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Prioridades são OMC e UE, afirma Amorim (O Estado de São Paulo, 20.06.2004)
Chanceler diz que a ALCA fica para depois “porque está mais atrasada”
Priscilla Murphy
Para o Governo brasileiro, as negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC) são o alvo número um, e com a União Européia (UE), o número dois. AALCA fica para depois: “Não que seja menos relevante, não por nosso desejo, mas só porque está mais atrasada”, diz o Ministro das Relações Exteriores, CelsoAmorim, em entrevista a O Estado de São Paulo. O Chanceler fez um balanço das negociações durante a XI Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), na semana passada.
O Estado de São Paulo: Ainda existe alguma esperança de concluir a ALCA este ano?
Celso Amorim: Tenho mantido contato constante com Robert Zoellick (representante americano para o comércio) sobre a ALCA também. Temos tentado avançar com um espírito pragmático. Hoje a negociação com a UE está mais avançada porque envolve apenas dois blocos, não 34 países. Conversando diretamente com o interessado, é mais fácil avançar. Coloquei muito esforço na ALCA, não foi pouco, não. Em outubro, abandonei o presidente da República em Moçambique para ir conversar com o Zoellick, para chegarmos a um arcabouço que resultou em Miami. Na minha opinião, tínhamos um modelo que poderia levar rapidamente a uma finalização. Daí surgiram algumas dúvidas que na prática significavam reabrir Miami, demos um passo atrás. A negociação com a UE está muito mais avançada, e as coisas que avançam exigem mais concentração, pois não temos equipes infinitas. Então, hoje em dia a concentração número um é a OMC, e a número dois é a UE. Não porque a ALCA seja menos relevante. É só porque está mais atrasada, não por nosso desejo.
O Estado de São Paulo: No G-5, os Estados Unidos e a União Européia firmaram compromisso de eliminar subsídios?
Celso Amorim: Vi uma disposição positiva. Esse é um problema entre UE e EUA, que nos afeta. Mas é a primeira vez que estamos tendo oportunidade de opinar. Se não houvesse o G-20, não estaríamos nem discutindo se haveria eliminação de subsídios. Senti da parte de ambos (o representante de comércio da UE, Pascal Lamy, e Zoellick, que estiveram na UNCTAD) que há preocupações. Os europeus dizem: “Só posso eliminar os subsídios se as outras formas de apoio também forem eliminadas”. Os americanos dizem que só podem eliminar o elemento de subsídio que existe nas outras formas de apoio. Fizemos uma reflexão profunda sobre como podemos avançar. Não só nessa área, mas também na de acesso a mercados e apoio doméstico. E conseguimos identificar áreas onde há possibilidade de progresso na discussão técnica em todos esses temas. Identificamos convergências potenciais. Senti um clima de encontrar uma solução, embora haja uma necessidade de equivalência. É uma coisa sutil chegar lá. Mas tenho confiança de que podemos chegar porque estamos trabalhando nesse sentido.
O Estado de São Paulo: Por que o atual momento é uma janela de oportunidade para o avanço das negociações comerciais?
Celso Amorim: Primeiro, porque a economia mundial está crescendo e não se sabe por quanto tempo vai continuar a crescer. Os momentos de crescimento são mais propícios às negociações. Em segundo lugar, chegamos a um estágio nas negociações com a UE em que, se não complicarmos o jogo agora, podemos concluir. Mas se paralisarmos o jogo, vai mudar a Comissão Européia, outras negociações vão se desenvolver ou não e vamos perder esse impulso. Acho que seria lamentável.
O Estado de São Paulo: O conflito da soja pode prejudicar o relacionamento do Brasil com a China?
Celso Amorim: Evidentemente, queremos resolver a questão da soja. Temos tratado disso inclusive do ponto de vista político. Eu mesmo intercedi, nossos embaixadores têm entrado num jogo diplomático, não puramente técnico. Há intenção de contatos políticos de alto nível e uma missão já partiu para a China. O importante é tentar resolver isso amistosamente. É claro que o recurso à OMC é uma possibilidade que sempre existe. Se tiver de ser, será.
O Estado de São Paulo: O Itamaraty mudou em relação ao Governo passado?
Celso Amorim: O Itamaraty é um Ministério de Estado, que defende o interesse do Estado brasileiro. Sempre há uma interpretação de quais são os melhores interesses, que não são necessariamente as mesmas. Há uma mudança de ênfase.Aênfase na integração sul- americana é mais forte, no comércio e na cooperação Sul-Sul, sem detrimento das outras negociações. E acho que houve uma modificação também na intensidade.A política externa brasileira nunca foi tão tratada na mídia internacional. Nunca houve uma visita presidencial para nenhum país do mundo que tenha sido tão noticiada quanto a visita do Presidente Lula à China. Em grande parte, é pela figura do Presidente, mas o Itamaraty também tem assumido suas responsabilidades em termos de intensidade.