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Pronunciamento na abertura do Seminário “O Brasil e a Ásia No Século XXI: ao Encontro de Novos Horizontes” - Brasília, 7/6/2001
Senhoras e senhores, É com grande satisfação e, ao mesmo tempo, com um sentimento de expectativa intelectual que presido à abertura deste seminário. Julgo extremamente bem vinda esta oportunidade para uma reflexão conjunta entre participantes brasileiros e asiáticos acerca das perspectivas do relacionamento entre o Brasil a Ásia no novo século que se abre. Como dois espaços geoeconômicos e culturais de grande dinamismo no mundo atual, temos muitas experiências a trocar e muita sinergia a compartilhar. Tenho a certeza de que este seminário constituirá fértil incubadora para identificação dos desafios e oportunidades que se colocam para nossas sociedades na era da globalização, assim como para a proposição de criativas estratégias de cooperação entre nós. No final do século XIX, o Governo brasileiro passa a entrar em relações formais com estados asiáticos. Assim, em 1880, o Brasil firma acordo de intercâmbio comercial com o império chinês e, em 1985, assina o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação com o Japão. Treze anos depois, em 1908, tem início a corrente imigratória regular de colonos japoneses para as lavouras cafeeiras de São Paulo. Conquanto não seja o caso de me deter sobre esse ponto neste momento, a contribuição desses imigrantes e seus descendentes à sociedade brasileira constitui um marcante capítulo da formação histórica do nosso País. Seguiram-se, posteriormente, não menos importantes contribuições da imigração chinesa e coreana, ajudando a compor o que se tornou conhecido como o “cadinho de raças” brasileiro, integrado pelas mais diversas etnias e nacionalidades de origem. Do ponto de vista da política externa brasileira, a Ásia se apresenta como uma das frentes mais promissoras de atuação diplomática e que cabe explorar ativamente.
Ao longo do tempo, o Brasil foi tecendo uma sólida rede de relacionamento com países asiáticos, tanto na vertente econômica quanto na humana. Temos laços sólidos e cooperativos com países como Japão, China, Coréia do Sul e Índia. Estamos intensificando crescentemente o diálogo com os países do Sudeste Asiático e do Subcontinente Indiano. Dentro do País, abrigamos significativa parcela populacional de origem japonesa, chinesa e coreana, assim como temos importante comunidade brasileira vivendo no Japão. Tudo isso demonstra que a Ásia não é estranha aos brasileiros. Entretanto, acreditamos que muito mais pode ser feito para adensar ainda mais esses vínculos. Em tempos recentes, o ativo interesse na retomada de contatos de lado a lado. Em tempos recentes, visitaram o Brasil, entra outros altos dignitários, os Primeiros Ministros da Tailândia e de Singapura, o líder timorense Xanana Gusmão, os Ministros do Exterior da China e da Malásia e os Presidentes da Indonésia e da China.
O Presidente Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, realizou visitas a China, Índia, Malásia e Japão durante seu primeiro mandato. Agora, no início do novo século realizou pioneira visita a Seul, Dili e Jacarta. Esses intercâmbios de alto nível, além de outras visitas ministeriais e empresariais expressivas, auguram favoravelmente para uma nova fase ascendente nas relações entre o Brasil e a Ásia. Este Seminário oferece oportunidade única para um fecundo intercâmbio de propostas e avaliações. A comparação de análises a partir de perspectivas e experiências diversas pode proporcionar conclusões criativas e parcerias inovadoras. Temos muito a aprender uns com os outros e estou certo de que ao final do exercício sairemos enriquecido com uma melhor compreensão mútua de nossas realidades. Um dos temas a se perquirir neste seminário poderia ser a questão de como o Brasil e seus parceiros asiáticos deveriam interagir entre si para obter uma inserção mutuamente vantajosa no mundo globalizado. Como avaliar os desafios e oportunidades existentes nos respectivos entornos e como divisar respostas criativas que promovam o desenvolvimento cooperativo das duas regiões? Quais as novas configurações de atores melhor atendem às exigências ainda pouco claras de um mundo em tornar solidários os liames entre os países da Ásia e América Latina em dimensões como a social, econômico-comercial, ambiental, científico-tecnológico, cultural e outras?
Para um relacionamento correto e profícuo, não basta a fácil constatação das diferenças e exotismos, mas sim um esforço consistente de captação das essências e de apreciação das especificidades de cada sociedade. Só assim se chega a uma empatia mutuamente equilibrada, que serve de alicerce para uma cooperação duradoura entre as nações. Este seminário poderia, a esse respeito, aprofundar as reflexões acerca dos elementos que contribuiriam para o fortalecimento dessa compreensão mútua entre os nossos países através da sinergia emanada da diversidade. Outro tema de importância crucial para ser debatido neste seminário é a questão da cooperação entre nós no campo da ciência e tecnologia. É ponto pacífico que o fator conhecimento constitui aspecto fulcral do processo de globalização e que a nova linha de inclusão/exclusão não passa nem pelo meridiano leste-oeste, nem pelo paralelo norte-sul, mas pela divisória digital.
A cooperação científica e tecnológica constitui uma das áreas mais promissoras de atuação solidária entre nossos países, mormente com vistas a queimar etapas e reduzir o hiato digital que ameaça crescer exponencialmente na ausência de uma resposta proativa dos países em desenvolvimento. Já existem exemplos exitosos de cooperação Sul-Sul neste campo, como o Projeto CBERS entre o Brasil e a China. Outros estão em curso com países como a Coréia do Sul e a Índia. É mister encontrar nichos estratégicos que exerçam efeitos propagadores para outras áreas de conhecimentos e atividades, de modo a beneficiar parcelas crescentes de países e populações que, de outra forma, correm o risco de serem os novos excluídos do e-sistema. Por fim, caberia voltar mais uma vez as atenções para as vertentes econômica e humana das relações entre a América Latina e a Ásia.
Em particular, torna-se oportuno uma análise retrospectiva e uma avaliação prospectiva dos fluxos humanos, de bens e de capital que percolam as duas regiões. É interessante notar que a vinda de contingentes asiáticos para a América Latina a partir de fins do século XIX passa a dar lugar a um contra fluxo latinoamericano para a Ásia nas últimas décadas do século XX. Hoje, a cultura e os costumes brasileiros estão muito presentes no Japão através da presença de nossos concidadãos naquele país. Por outro lado, tanto a Ásia quanto a América Latina, tem sofrido os efeitos negativos da volatilidade dos fluxos de capitais. Enquanto isso, o intercâmbio de bens e serviços entre as duas regiões se encontra ainda bem aquém de seu potencial, tanto quantitativo quanto qualitativo. Tenho a certeza de que ao cabo destes dois dias de discussões, sairemos com um conhecimento muito mais aprofundado das realidades e potencialidades de nossos parceiros e de nós mesmos