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Palestra do Ministro Mauro Vieira no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) – Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2016

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Publicado em 16/02/2016 11h02 Atualizado em 20/02/2026 11h37
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Fotos: Paulo Jabur/CEBRI

É com grande alegria que venho proferir esta palestra no Centro Brasileiro de Relações Internacionais, um dos mais importantes centros de reflexão de nosso País, cujos trabalhos muito têm contribuído para a produção e disseminação de conteúdo relevante sobre a inserção do Brasil no mundo.

Quero saudar, na pessoa do Presidente Rafael Benke, a nova Direção do Conselho Curador , e desejar-lhe muito sucesso nas atividades que serão desenvolvidas em sua gestão.

O fato de o Centro contar com um Conselho Consultivo constituído majoritariamente por eminentes representantes do setor privado é uma importante demonstração de que o diálogo entre academia, Governo e empresariado é cada vez mais relevante para a compreensão da complexa realidade internacional em que vivemos.

Tenho a plena convicção de que o CEBRI continuará realizando uma reflexão estratégica sobre o futuro de nosso País, à semelhança do que já tem feito ao longo de quase duas décadas.

É fundamental que fortaleçamos, no Governo e na sociedade civil, essa capacidade de olharmos além das contingências imediatas, projetando o que será o Brasil do futuro e identificando as prioridades e estratégias centrais de nosso processo de desenvolvimento econômico e social.

Quero também valer-me desta oportunidade para manifestar meu grande pesar, e o do Itamaraty como um todo, pelo falecimento do ex-Chanceler Luiz Felipe Lampreia, Conselheiro Fundador e Vice-Presidente Emérito do CEBRI.

O Embaixador Lampreia dedicou quatro décadas de sua vida ao serviço exterior, representando o Brasil de maneira exemplar. O fato de haver ocupado os cargos de Secretário-Geral e de Ministro de Estado das Relações Exteriores, além de outras importantes chefias no Brasil e no exterior, é o testemunho mais eloquente de suas imensas qualidades pessoais e profissionais.

A ausência do Embaixador Lampreia será sentida profundamente por todos nós e se soma à perda recente de outros importantes e queridos nomes de nossa Casa, como os Embaixadores Bernardo Pericás, Clodoaldo Hugueney e Sebastião do Rego Barros, este último também Conselheiro-Fundador deste Centro.

Senhoras e senhores,

Pretendo discorrer hoje sobre algumas das prioridades da política externa da Presidenta Dilma Rousseff e sobre os principais desafios que temos pela frente na vertente econômico-comercial de nossa diplomacia.

A ordem internacional passa por um momento conturbado. As ameaças à paz e à segurança se agudizam, tanto por meio do risco crescente de confrontação entre Estados – o que se convencionou denominar “volta da geopolítica” –, quanto da multiplicação de ameaças difusas como o terrorismo. Estamos também diante de graves crises humanitárias, como a dos refugiados, e constatamos a crescente dificuldade das instituições internacionais em oferecer respostas céleres e eficazes aos desafios que enfrentamos.

A posição do Brasil é, ao mesmo tempo, coerente e prática ao oferecer uma interpretação e uma resposta em meio a esse cenário volátil. Temos sido fiéis e consistentes na defesa de princípios históricos de nossa política externa, como a solução pacífica de conflitos e a valorização do multilateralismo como principal meio para o encaminhamento das questões globais. Na visão brasileira, a instabilidade que testemunhamos hoje deve-se não apenas ao "déficit de diplomacia" na relação entre as grandes potências e no manejo das principais crises internacionais, mas também à erosão de princípios fundamentais da ordem multilateral, evidenciada por uma grave banalização do uso da força pelos mais diversos países e atores, sem respaldo na Carta da ONU.

No caso brasileiro, não se trata de uma posição meramente discursiva ou retórica, mas também prática, porque damos contribuição concreta à estabilidade mundial por meio do engajamento em operações de manutenção da paz das Nações Unidas e da promoção da integração regional, que permite que a América do Sul seja hoje uma zona de cooperação, sem conflitos armados entre Estados. Praticamos em nossa própria vizinhança e mais além justamente aquilo que pregamos, e os resultados positivos aí estão, pois junto com os vizinhos logramos construir uma América do Sul livre de guerras e armas de destruição em massa.

Também seguimos engajados na promoção de uma reforma efetiva das instituições de governança global. Em setembro passado a Presidenta Dilma Rousseff participou da Cúpula do G-4, em Nova York, ocasião em que Brasil, Alemanha, Índia e Japão reafirmaram o seu compromisso em trabalhar por uma ordem internacional mais justa, democrática e representativa da realidade contemporânea.

Faço essas considerações gerais com um propósito específico. São essas credenciais de país que preconiza o respeito à legalidade internacional e valoriza a diplomacia e o exercício multilateral que possibilitam que a política externa brasileira tenha como seu foco principal, hoje, a promoção do desenvolvimento.

O acervo de conquistas da política externa brasileira ao longo de mais de um século nos permite não ter de pensar, em nosso dia-a-dia, em guerras ou diferendos territoriais dentro ou fora de nossa região. Uma vez conquistada a paz e preservada a integridade de nosso território, a preocupação central do Governo brasileiro foi e continua a ser a mesma a guiar suas ações no campo interno e externo: crescer com inclusão social.

É essa a diretriz que norteia hoje todos os nossos esforços.

A política externa brasileira não é guiada por princípios abstratos ou de matiz meramente ideológica. Aliás, desde o Barão do Rio Branco, e exceção feita a breves períodos de agravamento da Guerra Fria e de polarização política interna, o Brasil nunca desenvolveu uma política externa centrada em ideologias ou em princípios descolados de nossa realidade.

A nota distintiva de nossa atuação externa tem sido, historicamente, o pragmatismo. Somos guiados precipuamente por um sentido de interesse nacional e por uma capacidade de ler a realidade internacional à luz das prioridades do Brasil.

Queremos reformar a governança global para que tenhamos uma ordem mais favorável aos países em desenvolvimento como o nosso. Queremos ter mais voz nos organismos multilaterais para que possamos defender nossos interesses de forma mais eficaz. Queremos paz para que possamos ter um mundo mais estável e para que possamos concentrar energias em temas prementes como a erradicação da pobreza, a mudança do clima e a promoção do desenvolvimento econômico.

Caros Conselheiros do CEBRI,

Guiados por esse espírito pragmático é que temos diversificado nossas parcerias, sempre em busca de resultados concretos.

O Brasil nunca abdicou de aprofundar suas relações com qualquer país à luz de supostas preferências ou alinhamentos de natureza política. Não é à toa que somos hoje um dos poucos países do mundo com relações diplomáticas com todos os membros das Nações Unidas. Dispomos hoje de uma rede de 226 de Postos no exterior, entre Embaixadas, Repartições Consulares, Delegações junto a Organizações Internacionais e Escritórios, dando alcance verdadeiramente global à nossa atuação externa.

O que ocorre hoje é um movimento de busca de oportunidades no mundo que já se processa há décadas, pelo menos desde o momento em que o Brasil diversificou sua base econômica, há sessenta anos.

Uma nação com as dimensões e o peso do Brasil não pode dar-se ao luxo de restringir sua rede de relacionamentos. Muito pelo contrário; temos a obrigação de buscar parcerias e oportunidades em todo o planeta, a exemplo do que já fazem os principais atores globais.

Essa é a prioridade do Governo da Presidenta Dilma Rousseff, que vê a política externa como um instrumento indispensável para o desenvolvimento socioeconômico do País.

É por isso que a política externa não pode mais constituir uma mera política na acepção mais estrita do termo. Ela não diz respeito mais apenas ao diálogo diplomático, aos temas militares ou a aspectos protocolares. Ela é o vetor por excelência da promoção dos interesses econômicos, num cenário marcado pela crescente competição, cada vez mais acirrada, cada vez mais feroz, de países e atores econômicos.

Neste pouco mais um ano de gestão à frente do Itamaraty tenho buscado levar adiante essa missão de ajudar o Brasil a inserir-se de maneira competitiva no mundo.

Em 2015 trabalhamos para aprofundar o relacionamento do Brasil com os grandes centros dinâmicos da economia mundial. A Presidenta Dilma Rousseff realizou visita aos Estados Unidos em junho. Vieram a Brasília, também em visita bilateral, o Primeiro-Ministro da China, Li Keqiang, e a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Em todos esses casos foram assinados acordos visando a ampliar e a facilitar os fluxos de comércio e de investimentos bilaterais.

Junto com a Argentina, estamos falando aqui dos maiores parceiros comerciais do Brasil no planeta. É raro que, num mesmo ano, líderes de três das quatro maiores economias do mundo ou visitem o Brasil ou sejam visitados pela mandatária brasileira.

Somem-se a essa lista também as visitas presidenciais à Itália, à Suécia e à Finlândia, também importantes polos econômicos e origem de investimentos relevantes e estratégicos no Brasil, em setores de alto conteúdo tecnológico e de elevado valor agregado.

Nesses contatos, o Governo brasileiro tem-se empenhado não apenas em aumentar o comércio, mas também em modificar o seu perfil qualitativo, com uma maior participação de bens com maior valor agregado em nossas exportações.

Queremos um comércio de maior qualidade. Esse é um elemento-chave para o futuro da economia brasileira.

Em todas as oportunidades, a Presidenta Dilma Rousseff e as demais autoridades brasileiras têm dado ênfase às questões de competitividade, de avanços em ciência e tecnologia e de formação de cadeias de valor.

Estamos buscando sempre abrir novas oportunidades de comércio. Aqui a relação com os Estados Unidos adquire maior relevo, pois cerca de 70% de nossas vendas para esse país são de bens manufaturados. Isso, por si só, atesta o caráter estratégico de nossa relação bilateral. Nossa relação no campo econômico-comercial tem evoluído progressivamente nos últimos anos.

Em 2011 assinamos o Acordo de Cooperação Econômica e Comercial, ATEC, na sigla em inglês. Por ocasião da visita da Presidenta Dilma Rousseff no ano passado, foram assinados acordos em diversos campos, como energia, educação, meio ambiente e infraestrutura. Um dos mais relevantes diz respeito à facilitação do comércio, com foco na simplificação de procedimentos aduaneiros e na padronização de normas técnicas. Tivemos também, recentemente, a ratificação do Acordo de Cooperação em Defesa, que deverá dar maior fluidez ao processo de autorização para a exportação de tecnologias avançadas para o Brasil, a serem utilizadas na indústria aeronáutica e outros projetos de defesa nacional.

O diálogo entre os setores empresariais de Brasil e Estados Unidos também tem se mostrado promissor. O Fórum de Altos Executivos dos dois países, conhecido como “CEO Forum”, tem permitido identificar novas formas de integração entre as duas maiores economias do hemisfério e contribuído para o aumento dos investimentos recíprocos.

Como se sabe, a China é desde 2010 o nosso principal parceiro comercial, tendo respondido sozinha, ano passado, por cerca de 18% de nosso comércio exterior . É fonte também de importantes investimentos em infraestrutura e energia. Durante a visita do Primeiro-Ministro Li Keqiang, em maio de 2015, foram assinados acordos que preveem investimentos chineses nos setores de energia e petróleo, além da compra de aeronaves da EMBRAER.

Devemos ter em conta, também, o importante papel dos investimentos chineses no campo da infraestrutura. Além da cooperação bilateral nesse setor, decidimos participar, como membro fundador, do estabelecimento do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, que deverá, no futuro próximo, constituir importante fonte de recursos para a modernização da infraestrutura de países em desenvolvimento.

Buscamos também aprofundar o relacionamento do Brasil com outros grandes países da região. Foi com esse propósito que a Presidenta Dilma Rousseff visitou o México e a Colômbia, a segunda e a quarta economias da América Latina, respectivamente.

Nesses dois casos acordamos não apenas lançar as bases para a ampliação de desgravação tarifária, mas celebramos os Acordos de Cooperação e Facilitação de Investimentos, no marco do chamado “modelo brasileiro”.

Esse modelo de Acordo incentiva o investimento recíproco por meio de mecanismo de diálogo intergovernamental, propiciando um quadro jurídico sólido para as empresas brasileiras e dos países envolvidos. Dessa maneira, o Governo brasileiro trabalha para promover normas condizentes com a maior presença internacional de nossas empresas.

Estamos também dando ênfase ao relacionamento externo do MERCOSUL, especialmente no que diz respeito à negociação de acordo com a União Europeia. Em 2015 o MERCOSUL teve êxito em definir sua lista de ofertas. Estamos, agora, aguardando a posição europeia.

Esse é um processo que depende, obviamente, dos dois lados, e já deixamos claro aos parceiros da União Europeia nosso interesse em começar a negociar de fato o quanto antes, para que possamos no futuro próximo lograr um acordo abrangente e equilibrado.

Isso não nos impede de explorar novas frentes. O MERCOSUL deu sinais claros, na Cúpula de Assunção, em dezembro, da disposição de conferir um novo impulso às negociações com terceiros países e grupos de países.

O MERCOSUL deve aprofundar o seu relacionamento comercial com a Índia, indo além do acordo de preferências fixas já existente. Queremos avançar também em negociações com o Canadá, Cuba, a Associação Europeia de Livre Comércio, o Líbano e a Tunísia.

O MERCOSUL é e continuará sendo um dos alicerces fundamentais da política externa brasileira. Como é sabido, o comércio intrabloco é constituído majoritariamente de produtos de maior valor agregado. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior relativos a 2015, aproximadamente 87% das exportações brasileiras para os parceiros bloco são compostas por produtos industrializados.

É importante ter em mente, contudo, que não estamos de forma alguma acomodados com o estado atual do processo de integração.

Temos a firme determinação de avançar na execução do Plano de Ação para o Fortalecimento do MERCOSUL Econômico e Comercial, aprovado em dezembro passado e que prevê a identificação de medidas prejudiciais às trocas intrabloco. Queremos também concluir o processo de adesão da Bolívia e avançar na negociação de um Protocolo de Investimentos inspirado no já mencionado modelo brasileiro de Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos.

Esperamos que em 2019 a América do Sul constitua, graças aos acordos do MERCOSUL com seus sócios, uma zona de livre comércio. Com o Chile já alcançamos a desgravação completa. Nosso projeto imediato é ampliar o alcance e acelerar os cronogramas de desgravação tarifária dos acordos que já temos com Colômbia, México e Peru, contemplando inclusive setores de grande peso, como o automotivo.

E, dentro do MERCOSUL, a aliança do Brasil com a Argentina continuará sendo fundamental.

Estive recentemente em Buenos Aires e, ao lado da Chanceler Susana Malcorra, decidimos relançar diversos mecanismos de cooperação bilateral. Um deles é a Comissão de Monitoramento do Comércio Bilateral. Ficou claro que há a decisão dos dois lados de ampliar o comércio e de superar eventuais entraves ao trânsito de mercadorias.

Ainda no âmbito regional desejamos avançar no processo de diálogo entre o MERCOSUL e a Aliança do Pacífico.

Ao contrário do que normalmente se alega em meios de comunicação, os dois blocos não são antagônicos. O MERCOSUL tem acordos comerciais com todos os membros da Aliança.

Nosso objetivo é realizar em breve novo encontro entre os dois agrupamentos para discutir medidas de interesse comum, em temas concretos como simplificação de procedimentos aduaneiros e certificação de origem digital, para citar apenas dois exemplos capazes de oferecer resultados comerciais imediatos.

Para concluir esse breve balanço de 2015, quero ressaltar que estamos dando continuidade ao esforço de descortinar novos mercados em regiões como a África, o Oriente Médio e a Ásia.

Ano passado visitei nove países africanos, em três viagens distintas. Estive em Gana, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Cabo Verde, República Democrática do Congo, Senegal, Camarões e Argélia. Com três desses países – Angola, Moçambique e Malawi – também celebramos o Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos. Esse instrumento será de particular importância para as diversas empresas brasileiras que ali atuam.

Como se sabe, o comércio do Brasil com o continente africano tem crescido exponencialmente. Apenas no decênio que vai de 2003 a 2013, ele quadruplicou, saltando de US$ 6,1 bilhões para US$ 28,5 bilhões , com grande participação de produtos industrializados. Devo assinalar que a cooperação Sul-Sul promovida pelo Brasil é um fator que tem contribuído para consolidar uma imagem positiva do Brasil e criar um ambiente mais receptivo aos negócios no continente africano.

Também a Ásia constitui uma prioridade. Além de parceiros estratégicos como o Japão, estamos buscando aproximação com a Comunidade Econômica da Associação das Nações do Sudeste Asiático, a ASEAN, um dos principais e mais dinâmicos polos da economia mundial.

Nosso comércio com a ASEAN atingiu em 2015 US$ 18 bilhões, com superávit de US$ 3,3 bilhões para o Brasil. Apenas para que tenhamos uma dimensão do crescimento das trocas bilaterais, dez anos antes, em 2005, a corrente de comércio era de US$ 5,7 bilhões. Foi com o objetivo de fomentar essas relações que visitei, no ano passado, Singapura e Vietnã. Continuaremos buscando aprofundar essa aproximação com a ASEAN, de modo a que possamos estabelecer, em breve, mecanismo formal de diálogo .

Creio ser importante também singularizar dois casos. O primeiro é o da Índia. Trata-se de uma das dez maiores economias do mundo e um dos principais parceiros do Brasil nos foros multilaterais.

Mas nossas relações comerciais e de investimento ainda estão longe de atingir seu potencial, com um pico histórico de US$ 11,4 bilhões em 2014 . Em meus contatos com as autoridades indianas, em visita que realizei a Nova Délhi em outubro último, decidimos buscar fortalecer os canais de interlocução bilateral para voltar a ampliar esse fluxo e estimular investimentos recíprocos.

O segundo é o caso do Irã. Em janeiro deste ano foram levantadas as sanções decorrentes de seu programa nuclear. Isso inaugura uma nova fase nas relações econômico-comerciais desse país. Recente estudo do FMI indica crescimento médio para o país de 4% nos próximos anos, a despeito da queda nos preços do petróleo. Diversas oportunidades estão abertas para investimentos estrangeiros no setor de energia, aviação e infraestrutura, por exemplo.

O Brasil está atento a essas transformações. Em setembro, estive em Teerã e, em outubro, o Ministro Armando Monteiro também visitou o país, acompanhado de delegação empresarial. É fundamental que todos estejamos atentos a esses desdobramentos de modo a explorar as grandes oportunidades que se abrirão para empresas brasileiras.

A relação de países que citei não é exaustiva. Não os mencionei apenas para realçar a riqueza e variedade de nossa agenda externa, mas também para sublinhar que o Brasil é um ator global, com um comércio diversificado e com uma densa relação com parceiros de todos os continentes.

Nesse esforço de manter e ampliar o acesso dos produtos brasileiros aos mercados internacionais, o Itamaraty tem buscado explorar ao máximo as sinergias com as demais instituições públicas e a sociedade. Particularmente nas atividades de promoção comercial, quero assinalar minha determinação de que a capilaridade da rede de Setores Comerciais de que o Itamaraty dispõe em diversos Postos no exterior possa constituir um ativo cada vez mais útil a serviço dos interesses nacionais.

Senhores Conselheiros,

A Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio realizada em Nairóbi, em dezembro passado, permitiu um valioso avanço na revitalização do sistema multilateral do comércio. Dentre outras decisões, os países acordaram proibir subsídios à exportação de produtos agrícolas e disciplinar medidas equivalentes.

Trata-se de um passo significativo no longo e tardio processo de liberalização do comércio de produtos agrícolas. Representou, em especial, uma conquista para os países em desenvolvimento, que ao longo de décadas têm propugnado por um maior equilíbrio no tratamento dispensado à agricultura, de um lado, e ao comércio de bens industriais, de outro.

O Governo brasileiro considera indispensável um marco multilateral capaz de proporcionar regras universais, válidas e equilibradas para todos os países. A OMC desempenha também o importante papel de regular e dar consistência sistêmica aos acordos bilaterais e plurilaterais que passaram a compor o cenário normativo do comércio internacional. Do contrário, corremos o risco de ter uma multiplicidade de regras cada vez mais complexas e discriminatórias.

É deste ângulo que devemos analisar as iniciativas plurilaterais em curso, como a Parceria Transpacífica e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, esta última ainda em negociação.

A Parceria Transpacífica consolida circuitos comerciais e de integração produtiva que já estavam estabelecidos antes. Algumas de suas regras promovem interesses específicos de alguns de seus participantes, como os Estados Unidos, em temas como propriedade intelectual ou investimentos. A redução tarifária promovida pelo acordo também não será, à primeira vista, significativa, porquanto as tarifas aplicadas por seus membros, ao menos no campo industrial, não são elevadas. Tampouco está claro se haverá avanços significativos no campo agrícola, já que medidas não-tarifárias ainda poderão ser aplicadas.

Isso não significa deixar de reconhecer que se está, efetivamente, diante de uma iniciativa importante na configuração do sistema de normas que regula a economia internacional. Mas é preciso analisar com serenidade o sentido geral desta iniciativa e, com ainda mais tranquilidade, os elementos específicos do acordo e suas consequências para membros e não membros.

Para um país com grande desconcentração de parceiros e da pauta de comércio como o Brasil, é preciso conciliar uma atuação dedicada no âmbito do sistema multilateral com a busca de acordos do MERCOSUL com outros parceiros, sempre observando os requisitos de equilíbrio e de atendimento dos interesses centrais de nosso País.

Em muitas situações – como no caso dos subsídios à exportação de produtos agrícolas – é somente na esfera multilateral que teremos ganhos significativos. Já no âmbito plurilateral e bilateral trabalhamos num âmbito mais delimitado, buscando abrir mercados específicos, atrair investimentos e garantir espaço para a internacionalização das empresas brasileiras.

Essas duas dimensões, vale lembrar, são complementares e não substituíveis, mas igualmente importantes em nossa estratégia de inserção no mundo.

Senhoras e senhores,

Vivemos em 2015 um ano difícil do ponto de vista econômico, decorrente da combinação de um conjunto de fatores internos e externos.

Diria que em 2016 temos pela frente o desafio não apenas de retomar o caminho que nos levará ao crescimento, mas também o de seguir operando de maneira criativa e laboriosa para assegurar uma inserção competitiva do Brasil no mundo.

Essa palavra – competitividade – enfeixa um conjunto de prioridades fundamentais do Governo para o futuro próximo.

Ao lado da ampliação de comércio e de investimentos, a cooperação em três domínios – educação; ciência, tecnologia e inovação; e infraestrutura – será vital para que asseguremos um crescimento sustentável.

Dados recentes de relatório da UNCTAD  indicam a existência de um crescente “fosso tecnológico” entre os países, havendo maior concentração da inovação em países desenvolvidos e num grupo de nações asiáticas. Por exemplo: apenas os países em desenvolvimento da Ásia responderiam por 48% da exportação de bens com alta tecnologia.

A interpretação desse fenômeno é inequívoca: os países que ficarem para trás nesse processo enfrentarão crescentes dificuldades em promover o seu crescimento econômico.

É a sinergia entre as políticas industrial, educacional e de ciência, tecnologia e inovação que garantirá níveis de produtividade adequados para as economias nacionais. Permitirá também um acúmulo de conhecimentos que poderão ser sempre colocados a serviço do crescimento do país.

O Brasil pode e deve se engajar nesse processo, resgatando uma dívida histórica com a educação e a capacitação das novas gerações e criando assim um ambiente favorável à criação e ao desenvolvimento de novas técnicas de produção.

É nesse processo que se enquadram iniciativas como o programa Ciência sem Fronteiras, a adoção do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação e os diversos programas de concessões no campo da infraestrutura e de energia.

Essa combinação de mais conhecimento com mais e melhor logística ajudará nosso país a dar novos saltos de produtividade, fortalecendo sua base industrial e diversificando suas exportações.

A agenda externa está associada a esse processo, porque é responsável por abrir novos campos de cooperação e de aprendizado com outras nações. Um exemplo dessa contribuição tangível é o BRICS, cuja crescente institucionalização ajudará a suplementar as necessidades de financiamento de países em desenvolvimento, especialmente em infraestrutura, que constituirá uma das áreas prioritárias de atuação do seu Novo Banco de Desenvolvimento. O Arranjo Contingente de Reservas, por sua vez, oferecerá garantias adicionais aos países-membros na hipótese de dificuldades com o balanço de pagamentos, aprofundando a cooperação econômica entre cinco das principais economias emergentes do planeta.

Senhoras e senhores,

Quero, por fim, deixar registrado que, para o Itamaraty, a interlocução com o setor privado é fundamental. Não por acaso, mantenho diálogo frequente com o Ministro Armando Monteiro, com vistas a conciliar as dimensões político-diplomática e econômico-comercial de nossa agenda externa.

Estar no CEBRI na companhia também de representantes do segmento empresarial e do mundo acadêmico é, portanto, uma grande satisfação para mim. A política externa é complexa e dinâmica e temos a grande responsabilidade de buscar identificar suas tendências principais para daí projetar nosso País no futuro.

A formulação de nossa política externa deixou, por isso, de ser um processo que ocorre dentro dos gabinetes do governo. Ela passa necessariamente por uma constante e frutífera interação com os mais diversos atores.

O diálogo com os senhores certamente contribuirá para essa difícil, mas honrosa, tarefa de ajudar o País a projetar seus valores e interesses no mundo.

Permitam-me concluir invocando as palavras de nosso saudoso Chanceler Luiz Felipe Lampreia nas Nações Unidas, em 1995. Ele afirmou que “os principais fatores do orgulho nacional são a democracia, o desenvolvimento, o comércio e a riqueza econômica, ao invés da busca por hegemonia ou ganhos territoriais”. Essa afirmação sintetiza com perfeição os ideais que inspiram a política externa do Brasil e nos motivam a seguir trabalhando em prol de nosso País.

Muito obrigado.

Palestra do Ministro Mauro Vieira no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI)Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2016

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