas. Os Estados Unidos dispõem de técnicas de enfrentamento desses problemas que o Brasil não possui.
JEDRZZEJ BIELECKI: No entanto, Washington quer construir uma aliança global contra a crescente influência da China, o parceiro econômico chave do Brasil...
Sr. ME: A cooperação com a China está baseada na exportação de matérias primas, tecnologias simples. Isso não é suficiente para garantir o desenvolvimento do país. A dependência da China é até arriscada, em face de sua intenção de controlar a exploração de matérias primas em outros países. Por isso, precisamos diversificar. O que está em jogo é a soberania do Brasil.
JEDRZZEJ BIELECKI:O Brasil concordará com a criação de uma base militar americana no seu território?
Sr. ME: Foi só uma ideia mencionada pelo presidente Bolsonaro em uma das entrevistas de imprensa, um exemplo de cooperação, que não precisa se tornar realidade.
JEDRZZEJ BIELECKI: Ao posicionar-se favoravelmente a Israel, o senhor não tem medo de colocar em risco as exportações brasileiras de carne halal para os países árabes?
Sr. ME: Não tenho esse receio. Podemos ao mesmo tempo ser mais próximos de Israel e dos países árabes. Acredito que um não exclui o outro.
JEDRZZEJ BIELECKI: O Brasil tradicionalmente tem-se abstido de intervir em outros países. Porém, rapidamente reconheceu o presidente Juan Guaidó na Venezuela. É parte da estratégia de aproximação com os Estados Unidos, o que justificaria sua visita a Varsóvia?
Sr. ME: Decidimos tomar este passo porque consideramos que, inclusive à luz da constituição bolivariana da Venezuela, a Assembleia Nacional possui plena legitimidade. Consultamos o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela a respeito dessa questão. Finalmente, o povo venezuelano, as pessoas que hoje estão passando fome, passa a enxergar uma luz no fim do túnel. Mas a situação na Venezuela também encerra ameaças a nossa segurança, por conta do contrabando de armas e drogas e de atividade de organizações radicais.
JEDRZZEJ BIELECKI: E se a Venezuela estiver a beira de uma guerra civil, o Brasil intervirá?
Sr. ME: Não. Não acreditamos em intervenções militares. A solução da crise precisa ser atingida pelos próprios venezuelanos.
JEDRZZEJ BIELECKI: O senhor mencionou o apreço do presidente Jair Bolsonaro pela luta polonesa a favor da liberdade, mas o presidente teria expressado, em várias ocasiões, admiração pela ditatura militar no Brasil, que durou até 1985. Como compatibilizar essas posições?
Sr. ME: Os militares chegaram ao poder em 1964 para pôr fim ao experimento que transformaria o Brasil numa nova Cuba. Tratava-se de salvar o livre mercado. Hoje, quando já não existe mais a União Soviética, é fácil criticar. Certo: muitos brasileiros acreditam que os militares abusaram e que deveriam ter reconstruído as instituições democráticas mais cedo. Mas o processo de transferência do poder transcorreu com muita calma e hoje o exército recuperou seu grande prestígio, por saber resistir à corrupção e à violência – os dois problemas mais graves que o Brasil tem hoje em dia.”