Notícias
Entrevista à Gazeta Mercantil - 18 de dezembro de 2002
Uma política firme, sem confrontos
O futuro ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, começou a alinhavar seu discurso de posse no qual vai detalhar a política externa do governo Lula. De sua residência em Londres, o embaixador não deixa dúvidas, em entrevista por telefone a este jornal, que o tom da diplomacia brasileira será cada vez mais firme e forte. Ampliará as alianças políticas e comerciais com países em desenvolvimento, mas sem intenção de confronto Norte-Sul, com uma visão objetiva de obter vantagens concretas.
Amorim deixa claro que uma das grandes prioridades da política externa brasileira será impulsionar a integração da América do Sul, com medidas concretas para ampliar o comércio e também para fortalecer as bases institucionais, inclusive para poder obter mais vantagens nas negociações externas.
Sobre as relações, essenciais, com os Estados Unidos, o futuro ministro crê numa rearticulação a partir do encontro de cúpula entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, que pode ocorrer em março ou abril, provavelmente no Brasil. A seguir os pontos principais da entrevista:
Gazeta Mercantil: Qual a tônica da futura política externa?
CelsoAmorim:Emcoerênciacomaplataforma do presidente Lula, aspectos de mudançasocial pelos quais o brasileiro votou têm que ser projetados para as relações internacionais. Como diminuir o hiato entre países ricos e pobres; defender muito afirmativamente nossos interesses em áreas como agricultura; ampliar o espaço de flexibilidade para políticas de desenvolvimento. Tudo isso num contexto de negociação, sem medo de discordar e de defender nossos interesses.
GZM: Ou seja, nada de rota de colisão, como se poderia imaginar pelos discursos eleitorais do PT?
Amorim: Vamos negociar forte, firme e duro sem medo de diferenças, defendendo nosso ponto de vista com vigor. Também vamos buscar articulação mais freqüente na Organização Mundial do Comércio (OMC) com outros países em desenvolvimento, com China e índia, sem querer fazer confrontação Norte-Sul. Temos uma visão objetiva, de obter vantagens concretas. Ninguém ignora que o mercado dos Estados Unidos é o grande mercado, e queremos eliminar barreiras protecionistas. Seria uma forma de cooperar. Mas nossa cooperação nunca será excludente. O Brasil não vai se jogar nos braços da Alca em detrimento da União Européia nem da negociação na OMC. As três serão tratadas com igual importância. No começo do governo, será dada grande atenção à Alca, não pela prioridade, mas em razão do cronograma.
GZM: Há críticas de que a política externa está muito voltada para abrir mercados e negligencia a política mesmo. Como o Senhor vê isso?
Amorim: A política entre aspas vai ocupar espaço grande. O Brasil vai ser muito afirmativo na busca de maior democratização das relações internacionais. Isso passa pela reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Agora, para o Brasil poder exercer esse papel no mundo, tem que estar bem integrado na sua região.
GZM: Ou seja, a América do Sul é prioritária?
Amorim: Sim. É preciso manter os encontros de cúpula (dos presidentes da região), mas com medidas concretas. Por exemplo, nos créditos recíprocos comerciais, harmonização de normas trabalhistas, facilitação da movimentação da mão-de-obra, infra- estrutura. Não é só questão de rodada comercial. Integração é uma construção permanente, busca conjunta de respostas.
GZM: Mas como fazer integração com caos na Venezuela. A Colômbia também não está bem e o Peru dá sinais de problemas.
Amorim: Temos que ajudar no desenvolvimento e procurar soluções baseadas no fortalecimento institucional. Uma boa situação econômica ajuda a melhorar a situação para todos. Quanto mais integrada estiver a América do Sul, melhores opções teremos para obter vantagens lá fora. É difícil imaginar o Brasil forte com a região fraca. O que ocorre na América do Sul tem influência nas outras regiões. Temos que reativar interesses estratégicos.
GZM: O México passou a economia brasileira e cresce mais que o Brasil. Como o Brasil pode exercer papel de liderança na América Latina?
Amorim: Ah, mas isso é uma questão de câmbio. E veja, liderança não é objetivo em si, mas decorrência de certas posições. Ela se exerce mais por inspiração do que por comando. 0 Brasil dá seu exemplo, até interno, de mudança social, num processo totalmente pacífico. Isso pode ser um fator de liderança, sem ser buscado como objetivo ou condição para o Brasil ter grande influência. Progredindo democraticamente, isso já ocorrerá naturalmente.
GZM: Como reorganizar as relações com os Estados Unidos?
Amorim: A viagem do presidente Lula a Washington foi muito importante. O próprio presidente Bush está querendo o encontro de cúpula, que pode ser em março ou abril. Isso vai possibilitar diálogo de grande substância, com grande impacto político e, em si, a forma incide no conteúdo. Os dois lados tratam com esse grau de seriedade, saindo de queixas recorrentes para uma visão mais estratégica na qual os EUA reconhecem no Brasil um parceiro indispensável para a estabilidade da América do Sul e mesmo da África. O Brasil vai atuar na África portuguesa, na África do Sul, tem possibilidade de ajudar em muitas coisas. A questão estritamente econômica terá grande prioridade, vai ter ênfase especial. mas não será excludente.
GZM: Mas sobra, para um país como o Brasil, um espaço político para ação internacional minimamente independente, num contexto dominado por uma única superpotência?
Amorim: Na realidade global de hoje, todo mundo acentua o grande predomínio americano, e ele é verdadeiro. Ma há vários outros pólos de poder. O Brasil pode contribuir para a multipolaridade, que é saudável para todos e até para a grande potência. Podemos contribuir com o diálogo franco com países europeus, com a China, Rússia, Índia, África. Todos terão grande importância, em questões políticas, científica, tecnológica, etc.
GZM: O multilateralismo está moribundo. Como conseguir alguma coisa na OMC e nas Nações Unidas?
Amorim: Moribundo, não diria. Tem sofrido solavancos sérios, mas na hora H o multilateralismo é sempre necessário, como foi importante em Doba para se obter a declaração sobre melhor acesso a remédios. Na quentão do Iraque, bem ou mal, os Estados Unidos optaram por levar para o Conselho de Segurança (da ONU) a questão com seu ponto de vista. O multilateralismo é sempre o melhor caminho, É mais sólido. Outros podem trazer resultados imediatos, mas sujeitos a abalos.
GZM: O novo governo assume num contexto internacional sombrio pela ameaça de guerra no fraque. Que impacto essa situação pode ter na política externa brasileira?
Amorim: Enquanto a guerra não começar, ela é sempre evitável. Isso implica que o Iraque dê toda a cooperação. Confio muito nos inspetores da ONU, no Hans Blix, chefe deles, e em princípio não vejo por que não seja possível evitar a guerra, desde que haja boa vontade. Se houver violação clara das resoluções do Conselho de Segurança, e espero que isso não ocorra, o governo Lula prefere que qualquer avaliação seja feita pelo Conselho de Segurança da ONU
GZM: Como o Senhor vê a criação da Secretaria de Comércio Exterior?
Amorim: Ela está no programa do PT e não tenho nenhum temor sobre isso. O Itamaraty tem vantagem comparativa na capacidade negociadora. Isso não pode ser reconstituído de uma hora para outra. Seria como pegar o xadrez com o jogo pelo meio. Mas há muitas coisas que o Itamaraty não pode fazer. Por exemplo, definir qual a melhor política tecnológica na política para exportações. Como uma das coisas importantes não é só apoiar o comércio exterior como balcão, mas fazer prioridade também das outras políticas (tecnológica, agrícola, etc.), é importante ter um órgão central de coordenação. E (a secretaria) sendo ligada à Presidência (da República) é muito útil. Agora, quando chega na negociação, o Itamaraty tem a vantagem comparativa.