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“Chanceler brasileiro revela os bastidores do fim dos subsídios em Genebra” – (revista Isto É Dinheiro, 9 de agosto de 2004)
O Chanceler CelsoAmorim tem bons motivos para estar feliz. Na semana passada, em Genebra, ele costurou um acordo que parecia impossível na reunião plenária da Organização Mundial do Comércio. Seu texto, que estabelece a redução gradual até o completo fim dos subsídios que os países ricos concedem aos seus produtos agrícolas, foi saudado no mundo inteiro como um marco histórico na derrubada das barreiras comerciais. Logo depois, na quarta-feira 4, o Itamaraty anunciou que conseguira condenar, na mesma OMC, os subsídios que a União Européia concede aos produtores de açúcar. Esta vitória veio na esteira de outra, anunciada em abril, contra os subsídios americanos aos produtores de algodão. A seqüência de triunfos faz com que Amorim seja reconhecido mundialmente como um expoente entre os diplomatas. À DINHEIRO, balançando-se em sua poltrona no gabinete ministerial no Itamaraty, o Chanceler brasileiro contou em detalhes os bastidores de sua maior vitória, o acordo contra os subsídios.
“Dobrei a dose de Omeprazol para segurar a gastrite”
À base de sanduíches, reunião com os ricos durou mais de onze horas:“Cheguei em Genebra às 6 da manhã da terça-feira 27 e pouco depois estava reunido com o pessoal técnico do Itamaraty”, inicia o Chanceler. Seu próximo passo foi juntar os representantes do G-20 para definir estratégia para enfrentar os ricos. A primeira batalha começou às 4h30 da tarde. “No chamado não-grupo dos cinco – União Européia, Estados Unidos, Índia, Austrália e Brasil –, ficamos discutindo até às 11 horas da noite e pouco avançamos. Por precaução, dobrei minhas doses de Omeprazol para segurar a gastrite. Foi a minha sorte. Na quarta-feira, a reunião com os ricos começou a uma da tarde e só terminou depois da meia-noite, direto, sem parada para almoço ou jantar, só à base de sanduíches. Dali ou sairia um acordo, ou toda a reunião seria um fracasso”.
“Percebi que as coisas iam mal e liguei para o Zoellick”
Chanceler cobrou acordo de cavalheiros e ameaçou romper Amorim conta que a longa reunião valeu a pena. “Fizemos um acordo de cavalheiros, mas ainda não havia nada no papel. Tudo podia dar errado”, temia o Chanceler. Ele foi chamado pelo Presidente do Conselho-Geral da OMC, o japonês Shotaro Oshima, para explicar a negociação. Também foram convocados o Secretário de Comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick, e o Comissário da União Européia, Pascal Lamy. “À tarde, repassei os termos do acordo aos nossos aliados”, conta. Mais tarde, fez sua única pausa. “Jantei com a minha filha, que mora em Genebra, mas no dia seguinte a pauleira recomeçou.” No papel, o acordo fora modificado. Para pior. “Houve um peso excessivo às posições japonesas, suíças e de outros países. Aquilo não era nada bom para nós”, definiu. Preocupado, foi ao telefone: “Liguei para o Zoellick, lembrei a ele nosso acordo de cavalheiros e disse que, daquele jeito, tudo estava acabado. Foi um momento crucial”. Fiel à palavra empenhada, Zoellick fechou com Amorim. “Daí, começamos uma corrida contra o tempo”, define. Passava das 11 da manhã da sexta-feira 30. A plenária dos 147 países membros da OMC começaria às cinco da tarde com as delegações discutindo um documento inaceitável para o Brasil e os demais integrantes do G-20.
“Dobrei meu paletó, fiz de travesseiro e tirei um cochilo”
Conserto no documento final fez plenária ir até as sete da manhã
Com Zoellick como aliado, Amorim procurou o neozelandês Tim Grosser, Presidente do Comitê de Negociações Agrícolas da OMC. “Queria mexer no texto, mas Grosser disse que o assunto fugia da sua alçada. O documento já estava circulando entre as delegações”, lembra. Tentou-se convencer o Presidente do Conselho-Geral Oshima, mas o caso teria mesmo de ir a plenário. “Começamos a reunião plenária às cinco da tarde e fomos diretos até as 7h30 da manhã do sábado”, cronometrou o Chanceler. “Gastamos mais de três horas apenas para desfazer os pontos que não estavam no acordo de cavalheiros original”. Impossível dormir. “Pela primeira vez na minha vida, dobrei meu paletó para servir de travesseiro, deitei num sofá do terceiro andar da
OMC e tirei um cochilo.”
“Redigi ali mesmo, na hora, pontos inteiros do novo acordo”
Triangulação entre Brasil, UE e EUA saiu vitoriosa
Não foi fácil consertar o texto. Prevaleceu, no entanto, o primeiro acordo fechado pelo Brasil com a União Européia e os Estados Unidos. “A UE queria que os americanos diminuíssem seus créditos internos aos produtores agrícolas, a chamada Caixa Azul, e os americanos exigiam reciprocidade dos europeus”, explica o Chanceler. O Brasil, para ver atendido seu pleito, teve de dar garantias de que não fará mais mudanças de regras para as empresas estrangeiras que tentam acessar o mercado nacional. “Foi uma triangulação complexa, mas que deu certo”, diz ele. “Zoellick, Lamy e os outros fizeram um esforço sem precedentes para fecharmos um acordo sem meias palavras. Nós também iremos cumprir a nossa parte”, garante. “Nenhum país fez pressões indevidas. Eu mesmo redigi ali, na hora, durante a plenária, o texto sobre produtos especiais”, afirmou. Suas contas, agora, são otimistas. “Calculo que, nos termos em que foi aprovado, o acordo resultará em ganhos de uns US$ 10 bilhões anuais aos países em desenvolvimento que têm base agrícola”, arrisca o chanceler. “Outras previsões falam em até US$ 22 bilhões.”
“Avançamos em tudo o que era possível avançar”
Redução de subsídios começa agora e se acentua em 2005
Num balanço da reunião, o Chanceler classifica como “vitória absoluta” a derrubada dos subsídios às exportações nos países ricos. O programa americano Caixa Azul, que garante créditos fiscais para exportadores, terá de ser controlado e não poderá ter alíquotas maiores que as atuais. No primeiro ano de vigência, sofrerá cortes de 20% nos créditos. Os europeus, enquanto isso, terão de reduzir em um ano após o final da rodada de Doha, em 2005, de atuais 22 bilhões de euros para 12 bilhões de euros o volume total dos subsídios. “É como se, no meio do tiroteio, nós tivéssemos diminuído o total das balas que eles têm para nos acertar”, compara Amorim. Ele também soboreia a vitória brasileira no painel solicitado pelo Brasil para discutir subsídios da UE sobre o açúcar. O Itamaraty divulgou na quarta 4 que o País foi vitorioso e conseguiu derrubar subsídios que, só este ano, representaram 1,2 bilhão de euros. A UE deve recorrer. Antes, em abril, os brasileiros já haviam cravado uma vitória sobre os subsídios americanos ao algodão. Entre 1999 e 2003, os EUA gastaram US$ 12,5 bilhões em subsídios aos cotonicultores e foram condenados pela OMC a suspender essa política. Por todas estas, Amorim está sendo elevado à condição de um dos diplomatas mais competentes do mundo em assuntos comerciais. Ele faz que não faz conta. “Tudo isso cansa, mas recompensa”, admite.