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Entrevista com o Embaixador Celso Amorim, Ministro de Estado das Relações Exteriores, publicada pelo jornal "Al Rayah" , do Catar, e reproduzida pelo jornal árabe "Al Ahram", em suas edições do Cairo, Beirute, Damasco e Londres (23/02/2005)
Ministro das Relações Exteriores do Brasil declara:
- horizonte sem limites para investimentos catarianos em nosso país;
- é auspiciosa participação árabe na reunião de alto nível entre países árabes e sul-americanos, em maio de 2005;
- nosso comércio com os países árabes já atingiu US$ 8 bilhões e a "distância geográfica" não mais constitui uma barreira ;
- o Brasil está traumatizado com o seqüestro do engenheiro: porque ele ?;
- "apoiamos as resoluções de Sharm El Sheikh e oferecemo-nos para desempenhar papel positivo para tentar solucionar o conflito entre árabes e israelenses."
Texto de Al Azab Al Tayeb Al Taher
Pessoalmente, não posso esconder minha admiração pelo Brasil, que afirmou sua presença internacional global graças a seus recursos humanos, políticos e econômicos, bem como pela adoção de uma sistema político democrático. Por tais motivos, sou favorável ao estabelecimento de um sistema de mútua cooperação, sobretudo após os sucessos registrados na presidência de Lula e seu convite para a realização da primeira reunião de alto nível árabe-sul- americana, que terá lugar no Brasil, em maio de 2005.
Minha admiração por aquele país ficou sendo ainda maior após minha entrevista com o Ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, que se encontra presentemente visitando o Catar, como parte de sua viagem a vários países árabes, transmitindo o empenho de seu governo em ampliar os vínculos com o mundo árabe, a fim de criar uma plataforma comum de interesses .
Durante a entrevista, o Ministro Amorim expressou sua apreciação pelos projetos de crescimento que se desenvolvem no Catar, qualificando-os como esforços positivos. Também enfatizou a decisão oficial de abrir Embaixada brasileira em Doha e sublinhou a importância da reunião de alto nível entre países árabes e sul-americanos para criar " um quadro institucional favorável" para maior cooperação econômica e política.
A entrevista abordou igualmente a questão da Palestina e o Ministro do Exterior destacou a capacidade do Brasil de desempenhar um papel positivo na busca de denominador comum, tendente à obtenção de solução para o conflito no Oriente Médio. Mencionou igualmente a apreciação de seu país pelos resultados obtidos na reunião de cúpula de Sharm El Sheikh, falou das eleições no Iraque e discorreu ainda sobre reformas internas versus pressões externas .
Seguem-se trechos da entrevista, que teve lugar no hotel em que se hospedou o Ministro das Relações Exteriores em Doha, na presença do Assessor de Imprensa, Ministro Ricardo Neiva Tavares, bem como do dinâmico diplomata brasileiro, Ministro Sergio Abi-sad, Chefe do Escritório de Promoção Comercial do Brasil em Dubai e que organizou os preparativos para a realização da entrevista:
P. Para começar, fale-nos, por favor, dos objetivos de sua visita a Doha.
R. Esta visita tinha sido planejada há dez anos, quando eu era Ministro das Relações Exteriores em outro governo. Depois da visita ao Brasil de Sua Excelência o Xeque Hamad bin Jassim bin Jaber Al-Thani, Vice-Primeiro-Ministro e Ministro das Relações Exteriores de Catar, concordamos com a abertura de Embaixadas em ambos os países, o que o Catar fez de imediato. No entanto, devido a restrições orçamentárias, o Brasil não pôde honrar seu compromisso com a rapidez que seria desejável. Presentemente, o Presidente Lula está muito interessado na tão esperada abertura de nossa Embaixada no mais breve espaço de tempo, de forma a possibilitar maior desenvolvimento de nossas relações .
A esse respeito, cumpre destacar que o Presidente Lula já visitou cinco países árabes em 2003, resultando daí conclusivos projetos entre esses países e o Brasil. Em conseqüência, nosso comércio com os países árabes aumentou 50%, desde então, e há uma série de estudos em execução para incrementar investimentos bilaterais.
Na minha opinião, o fortalecimento do comércio árabe com o Mercosul é muito importante, fato ainda mais ressaltado pelo convite do Presidente Lula para a reunião de Cúpula, que constitui o tema central de minha visita a Doha, já que a reunião permitirá criar clima político adequado para o fortalecimento das relações entre as duas partes.
P. Excelência, como considera o comércio bilateral com o Catar?
R. Sem dúvida, comércio e investimentos com o Catar são muito importantes para nós, especialmente nos campos da infra-estrutura, do intercâmbio de tecnologia e da indústria petroquímica. Também estou informado da especial atenção dada no Catar à educação; queremos igualmente cooperar nesse campo. O Catar está localizado no centro da região do Golfo e pode vir a desempenhar papel muito importante em nossas relações comerciais na área .
P. Quais as suas expectativas para a reunião de alto nível entre países árabes e sul-americanos a ter lugar no Brasil, em maio de 2005?
R. Há grande entusiasmo em todos os países árabes, como pude constatar durante minha atual visita, que incluiu etapas na Palestina, Jordânia, Síria, Omã, Arábia Saudita e agora Catar; estou indo ainda ao Kuwait, ao Líbano, à Tunísia e à Argélia. Em minhas viagens anteriores ao Egito e aos Emirados Árabes Unidos pude sentir o mesmo entusiasmo.
As recomendações finais da recente reunião de Cúpula da Liga Árabe também destacaram o próximo evento e tal fato é bastante promissor. Agora torna-se importante garantir o mais alto nível de participação, de forma a assegurar a implementação das recomendações da reunião. Todas as partes estão conscientes da importância da participação de líderes de todos os países, o que garantirá o interesse de investidores e empresários.
Gostaria de enfatizar que a distância geográfica entre nossos países não mais constitui uma barreira, como ficou comprovado pelos fatos de a China ter-se tornado o segundo dentre nossos maiores parceiros comerciais e de o comércio árabe-brasileiro ter atingido US$ 8 bilhões, e ainda estar aumentando .
P. É possível que o Brasil venha a desempenhar um papel positivo nas negociações de paz na Palestina?
R. Nenhum país pode pretender estar apto a resolver a crise; só os árabes e os israelenses podem equacionar a questão. Mas o Brasil pode vir a ter um papel positivo, sobretudo em vista dos dez milhões de pessoas de nossa população que têm origem árabe e pelo fato de igualmente contarmos com significativa presença judaica.
Gostaria de sublinhar que, em minha recente visita à Palestina, o Chanceler Nabil Shaath transmitiu-me o interesse palestino em que o Brasil desempenhe papel nas negociações de paz a serem retomadas. Além disso, durante minha visita, que ocorreu na semana passada, o Presidente Mahmoud Abbas insistiu em que o Brasil esteja pronto para desempenhar um papel importante nessa matéria. Ele chegou a sugerir a formação de um comitê quadripartite com a participação do Brasil, África do Sul, Índia e Turquia, para assistir o Quarteto já existente. Por certo, nosso papel não seria de apresentar soluções mágicas, mas sim de prestar assistência no processo da seqüência das proposições.
P. O Brasil apóia as recomendações de Sharm El Sheikh?
R. Certamente; acreditamos haver oportunidades de desenvolvimento positivo. Este também foi o sentimento que pude aquilatar em minhas conversas na região .
P. Poder-se-ia dizer que os países latino-americanos começaram a manifestar insatisfação com a ambição e a interferência americanas em seus assuntos internos ?
R. Não posso falar em nome de outros países. Mas nós estamos lidando com o assunto de forma estritamente pragmática. Não nos opomos a ninguém; tentamos meramente proteger nossos próprios interesses e é isso o que todos devem procurar fazer; é o que fazem essencialmente os Estados Unidos.
Por exemplo, durante a reunião da Organização Mundial de Comércio, em Cancun, no México, sentimos que o encaminhamento de certos assuntos estavam tomando uma direção errada. Os Estados Unidos e a União Européia assinaram um acordo específico. Alguns países desenvolvidos e em desenvolvimento quiseram fazer o mesmo, mas nós recusamos. Criamos então o G-20 (grupo de vinte países formado por Brasil, Índia, China, Egito e Argentina, dentre outros). Fomos criticados por nossa ação e atacados por nos opormos à vontade dos Estados Unidos; mas nada disso era verdade, só estávamos tentando fazer as coisas de forma a obter consenso capaz de contentar todas as partes interessadas. E, comprovando meu ponto de vista, conseguimos assinar um acordo em Genebra, dez meses mais tarde. É muito importante ser capaz de adotar a postura adequada e não apenas fazer oposição a outras partes.
P. Muitos acreditam que os Presidentes Lula, do Brasil, Chávez, da Venezuela, Kirchner, da Argentina, mostraram uma face diferente da América Latina.
R. Isso diz respeito não apenas aos Presidentes mencionados, mas também a Tabaré Vázquez, do Uruguai, Lagos, do Chile, e outros. Há uma crescente conscientização de que não podemos contar apenas com os Estados Unidos e com a União Européia para diligenciar tudo: precisamos renovar nossas relações com o resto do mundo. Tal passo não será difícil, uma vez que nosso comércio não depende só dos Estados Unidos e de nosso outro grande parceiro comercial, a União Européia.
Estamos bem cientes da importância da cooperação mútua, o que explica o sucesso da área de livre comércio que criamos com o Grupo Andino, incluindo Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, e o Mercosul. Na realidade, estamos tentando criar uma comunidade sul-americana baseada em realidades econômicas e em projetos de infra-estrutura, que possibilitarão alcançar os mesmos objetivos atingidos pelos Estados Unidos no século XIX, unindo o Oceano Pacífico ao Atlântico.
Gostaria de enfatizar que não antagonizamos ninguém. Esperamos apenas ter nossa parte de benefícios recíprocos.
P. O que dizer do desenvolvimento da situação no Iraque? Prevê que as recentes eleições realizadas ajudarão a resolver futuros conflitos?
R. De forma realista, eleições democráticas constituem um começo saudável, mas todos sabemos que as eleições não englobaram todas as partes interessadas. Todos estão cientes de que o Brasil opôs-se à guerra no Iraque e que acreditamos que poderíamos ter alcançado uma solução pacífica na época.
O Brasil ficou profundamente chocado ao saber que um de seus cidadãos está sendo mantido como refém no Iraque. Tal fato explica que, sempre que se fala em Iraque, penso no pobre engenheiro brasileiro e em sua família, que estão sofrendo tanto. Ainda nos perguntamos porque ele é mantido como refém .
P. Como avalia a iniciativa de um Grande Oriente Médio proposta pelos Estados Unidos para reformar a região?
R. O assunto diz respeito aos países árabes. Acreditamos, contudo, que qualquer mudança deva ter origem interna, e não ser imposta por potências externas.
Temos verdadeiramente muita fé em processos de crescimento econômico e, quando constato o desenvolvimento do Catar, posso ver os bons resultados dos esforços feitos nessa direção.