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Patriota diz que documento é o possível (Entrevista do Ministro Antonio Patriota ao jornal O Globo, 18/06/2012)
O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, rebate as críticas de que falta ambição ao documento que os negociadores da Rio+20 estão fechando no Riocentro. Ele acredita na convergência sobre temas básicos, num texto mais enxuto: "Se você deixa muita coisa em aberto, não conclui nunca", disse ele, em entrevista a Eliane Oliveira e Renata Malkes.
"Se você deixa muita coisa em aberto, não conclui nunca"
As críticas ao novo rascunho do documento que sairá da Rio+20 pareciam, ontem, não abalar a confiança do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Ao contrário. Ele assegurou que a proposta brasileira foi bem recebida pelas delegações. Após comparar os países em desenvolvimento à periferia na semana passada, ele vê o início de convergência. E negou que o país teria outro texto para apaziguar o desconforto com os termos gerais, considerados vagos.
Eliane Oliveira e Renata Malkes
O GLOBO: A periferia continua dando o tom das negociações?
ANTONIO Patriota: Fiz esse comentário em relação a como a crise impactava as diferenças no cenário internacional e político entre 1992 e 2012. O que eu acho é que hoje em dia há uma distribuição de poder econômico diferente e um engajamento muito maior de países como o Brasil, que tem essa temática do desenvolvimento sustentável e até uma certa liderança. Eu costumo dizer que liderança é mostrar que você é capaz de produzir avanços, encontrar soluções, elaborar fórmulas, mas também identificar com clareza os desafios.
As áreas onde você tem ainda que fazer melhor. Isso também é liderança, porque ajuda todo mundo a debater no espírito de franqueza, de transparência, de exercer a responsabilidade coletiva com sabedoria.
A perspectiva de a Grécia permanecer na zona do euro deve tranquilizar os chefes de Estado que participarão da Rio+20?
Patriota: O G-20 nem começou ainda. Estou acompanhando as eleições na Grécia como todo mundo, são importantes.
Em que medida a crise europeia afeta a Rio+20?
Patriota: A crise europeia está sendo tratada em um contexto de debates. A União Europeia continuará existindo. Na UE há um interesse muito grande por aquilo que está sendo discutido aqui no Rio. A minha percepção é que a UE não diminuirá seu engajamento com os fundamentos do desenvolvimento sustentado.
Pelo contrário. Os europeus são parceiros fundamentais, pela força econômica que eles representam e ainda podem representar, além da força política, intelectual, científica e de tecnologia da inovação.
A nova versão do documento final da Rio+20, apresentado pelo Brasil no sábado, foi bastante criticado por organizações não governamentais e pela própria União Europeia. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Patriota: Eu diria que o documento foi muito bem recebido de modo geral. É natural que diferentes atores procurem produzir mais daquilo que constitui sua posição. Foi um teste muito importante, ao ser aceito por todos os participantes do processo numa base em que, pelo que entendo, a aceitação foi bem positiva.
Ontem (sábado), quando estavam agendadas reuniões sobre trechos do texto para aproximar posições, houve um pedido de uma plenária para se trabalhar em relação ao texto.
Mas não há datas, números, nada sobre implementação.
Patriota: Quando você começa a aproximar posições, tem de encontrar fórmulas que, sem comprometer os objetivos, permitam que se conclua a negociação. Se voc ê d e i x a m u i t a coisa em aberto, não conclui nunca. O que é melhor? Não ter um texto negociado, sem concluir a negociação, ou manter alguns objetivos que neste momento não são alcançad o s ? Vo c ê e s t á d e i x a n d o oportunidades, janelas, para que eles sejam alcançados a partir de um processo que se instaura no Rio de Janeiro. A Rio+20 é uma conferência que está olhando para o futuro, não só o imediato, que é importante, mas a médio e longo prazos.
O que deve sobrar para os líderes mundiais decidirem, ao chegarem à Rio+20?
Patriota: Você acha que ministros são líderes também? Os ministros já estão chegando e estou começando a conversar com eles. Hoje já falei um pouquinho com alguns, como a ministra do Meio Ambiente da Dinamarca (Helle Thorning-Schmidt), país que ocupa a presidência rotativa da União Europeia. Estou recebendo delegações, posso ter conversas com ministros sobre aspectos específicos do texto que ainda estão a exigir algum trabalho e, com isso, procurar concluir as negociações.
Nessas conversas, pode sair uma nova versão do texto?
Patriota: Podem surgir ajustes ao texto atual. O texto final não será muito diferente do que está sobre a mesa.
Existem rumores entre outras delegações de que o Brasil já teria apresentado uma nova versão desse rascunho.
Patriota: São rumores infundados.
O Brasil poderá anunciar novas metas voluntárias na Rio+20?
Patriota: O Brasil está permanentemente anunciando metas e adotando medidas e programas. No Dia do Meio Ambiente, por exemplo, foram anunciados aqui, no Riocentro, vários programas.
O incentivo à produção de bens sustentáveis, por exemplo, ainda não saiu.
Patriota: Isso não envolve só o Itamaraty, você sabe...
Ainda nessa área de relações bilaterais, existem rumores de que há uma recomendação da presidente Dilma de não receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e isolá-lo devido ao contexto delicado em que está o país.
Existe essa orientação?
Patriota: A presidente Dilma está definindo a lista de encontros bilaterais que ela vai manter. São muitos pedidos e o tempo é escasso. Ela terá oportunidade de conversar em outros eventos oficiais, dos quais participará.