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“Não acho que tenha havido guerra” (jornal Zero Hora, 20 de julho de 2004)
O Chanceler Celso Amorim fez ontem uma autocrítica em relação ao Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). Diante dos recentes entraves do governo argentino a produtos brasileiros, Amorim reconhece a necessidade da elaboração de políticas comuns na áreas industrial, agrícola e de desenvolvimento, eliminando o risco de conflitos.
- É preciso fazer o dever de casa - prega o Ministro. Amorim, porém, não acredita que o MERCOSUL está em xeque. Em plena negociação com a União Européia (UE), Amorim afirma que os problemas com o país vizinho não enfraquecem o bloco.
- Não podemos matar a galinha dos ovos de ouro - disse, se referindo ao MERCOSUL.
No seu gabinete, que impressiona por obras de arte como quadros de Portinari, Amorim, 62 anos, conversou com a Agência RBS durante uma hora. Pouco antes, esteve reunido com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para relatar as últimas negociações junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) - ele chegou no final de semana de Genebra, na Suíça - e discutir a próxima viagem presidencial à África do Sul, de 25 a 29 de julho. À vontade, relembrou até mesmo os tempos de cineasta do Cinema Novo. Amorim foi assistente de direção de Ruy Guerra no clássico Os Cafajestes. O Chanceler também presidiu de 1979 a 1982 a Embrafilme, época em que teve problemas com o governo militar ao liberar o filme “Prá Frente, Brasil”, de Roberto Farias.
- Cinema para mim é uma doença cíclica - diz Amorim, que tem três filhos cineastas (Vicente, João e Pedro) e é fanático por cinema.
A seguir, os principais trechos:
Agência RBS - Até que ponto essas restrições da Argentina, a chamada guerra das geladeiras, prejudicam o MERCOSUL?
Celso Amorim - Não acho que tenha havido guerra. É um problema que está sendo superado e não coloca em xeque o MERCOSUL. É um desafio enfrentar essas disparidades, esses desequilíbrios, e temos de encontrar soluções. Acho positivo, por exemplo, que os governadores dos Estados do Sul se encontrem com alguns governadores argentinos. A Argentina é o nosso segundo maior parceiro comercial individual.
Agência RBS - No momento em que o MERCOSUL negocia com a União Européia (UE), um impasse entre Brasil e Argentina não enfraquece o bloco?
Celso Amorim - Não é um impasse. São problemas que têm de ser resolvidos. A UE levou 40 anos para se consolidar. Um processo de integração é positivo no seu resultado final, mas não é totalmente indolor. Temos que fazer isso de maneira a diminuir ao máximo os pontos de atrito, levando em conta questões como a necessidade de emprego. Se o Brasil é mais competitivo, é uma realidade que tem que se colocar, mas dentro de um quadro de entendimento: temos de pensar em termos de cadeias produtivas, que envolvam todos os países do MERCOSUL. Quando pensamos em política industrial, agrícola ou de desenvolvimento, o MERCOSUL não pode ser uma nota de pé de página. Você tem que levar em conta a realidade do MERCOSUL nessas políticas.
Agência RBS - Qual é a estratégia do Governo brasileiro nesse momento? Empresários cobram que o Brasil deveria ser mais duro, bater na mesa.
Celso Amorim - Todo mundo gosta de bater na mesa quando é com Argentina, Uruguai ou Paraguai. Quando chega na hora de bater na mesa com a UE e os Estados Unidos, todo mundo morre de medo. A Argentina é um sócio, um parceiro estratégico. Claro que tem de se comportar de acordo com as regras. AArgentina tinha adotado uma medida que levaria a restrições e também preferiu negociar. Cada um tem as suas necessidades políticas. Temos sido firmes.
Agência RBS - Então, a saída é mesmo negociar cotas?
Celso Amorim -Aliás, os empresários do setor privado negociaram muito entre eles, como têm negociado em têxteis. O governo pode ajudar a monitorar, encaminhar. Acho que o fato de termos reclamado do anúncio das medidas é correto. Mas temos de levar em conta a necessidade de flexibilidade.
Agência RBS - Daqui para frente, como evitar esses contenciosos?
Celso Amorim - Isso é de fato um desafio. Não podemos ficar apagando incêndio. Isso não dá mais. Talvez, se quiser fazer uma autocrítica, tenhamos dado um pouco menos de atenção à parte interna do MERCOSUL. Temos de ter uma visão integrada, que privilegie quem é mais competitivo, porque senão todos saem perdendo. Há a necessidade de transição para certos setores. Isso requer mais esforço concentrado das áreas econômicas do governo. Não é um problema diplomático. Se não houvesse o MERCOSUL, se não tivesse tarifa zero, esse aumento nas exportações não teria ocorrido. A gente não pode matar a galinha dos ovos de ouro.
Agência RBS - Esses entraves com o MERCOSUL não prejudicam o lado vistoso da diplomacia brasileira de criar um bloco alternativo, a chamada união do Sul?
Celso Amorim - Temos que nos acostumar a ter problemas. O Brasil está crescendo, e o MERCOSUL também. Estamos tendo mais espaço internacional. Mas não podemos fazer de cada problema um drama nacional.
Agência RBS - Como o MERCOSUL pode negociar com a União Européia - como está ocorrendo agora - se não há essa estratégia de políticas comuns?
Celso Amorim - Está perto do final. Tudo terá que passar pela Camex (Câmara de Comércio Exterior). Amanhã (hoje), há reunião da Camex. Negociação é como jogo de futebol: só termina quando o juiz apita. Agora, tentamos obter uma melhora da oferta européia e estamos perto de um acordo. Quanto ao MERCOSUL, preferia que não existissem essas questões, mas elas não afetam a nossa unidade no campo externo. Nossas negociações com a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) foram conjuntas. Isso é bom. Mas há um dever de casa que deve ser feito internamente, reconheço. Até como autocrítica. Essa questão está se tornando urgente.
Agência RBS - Até que ponto a tentativa de abertura de novos mercados não pode ficar só na retórica?
Celso Amorim - Que não é retórica, não é. Temos estatísticas que demostram o quanto cresceu nesse ano o nosso comércio com esses países.
Agência RBS - Sim, mas no caso da soja, o governo chinês não hesitou em restringir.
Celso Amorim - A China é um país grande, complexo, assim como o Brasil. De repente, estou negociando com um país e um órgão daqui toma uma medida de restrição por um problema sanitário ou de saúde. Não estamos falando de coisas pequenas. Esse fato (a soja) foi corrigido. Eu vejo de forma contrária. Se não ocorresse uma aproximação política, estaríamos até agora lutando com isso e talvez tivéssemos que levar à Organização Mundial do Comércio (OMC). E questões sanitárias são muito difíceis na OMC.
Agência RBS - O Brasil pensa em sepultar a ALCA?
Celso Amorim - Houve e há um grande esforço de avançar, de procurar soluções para os problemas, que são reais, como a questão agrícola, onde os Estados Unidos se revelaram mais restritivos. Mas, ao mesmo tempo, não renunciaram a alguns objetivos ofensivos em áreas delicadas para nós. Quando retomarmos as negociações, vamos nos concentrar no que mais interessa.
Agência RBS - Na Alca light?
Celso Amorim - Não é light. Não podíamos era discutir todos os temas, digamos, sensíveis aos Estados Unidos na OMC e todos os sensíveis para nós na ALCA, onde o poder de pressão deles era maior. Isso não dá.
Agência RBS - AALCA começa em janeiro de 2005?
Celso Amorim - Honestamente, acho difícil. Estamos cada vez mais perto das eleições norte- americanas e isso cria um complicador. Acho mais provável, se fizermos uma análise fria - veja bem, não é um desejo - é possível avançarmos mais após as eleições. Hoje, avançar na negociação na OMC é mais fundamental para o Brasil.
Agência RBS - Não há uma torcida do Governo brasileiro por uma vitória do democrata John Kerry?
Celso Amorim - Não há torcida. Gostamos muito que respeitem a nossa soberania e respeitamos a dos outros também.
Agência RBS - Mas se as pesquisas confirmarem, a tendência de vitória dos democratas pode favorecer o Brasil?
Celso Amorim - Nessas questões de interesse de Estado, a continuidade pesa, mas é um pouco prematuro julgar. Não vou querer entrar nessa análise.
Agência RBS - Mas o governo do Presidente George W. Bush favoreceu o setor agrícola e isso não é bom para o Brasil. Uma mudança não seria bem-vinda?
Celso Amorim - Isso é vocês que estão dizendo. Nós soubemos como agir e fomos à OMC contra os EUA na questão dos subsídios ao algodão. O Brasil causou uma revolução. Foi o primeiro caso de subsídio doméstico questionado na OMC.
Agência RBS - Em que a missão no Haiti favorece o objetivo do Brasil de obter uma cadeira definitiva no Conselho de Segurança das Organizações das Nações Unidas (ONU)?
Celso Amorim - A missão do Haiti não foi feita com esse objetivo. Ela faz parte de uma preocupação brasileira. A situação de total insegurança de um país da América Latina é algo preocupante. Não podemos ficar dizendo que somos contra uma ação porque não tem o aval da ONU (se referindo ao Iraque) e quando tem o endosso (no caso do Haiti) lavar as mãos. Se isso vai contribuir para o Brasil ser membro permanente no Conselho ou não, não sei. A paz tem um preço. Ou você vai e atua, ou você vai pagar sob a forma de dependência, de menor influência política. O Brasil é um país importante no cenário internacional e temos que dar uma contribuição.
Agência RBS - Como o senhor vê as críticas de que a intenção da diplomacia brasileira é marcar posição antiamericana? A visita à Líbia, do ditador Muamar Kadafi.
Celso Amorim - Não dá nem para levar a sério essas críticas. Duas semanas depois de o Presidente Lula ter visitado a Líbia, o Presidente Bush elogiou o Kadafi pela cooperação que ele estava dando em armas de destruição em massa.
Declarações
“Todo mundo gosta de bater na mesa quando é com Argentina, Uruguai ou Paraguai. Quando é com os EUA, todo mundo morre de medo.”
“A paz tem um preço. Ou você vai e atua, ou você vai pagar sob a forma e menor influência política. Temos (o Brasil) que dar uma contribuição.”