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Nova divisa em vez do dólar? Vamos começar a comerciar por enquanto em rublos e reais (Entrevista do Ministro Celso Amorim à Rádio RUVR - The Voice of Russia, 5/8/2009)
"Nova divisa em vez do dólar? Vamos começar a comerciar por enquanto em rublos e reais"
O Governo brasileiro afirma que a crise econômica já vem acabando para o País. No ano seguinte, vamos demonstrar um crescimento econômico surpreendente para muitos - declarou o presidente Luiz Inácio "Lula" da Silva. Imbuído desse otimismo, ele planeja visitar a Rússia em começos do ano que vem. Os objetivos de sua vinda e o lugar ocupado pelas economias russa e brasileira no mundo falou no Rio de Janeiro o ministro das relações exteriores do Brasil, Celso Amorim na entrevista concedida a Elena Suponina, observadora do jornal russo "Vremya Novostei". O Ministério das Relações Exteriores promove de vez em quando eventos importantes não somente em Brasília, mas também na antiga capital do País.
Desta vez, o chanceler chegou ao Rio para participar da conferência internacional sobre a problemática do Médio Oriente, organizada pela ONU juntamente com o Ministério das Relações Exteriores. O Brasil está disposto a juntar-se ativamente ao processo de paz regional. Segundo o chefe do seu serviço diplomático, o processo vai sendo travado pelo fato de que os jogadores principais têm sido sempre os mesmos, entre outros motivos, sendo, portanto, necessários mediadores novos capazes de dar novo impulso às conversações de paz.
Elena Suponina: Que eu saiba, o presidente "Lula" chegará a Moscou em começos do próximo ano. Por que não foi possível fazer essa visita no ano em curso, como foi planejado?
Celso Amorim: Este ano foi muito tenso para todos. Tantos problemas comuns, tantos encontros! Neste tempo, os nossos presidentes: "Lula" e Medvedev reuniram-se mais de uma vez em eventos internacionais e discutiram problemas comuns. Entrevistaram-se, por exemplo, faz bem pouco: em junho, na cidade de Ekaterinburgo, durante a primeira cúpula do grupo BRIC (composto pelo Brasil, Rússia, Índia e China - N. da Red.). Em começos de 2010, nosso presidente virá novamente à Rússia para examinar assuntos relativos à cooperção bilateral de uma forma mais concreta e num ambiente mais tranquilo.
Elena Suponina: Quais serão os pontos mais importantes das conversações?
Celso Amorim: Há muitas coisas importantes. Por exemplo, como concretizar nossos pontos de vista em muitos aspetos comuns quanto à formação de uma ordem mundial nova. Nossos dois países são grandes potências e membros do BRIC. Temos indicadores aproximadamente iguais no referente ao produto interno bruto e à população (o Brasil é habitado por mais de 190 milhões de pessoas; a Rússia, por mais de 142 milhões - N. da Red.). Possuímos recursos energéticos ricos e colaboramos em diversos domínios, incluindo o setor energético, na qual vale destacar a indústria de gás e a interação já encetada na geração de energia nuclear para fins civis. Temos grandes reservas de gás e estamos dispostos a promover esse ramo.
Uma questão importante para todos é a da segurança alimentar. Encaramos o assunto de uma maneira escrupulosa. Todavia, não é uma questão intrinsecamente interna. Estamos interessados em que os outros procedam com atenção a esse respeito. Aí é necessário estreitar a parceria internacional. O Brasil está entre os líderes mundiais em produção e exportação de produtos alimentícios. Nossa produção cerealífera está aumentando a cada ano. Em termos de exportação de carne bovina o Brasil é o líder mundial, tanto em termos volumétricos como em termos valorimétricos. Por sinal, no que se refere ao controle de segurança dos produtos cárneos, aí já estamos cooperando positivamente com a Rússia.
Elena Suponina: Acontece, porém, que a Rússia proíbe às vezes as importações de carnes a partir de determinadas regiões do Brasil. Isso porque em seu país ocorrem problemas na área da saúde dos animais, não é?
Celso Amorim: Qual! A carne brasileira é ótima! É a melhor carne do mundo. A senhora já esteve em uma churrascaria nossa? Se não, vá obrigatoriamente. É um restaurante especial em que por uma importância fixa previamente paga será servida com um rodízio interminável e carnes diversas. Serão pedaços de carne acabados de assar em fogo vivo.
Elena Suponina: Uma beleza, realmente. Mas, como o senhor sabe, que os problemas surgem de tempos em tempos.
Celso Amorim: Não, não! Aliás, vou tentar explicar-lhe como nosso presidente "Lula" fez quando o presidente russo veio pela primeira vez ao Brasil. Foi Vladimir Putin, no outono de 2004. Então nosso presidente mostrou ao vosso um mapa do Brasil. Agora, não tenho um mapa à mão, mas vou desenhá-lo em uma folha de papel. Está vendo? O Brasil é gigantesco! Não assim como a Rússia, é claro, mas também é muito bom. O Brasil tem uma área de oito milhões e 500 mil quilômetros quadrados (A Rússia tem o dobro dessa área - N. da Red.). Olhe aqui, este extremo do nosso país fica mais perto da África do que da parte oposta do próprio Brasil. Se, suponhamos, surge um problema em algum Estado nosso, então, primeiro, tal é resolvido imediatamente. Segundo, isso não quer dizer, em todo caso, que então seja necessário restringir as importações de carne de todo o Brasil. Porque em termos de distâncias um Estado brasileiro pode estar situado tão longe de outro como uma parte da Rússia está situada em relação a Portugal, digamos. Se em Portugal de repente adoecem animais, os senhores não resolvem implantar uma quarentena no território russo, não é? Seja como for, dedicamos uma máxima atenção a cada conselho, a cada observação. Nossos fazendeiros seguem as recomendações das organizações internacionais competentes e são submetidos a inspeções regulares. Existe até uma ciência inteira chamada epizootologia, que estuda as doenças de animais e as medidas preventivas. Portanto, é legítimo que exportemos grandes lotes de carne para países da União Europeia, para a Rússia e outras regiões.
Elena Suponina: A Rússia e o Brasil são integrantes do BRIC, um grupo informal de países com melhores perspetivas de desenvolvimento econômico. Porém, alguns peritos já estão riscando dois elementos desses quatro: a Rússia e, embora mais raramente, também o Brasil. Resumindo, assim só fica do BRIC o IC: a Índia e a China.
Celso Amorim: Não estou de acordo. O crescimento da Índia e da China é visível, sem dúvida. Todavia, elas começaram desde o nível de rendas "per capita" muito baixo. É porque deviam ter realizado um avanço muito grande e fazer o que a Rússia e o Brasil já fizeram em um passado recente. Falando em renda "per capita" total na Índia e na China, seria um índice modesto sem a Rússia e o Brasil. Não, os quatro países são importantes. O BRIC mantém suas posições. Quanto ao Brasil, nossos êxitos são significativos. O Brasil diversificou a economia e o comércio externo. Não dependemos de um determinado setor prevalecente. A Rússia vai seguindo igual caminho. Vosso país é famoso por suas realizações científicas e tecnológicas, o elevado nível da educação e sua grande abrangência. Atualmente, o Brasil vai saindo da crise, embora a distribuição das receitas nacionais continue entre os nossos problemas mais sérios. Nossos ricos são muito ricos e os pobres, muito pobres. Porém, nos últimos seis anos, temos registrado mudanças fantásticas para o melhor. Neste período, pelo menos 20 milhões de pessoas subiram das camadas mais pobres para a classe média. Isto é impressionante. Raros são os países em que tal tenha sido possível de todo. E continuaremos avançando nessa direção. Agora, o Brasil enfrenta très tarefas importantes. Primeiro, promover os mercados internos mediante a distribuição das receitas mais equilibrada. Segundo, diversificar o rol de parceiros comerciais para não dependermos de um só. Em 2008, nosso sócio comercial mais importante eram os Estados Unidos, com uma presença de 13 por cento no intercâmbio comercial externo. A Argentina era responsável por 10 por cento e a China, por 9,5 por cento. Este ano, ou seja, no ponto mais alto da crise financeira, os Estados Unidos poderiam ceder o primeiro lugar para a China.
Elena Suponina: E qual a presença da Rússia?
Celso Amorim: A Rússia está com 2 ou 3 por cento. Mas isto é nada mal, pode crear!
Elena Suponina: Nada mal, é verdade?
Celso Amorim: Pois não! Nada mal mesmo! Isso porque há apenas uns anos não tínhamos qualquer relacionamento. E hoje em dia nossos contatos são de longe mais estreitos do que há cinco anos, para já não falar no decênio anterior. As relações vão se desenvolvendo impetuosamente em muitos terrenos. Já as referi, em parte, devendo-se acrescentar a essa lista a cooperação técnico-militar e muitas outras coisas.
Elena Suponina: Vamos voltar à enumeração das tarefas a cumprir pelo Brasil. O senhor apontou duas das três mais importantes. Então qual a terceira?
Celso Amorim: A terceira e não menos importante que as primeiras duas é o reforço da sociedade democrática. O Brasil é uma sociedade plenamente democrática. Já aprendemos a resolver nossos problemas através de discussão. Nossa sociedade cívica está ativa, também os parlamentares. E quanto o Governo se esforça por alcançar crescimento econômico, não pode fazê-lo a qualquer preço, deve levar em atenção a opinião da sociedade, dos deputados. Há ainda dez anos, se estava sendo concebido um projeto de grande porte, bastava assinar documentos, e pronto, pode fazer! Agora, é necessário opter de aprovação das autoridades locais, ouvir a voz dos cidadãos e as reações da mídia. Trata-se não somente de coordenação entre entidades estatais, não, ainda é preciso explicar às pessoas o que está acontecendo, convocar audiências no Congresso. Por sinal, isso não impediu que nossa economia fosse desmontrando antes da crise o crescimento anual estável do produto interno bruto em 4 a 5 por cento.
Elena Suponina: O comércio internacional continua estribando no dólar como a unidade de pagamento e moeda de reserva básica. Dizia-se o Brasil e outros países fossem formular duramente este verão a necessidade de se livrar da dependência em relação ao dólar. Até agora as buscas de uma alternativa para o dólar têm estado demorando bastante.
Celso Amorim: Aí é presiso sopesar tudo de uma forma minuciosa e objetiva. É importante que os países estudem mais a fundo o problema de como poderiam ser futuramente menos dependentes em relação ao dólar. Uma nova divisa em vez do dólar? Em uma perspetiva a curso prazo, não seria melhor, em vez de criar um concorrente ao dólar, buscar métodos de comércio e investimento dentro das moedas nacionais existentes?
Já começamos a realizar essa ideia no MERCOSUL, especialmente com a Argentina. É um processo nada fácil que encetamos há seis meses. Até o momento, somente 2 ou 2,5 por cento do nosso comércio externo se realizam em divisas nacionais. Porém, o processo já vai andando. Isso é importante e é cômodo, especialmente para as pequenas e médias empresas, pois então elas dependem menos em relação às oscilações das taxas cambiais e dos riscos inerentes. Assisti ao encontro em que os presidentes "Lula" e Medvedev combinaram que os nossos Bancos Centrais e Ministérios das Finanças deveriam se pôr a estudar as possibilidades de promoção do nosso comércio em divisas nacionais.
Elena Suponina: Quer dizer, em rublos?
Celso Amorim: Em rublos, sim, mas também em reais. Poderíamos começar a comerciar com duas divisas: a russa e a brasileira.
Elena Suponina: A Rússia e o Brasil não realizaram por enquanto o objetivo proclamado de alcançar no comércio bilateral o patamar dos 10 bilhões de dólares anuais. São por enquanto 6 bilhões. Qual a explicação?
Celso Amorim: Talvez tenha sido um efeito da crise. A cifra que acaba de citar é uma meta a longo prazo. Não é fácil de alcançar. Todavia, o que fizemos, já é bom, já existe um grande progresso e iremos mais longe. Alcançamos dois terços do propósito, já é alguma coisa.
Elena Suponina: Concorda com a opinião de que algum dia os países do BRIC controlarão uma grande parte da economia mundial, ou seja, que poderão dominar no mundo?
Celso Amorim: Não, o BRIC é uma parte importante da economia e política mundiais. Nossos países dão uma contribuição para que o mundo seja mais diversificado e, como se diz, mais multipolar. É nisso que vemos consistir o papel do BRIC, e não em tentarmos substituir seja quem for.
Elena Suponina: A América, por exemplo.
Celso Amorim: Em vez de um líder global outro líder? Não, isso não seria assim tão positivo.
Elena Suponina: O Brasil é o único país do grupo BRIC que não possui a bomba atômica. Seu país nem sequer aspira a isso, sendo o desenvolvimento de armas nucleares proibido pela Constituição brasileira. Por que?
Celso Amorim: Sim, a Constituição brasileira proíbe desenvolver armamento nuclear. O Brasil orgulha-se de sua condição de país grande e pacífico. Fazemos fronteira com dez países. Não temos tido uma única guerra ao longo de 140 anos, descontando, é claro, que durante a Segunda Guerra Mundial prestamos apoio às democracias europeias para as ajudarem a livrar-se do nazismo.
Ter demasiado armamento é às vezes mais perigoso. Acontece que então você fica alvo por parte de países que também possuem tal armamento. Claro que temos armas para autodefesa. Confiamos, porém, em um mundo sem armas nucleares. O Brasil é um exemplo de que o mundo pode estar livre de armas nucleares. Por falar em que é preciso asperar a tal mundo, porém continuar possuindo tais armas nacionais, isso, sabe, afigura-se nada convincente.
Elena Suponina: Então poderia dizer o mesmo aos Iranianos? Que eles não precisam de armas nucleares? Porque há quem receie que Teerã esteja construindo a bomba atômica. O Brasil mantém boas relações com o Irã, aliás, como também com Israel.
Celso Amorim: Sim, eles não precisam de tais armas. Para toda a região do Médio Oriente seria melhor que todos concordassem com a ideia de criação de uma zona totalmente livre de armas nucleares e demais armas de destruição em massa. Isso, todavia, não quer dizer que os Iranianos não tenham direito de promover sua indústria energética atômica para fins civis. Devemos reconhecr a Teerã tal direito, desde que queiramos alcançar um progresso na resolução do problema iraniano. Em troca, possivelmente, de umas inspeções mais rigorosas às instalações nucleares iranianas.
Elena Suponina: Senhor ministro, quando atendendo ao seu conselho eu irei a um restaurante local, vou ter que ficar sempre em alerta, mesmo de dia, espesialmente aqui, no Rio. Porque bem sabe que mesmo os cariocas, e mais ainda os estrangeiros, têm de estar muito cautelosos pela ameaça de um assalto. Infelizmente, uma tendência semelhante vem se divisando na Rússia. Portanto, aí também temos algo em comum. Por que acontece isso?
Celso Amorim: Eu sou do Rio. Para dizer a verdade, nasci em Santos (em junho de 1942 - N. da Red.), que fica não muito longe daqui no litoral paulista. Porém, desde os quatro anos eu já morava no Rio. E nunca foi assaltado aqui, e nem sequer ficava em uma situação dessas. Embora tivesse andado nas favelas, pois nesses bairros de miséria estávamos fazendo cinema na juventude (Até agora que o chanceler continua apaixonado pela cinema e é reputado grande especialista nessa arte - N- da Red.). Possivelmente, por seu eu um natural que melhor sabe como é preciso se comportar aqui, é claro. Já em algumas cidades grandes da Europa aconteceram-me uns contratempos desse teor. De uma maneira geral, é um problema das cidades grandes no mundo inteiro. A situação no que se refere ao crime no Rio de Janeiro está, possivelmente, mais séria do que, digamos, em Nova York ou Washington. Li comentários a esse respeito já há uns anos na revista "The Economist" e guardei isso na memória, pois parecia ser verdade.
As autoridades brasileiras estão combatendo isso. O que importa, a meu ver, é uma política combinada. Primeiro, programas sociais, a luta contra a miséria, a qual fomenta o crime. E o tema referido por mim da distribuição das receitas equilibradas. Segundo, é um reforço das medidas de segurança e elevação do nível de preparação dos serviços respetivos. É, como a senhora acaba de dizer, preocupa a Rússia não menos que o Brasil. Portanto, quem sabe, poderia ser mais um terreno em que os nossos países pudessem articular uma cooperação e trocar experiências.