Notícias
“Sob críticas, Amorim defende política externa de Lula” (Agência Reuters, 26 de agosto de 2005)
Por Guido Nejamkis
BARILOCHE, Argentina - O Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, defendeu a política externa do governo Lula, duramente criticada pela oposição, e disse que o Brasil prefere competir por posições em órgãos internacionais a ser um espectador passivo.
A atual política externa do Brasil é frequentemente elogiada no exterior, onde o país é reconhecido com um ator global relevante. Pesam nisso as iniciativas brasileiras para dar mais transparência à Organização Mundial do Comércio (OMC) e para melhorar a representatividade do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Internamente, porém, a situação é diferente.
Recentemente, em um furioso artigo, o senador Jefferson Péres (PDT-AM) qualificou de “megalomania” e “fracasso” a política externa do governo petista, críticas que ecoam entre políticos e especialistas no assunto.
Mas, em entrevista à Reuters na noite de quinta- feira, Amorim disse que “quem não compete não se postula, não perde; não perde, mas vê as coisas passarem”. O objetivo do Itamaraty, segundo ele, é “estar à frente junto com outros, não só ficar vendo as coisas passarem pela janela, é sermos protagonistas e defender os princípios nos quais acreditamos”.
As críticas se acentuaram neste ano por causa da derrota de Luiz Felipe de Seixas Corrêa ao cargo de diretor-geral da OMC. Logo depois, João Sayad perdeu para o candidato colombiano Luis Alberto Moreno a eleição para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
“Há pessoas, e não me refiro ao senador Péres, a quem respeito, que às vezes tendem a ver as coisas como se fossem uma partida de futebol, como se fossem uma Copa do Mundo, que termina para quem perde.
Na política exterior não é assim. A gente vai lançando sementes, e as coisas vão germinando, algumas hoje, outras amanhã”, disseAmorim.
“Às vezes muitas pessoas têm um certo imediatismo, e é mais fácil perceber um resultado às vezes eleitoral do que questões de longo prazo”, acrescentou.
O Brasil vem atuando agressivamente na OMC, onde articulou em 2003, na reunião de Cancún (México), o chamado Grupo dos 20 (G-20), junto com países como China, Índia, África do Sul e Argentina, para agir em defesa dos seus interesses comerciais no setor agrícola.
“O G-20 mudou o conteúdo e a forma das negociações na OMC. Fui embaixador ali, cansei de ver que Estados Unidos, Europa, Japão e Canadá resolviam praticamente tudo e depois discutiam algumas poucas vírgulas conosco”, disseAmorim, que está em Bariloche para uma reunião de chanceleres latino-americanos.
“Hoje o quadro é Estados Unidos, União Européia, Brasil e Índia. Isso graças ao G-20 em Cancún. Não tenho a menor dúvida de que os historiadores vão lembrar que a reunião de Cancún foi um marco para as negociações comerciais mundiais.”
O ministro também defendeu a aspiração brasileira a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, após uma eventual reforma do órgão. Para isso, o Itamaraty se uniu a Índia, Alemanha e Japão, também candidatos, formando o chamado G-4.
A proposta do grupo, cuja discussão foi iniciativa do secretário-geral da ONU, tem a oposição, entre outros, de China e de vários países da África, o que pode inviabilizá-la — possibilidade que também provocou críticas no Brasil.
“Essa questão da reforma da ONU não sei que resultado terá. Espero que seja positivo. Mas posso garantir que a reforma, quando ocorrer, será muito mais justa e equilibrada. Não se podem ver as coisas só no curtíssimo prazo, a história não se faz de uma vez só”, concluiu o chanceler.