Notícias
Fala Mansa (Entrevista do Ministro Antonio Patriota à Revista Poder, Novembro/2011)
Por Fabiana Godoy - Fotos Sérgio Caddah
Bem relacionado, tranquilo e discreto. Assim é o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, que, em 11 meses à frente do cargo, comemora a boa imagem do Brasil no exterior e se diz otimista sobre as chances de o país conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU
“Há uma demanda enorme pelo Brasil.” É assim, entre sorrisos, que o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, explica o bom momento da política externa brasileira. A agenda de Patriota nos 11 meses em que está no cargo dá a dimensão do que ele diz. Foram mais de 50 viagens internacionais, num roteiro que inclui toda a América do Sul, vários países da África, da Ásia, os Estados Unidos, a China, a Rússia, o Haiti, entre outros. No dia desta conversa com PODER, por exemplo, ele havia passado algumas horas sendo entrevistado no escritório da agência de notícias da China, em São Paulo. "O grande desafio é encontrar tempo para dar conta de todas as frentes de trabalho."
As reuniões mundo afora incluem a participação do Brasil em fóruns de nações emergentes, como o Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) e o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). E, claro, negociações abertas para conquistar adesão a uma das principais questões da diplomacia brasileira: um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, do qual o Brasil é membro rotativo. "Vivemos num mundo de aceleradas transformações geopolíticas", avalia o ministro. "O reconhecimento de que as Nações Unidas e o Conselho de Segurança precisam se adequar a isso é unânime. O difícil é encontrar a fórmula que seja capaz de angariar a maioria necessária." Patriota, no entanto, acha que isso está perto de acontecer. "Sou um otimista."
Nem as questões mais espinhosas tiram a tranquilidade do chanceler. Uma conversa com o ministro deixa no interlocutor a impressão de se estar diante daquele tipo de pessoa vocacionada para o que faz. Ele é extremamente cordial, fala de maneira assertiva, mas serena; consegue se esquivar com classe - e sem alterar o tom da voz ou o semblante - dos assuntos mais indigestos e persuadir o interlocutor daquilo que defende.
Difícil saber se esse traquejo vem da personalidade desse carioca, formado em filosofia pela Universidade de Genebra, ou do treino adquirido em 32 anos de uma bem-sucedida carreira diplomática. Antes de alcançar o posto mais alto da chancelaria, Patriota passou por posições-chave no Itamaraty, como o de secretário-geral das Relações Exteriores, subsecretário-geral político e chefe de gabinete do ministro. Também serviu ao governo brasileiro em Pequim, Genebra, Caracas, Nova York e foi o embaixador em Washington entre 2007 e 2009 - período em que estreitou as relações entre Brasil e Estados Unidos pelo bom trânsito que conquistou no governo e no Congresso americanos. Na entrevista a seguir, ele avalia a política externa brasileira e sua atuação como principal representante do Brasil diante da comunidade internacional.
Poder: Como o senhor avalia a imagem do Brasil no exterior nesse momento?
Antonio Patriota: A imagem é o reflexo da realidade. Se é positiva, é porque muito foi conquistado no Brasil nos últimos anos, com a redução da pobreza, a geração de oportunidades de empregos, a democracia se consolidando, a consciência ambiental, a matriz energética lipa, a capacidade de gerar projetos de integração e também um engajamento internacional crescente. Tudo isso gera uma imagem positiva.
Poder: Já que o senhor teve oportunidade de trabalhar com o presidente Lula e agora coma presidenta Dilma, qual a diferença de estilo entre os dois? Dizem que ela é uma chefe mais dura...
AP: Na época do presidente Lula, fui embaixador em Washington e vice-ministro, mas não trabalhava tão diretamente com ele. Pra mim é uma novidade essa maneira de trabalhar da presidenta e aprecio muito nela o rigor, o interesse, a capacidade de absorção de informação. Ela tem um interesse enciclopédico pela realidade internacional, ela quer saber da economia, da realidade política, do desenvolvimento científico tecnológico, da cultura, das características do povo. É um prazer trabalhar com uma pessoa que revela não só muito conhecimento como muito interesse em conhecer mais a realidade.
Poder: E com relação à política externa, qual a diferença entre os dois?
AP: O eleitor brasileiro escolheu a continuidade. Não há necessidade de se reinventar a roda. Estamos trabalhando em cima de conquistas que foram importantes nos últimos anos em termos não só da participação muito afetiva nos grandes debates internacionais, nos grandes fóruns, como nas Nações Unidas, na OMG. O Brasil conquistou um lugar de destaque. E isso continua. Também data nos esforços do governo anterior uma verdadeira rede global de embaixadas, uma presença importante na África, no Oriente Médio, na Ásia central. E a participação em novas coalizões, por exemplo, o Brics, o Ibas. Além de continuar o que foi construído no governo anterior, há nuances e ênfases trazidas pelo perfil da presidenta Dilma, como a parte dos direitos humanos, presente inclusive na biografia dela.
Poder: O presidente Lula promoveu uma aproximação grande, inclusive no plano pessoal, com lideres polêmicos como Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales e Mahmoud Ahmadinejad. O mesmo não tem sido feito pela presidenta Dilma. Isso sinaliza uma mudança de atitude do Brasil em relação a esses países?
AP: Hoje de manhã, por exemplo, participei de uma reunião que a presidente teve com o chanceler de Cuba e ela informou que desejará visitar o país num futuro próximo. O Brasil é muito ecumênico. E é muito importante manter não só com aqueles que tem posições idênticas. Sempre haverá diferenças entre os países. E acho importante respeitar e valorizar as escolhas de diferentes eleitorados.
Poder: Estando na carreira diplomática há mais de 30 anos, como avalia vazamento de documentos sigilosos pelo site WikiLeaks?
AP: A questão do WikiLeaks é uma anomalia. Quando dois representantes governamentais se encontram e decidem deliberadamente ter uma conversa reservada, confidencial, em nome de um bem maior, a paz, por exemplo, ou um cessar-fogo, aquilo requer um nível de confiança. Eu sei que o governo americano ficou muito incomodado com o WikiLeaks. Ainda na minha condição de secretário-geral do Itamaraty recebi um telefonema do Departamento de Estado americano pedindo desculpas por citações potencialmente problemáticas envolvendo o Brasil. Felizmente, o Brasil é um país sem inimigos, com agenda positiva, e isso não chegou a acontecer conosco.
Poder: Quais nossas reais chances de conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?
AP: Vivemos um mundo de aceleradas transformações geopolíticas. No plano econômico e financeiro isso já ficou patente pela substituição do G8 pelo G20. O mesmo se aplica a outras esferas, como a comercial. O reconhecimento de que as Nações Unidas e o Conselho de Segurança precisam também se adequar a isso é unânime. O difícil e encontrar a formula que seja capaz de angariar a maioria necessária, no caso, dois terços dos 194 membros da ONU, além da ratificação dos cinco membros atuais.
Poder: Isso pode acontecer esse ano ainda?
AP: É muito difícil fazer essa previsão. Os interesses são muito arraigados. Existem temos que, na minha opinião, são injustificados, por parte de alguns países.O maior risco que nos corremos aqui é de perda da credibilidade que já foi dada ao Conselho de Segurança. Sairemos todos perdendo se dentro de cinco, dez anos o Conselho de Segurança não se reformar e não preservar essa capacidade de lidar com grandes desafios no campo da paz. Ele não será mais visto como representativo as olhos de muitos representantes da comunidade internacional.
Poder: Deu pra sentir um tom otimista, de que isso estaria perto de acontecer..
AP: (risos) Eu sou um otimista e acho que o brasileiro tem de ser otimista por natureza. O brasileiro representa o país que está dando certo, indo para a frente, no sentido de encontrar a própria voz de uma maneira autônomo, sem idéias preconcebidas, sem preconceitos e valorizando a pluralidade de idéias.