Notícias
Discurso na Cerimônia de Formatura da Turma João Cabral de Melo Neto do Instituto Rio Branco - 18/5/2000
Os colegas que hoje se formam tomaram a feliz decisão de eleger João Cabral de Melo Neto como patrono da turma. Eu os felicito pela escolha e faço questão de me unir a Vocês nesta homenagem, como Ministro, mas sobretudo como colega, amigo, leitor e admirador de João Cabral. Ao fazê-lo, fui buscar na sua obra alguns versos que tratam, de forma mais ou menos direta, de certos traços constantes na vida do diplomata: partir, observar, falar e escrever. Ou, em outras palavras, sentir - muitas vezes sentir saudades - compreender (um verbo que ele tanto repetia), relatar e explicar. Encontrei tudo isso no poema DE UM AVIÃO. Descrevendo a decolagem de Pernambuco para o que ele chamou de Todos-os-Foras - os diplomatas estão sempre decolando de suas terras para Todos-os-Foras - João Cabral observou lá do alto (e eu cito): “A paisagem, ainda a mesma parece agora noutra língua: numa língua mais culta, sem vozes de cozinha. Para a língua mais diplomática a paisagem foi traduzida: onde as casas são brancas e o branco, fresca tinta; onde as estradas são geométricas e a terra não precisa limpa (...)”. Com certeza, o nosso grande colega falava da linguagem diplomática como estereótipo. Digo com certeza, porque João Cabral foi sempre a prova de que ser diplomata de modo algum significa viver apartado da realidade, deixar de sentir e compartilhar o cotidiano duro de grande parte de nossa gente, ou, na sua imagem, “enxergar o homem, não mais sua cicatriz”. Ele sabia ser duro não apenas o cotidiano do brasileiro, e em particular do nordestino. Sabia, com a sua sensibilidade, e com as muitas décadas de experiência profissional, que duro também é, muitas vezes, o dia-a-dia das relações internacionais. Relações internacionais que são hoje, cada vez mais, a arena em que os países definem aspectos fundamentais de seu presente, e de seu futuro.
Nessa arena, complexa e desafiadora para nós diplomatas, o Embaixador João Cabral de Melo Neto haveria de concordar que a linguagem diplomática - e mais uma vez eu recorro à sua poesia - precisa combinar a suavidade da “palavra seda” com a dureza da “palavra de pedra” que ele ouvia do sertanejo. O nosso trabalho requer, e a Nação espera, que a linguagem dos diplomatas seja clara e que, quando preciso, as suas palavras sejam fortes. Os brasileiros - até para que possam interessar-se e participar mais e mais das decisões de política externa - precisam compreender claramente o que fazemos, o nosso papel, a nossa contribuição ao esforço pelo desenvolvimento do País. No mesmo sentido, devemos fazer entender com clareza aos nossos interlocutores de outros países, aos nossos parceiros, o que o Brasil é, o que o Brasil pensa, o que o Brasil quer e o que o Brasil não quer. Senhor Presidente, Hoje, ao celebrarmos o Dia do Diplomata, pensemos no Brasil - como muito se tem feito em relação aos dos 500 anos do Descobrimento - mas com os olhos voltados principalmente para as especificidades que a história nos legou. A primeira destas particularidades está em que, numa América do Sul incorporada ao império dos espanhóis, fomos colônia de Portugal. Num espaço em que nossos vizinhos se dividiram em vários países, mantivemos a unidade territorial. Rodeados por grandes líderes republicanos que alcançaram pela luta armada a independência de seus povos, viemos ao mundo como nação independente sob a condução do herdeiro do trono português.
Desses traços que tanto nos diferenciam, resultaram muitas de nossas características atuais. O conjunto de todas essas heranças, que são dinâmicas, define o que somos e condiciona o que podemos ser e queremos ser. Assim, foi também uma decisão inspirada desta turma escolher como paraninfo o Conselheiro Renato Sérgio de Assumpção Faria, seu professor de História Diplomática no Rio Branco. Um dos bons historiadores do Itamaraty, Renato sabe, como nós sabemos, que não é possível fazer diplomacia sem conhecer as histórias do Brasil, dos outros países, e das relações internacionais. Ele terá ensinado a Vocês, por exemplo, que durante muito tempo, no relacionamento com nossos vizinhos, de parte a parte, as ênfases estiveram quase sempre voltadas para as diferenças e as distâncias entre nós e eles. Sentimentos de desconfiança, e até de rivalidade, dificultavam uma maior aproximação. Muitas das maiores realizações da diplomacia do Brasil, sobretudo ao longo do século XX, resultaram da capacidade de compreender essas dificuldades, respeitar as percepções que motivavam muitas delas. Por sabermos conviver com a nossa própria diversidade, com a nossa realidade complexa e plural, somos capazes de compreender o outro, o estrangeiro. Por isso mesmo, costumo dizer que o Brasil é uma nação que se sente bem dentro de sua própria pele, e perante o resto do mundo.
Apesar de ainda estarmos longe de alcançar o nível de bem-estar e justiça social a que todos almejamos, e de reconhecermos os nossos problemas e limitações, temos muito orgulho do nosso país e de nossa boa convivência internacional, em especial com os nossos vizinhos. Como nação, sentimo-nos basicamente seguros de nós mesmos, e sempre quisemos contribuir para o surgimento de uma ordem regional e mundial em que todos possam sentir-se seguros e confiantes. Jamais cedemos à tentação do protagonismo auto-centrado, mas tampouco caímos na armadilha de uma discrição que se confunda com timidez. Os nossos parceiros sabem que, por vezes, somos discretos; é o nosso estilo. Mas sabem, também, que não somos tímidos. Temos consciência de nossas possibilidades, e também de nossos limites. Com essa postura, com esse comportamento, a nossa diplomacia, em especial a partir da obra do Barão do Rio Branco, contribuiu de forma decisiva para que os brasileiros, há 130 anos, não tenham sofrido as conseqüências devastadoras do envolvimento em disputas e conflitos internacionais próximos ou dentro de nossas fronteiras. Basta olharmos em volta de nós, para todos os continentes, para perceber que não se trata de uma realização fácil ou menor. Por seu apego à solução pacífica, à negociação, às regras do direito internacional, à transparência e à cooperação construtiva, a diplomacia brasileira desempenhou papel igualmente decisivo na transformação do convívio das nações em nossa região. A persistência nesse caminho e, mais recentemente, a volta da democracia no Brasil e em quase toda a América Latina, ajudaram a criar um ambiente em que as especificidades de cada um deixaram de ser fatores de afastamento e desconfiança e tornam-se, cada vez mais, elementos de convergência política, integração econômica, e de atração recíproca nos campos social e cultural. Senhor Presidente, No universo das relações internacionais, é necessário combinar a força indispensável da vontade política com a dimensão mais complexa das possibilidades e das limitações.
É preciso conciliar interesses, mobilizar recursos, que são sempre escassos, balancear ganhos e concessões, eliminar ou minimizar resistências, acertar as grandes linhas e também os detalhes. A diplomacia tem o seu próprio ritmo, porque cada país tem o seu próprio tempo - que precisamos respeitar. Quase sempre, por isso, uma das negociações mais difíceis nos acordos diplomáticos é justamente a sincronização desses tempos. É evidente que, como em todos os campos da atividade humana, os progressos nas relações internacionais resultam da determinação, da criatividade e do atrevimento de pensar e buscar o que parece impossível. Assim, Vocês que hoje se formam devem preservar cuidadosamente a chama da ousadia, do desejo de agir, de acelerar e mudar a história. Mas cultivem também uma certa dose de respeito pelas lições da experiência passada. É possível e necessário fazer história, alterar o seu curso. O bom estadista, o bom diplomata, no entanto, deve ter presente o risco de se tentar atropelar a história com iniciativas pouco realistas, de se buscarem acordos para os quais não exista ainda base suficiente.
Senhor Presidente,
O Itamaraty tem o orgulho de olhar para trás e ver a longa trajetória, especialmente neste século que ora se encerra, de uma diplomacia de muitos acertos e poucos erros, objeto de reconhecimento internacional. De uma diplomacia que há quase duzentos anos trabalha dedicadamente na defesa dos interesses do nosso país, de seus cidadãos, e do desenvolvimento nacional, em todos os cantos do mundo. Um trabalho que envolve, como eu disse no início, parafraseando João Cabral, palavras e ações de seda e de pedra. O maior orgulho do Itamaraty sempre foi o de servir ao Brasil. É para isto, somente para isto que estamos aqui. Hoje, temos a felicidade, sob a liderança de Vossa Excelência, de servir a essa sociedade que, no exercício de uma democracia cada vez mais forte, vai tomando em suas próprias mãos a tarefa de definir os nossos caminhos. E de avançar na construção de um Brasil que já não tenha os defeitos que todos conhecemos e sentimos, mas seja capaz de preservar e acentuar as qualidades e singularidades que todos celebramos e de que todos nos orgulhamos.