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Discurso na cerimônia de posse do Embaixador Osmar Chohfi no cargo de Secretário-Geral das Relações Exteriores – Basília, 29/11/2001
A cerimônia de posse de um novo Secretário-Geral, ao qual compete a chefia da Casa, é momento sempre marcante na vida de uma instituição com as tradições do Itamaraty. Para além de sua dimensão institucional, a presente cerimônia tem para mim também um profundo alcance afetivo, tanto por marcar a despedida do Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, quanto por assinalar a investidura nas funções de Secretário-Geral das Relações Exteriores do Embaixador Osmar Chohfi. O Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa é um querido amigo de muitos anos. Nas duas vezes em que tive a honra de exercer as funções de Ministro de Estado das Relações Exteriores tive o privilégio de contar com sua colaboração esclarecida à frente da Secretaria-Geral. O Embaixador Seixas Corrêa possui, como assinalava Joaquim Nabuco a propósito do Visconde do Rio Branco, o equilíbrio das virtudes. Dentre suas muitas qualidades destacaria a segurança do seu juízo diplomático, que, no seu caso, está intimamente associada ao sentido da História, a uma permanente curiosidade intelectual e à capacidade de pensar em profundidade as questões da política externa. Todos esses dotes são respaldados por uma indiscutível capacidade de comando, que pude testemunhar invariavelmente nas complexas situações que enfrentamos juntos na vida pública. Tem, ademais, o dom da palavra, e não preciso ressaltar o papel e o peso da palavra para a ação diplomática. Recordo, nesse sentido, os versos de Octavio Paz: “A forma que se ajusta ao movimento, é pele – não prisão – do pensamento.” Mercê de tais qualidades, não tenho dúvida de que o Embaixador Seixas Corrêa desempenhará com o brilho habitual suas novas funções à frente da Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio em Genebra, cargo que tive o privilégio de ocupar no período de 1995 a 1998, e cuja relevância nesse momento pósConferência de Doha não preciso destacar. Sei, por isso, mesmo que não são poucos os desafios que o aguardam. Mas não saberia pensar em nome melhor para enfrentá-los.
Substituir o Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa é tarefa complexa. Foi, por isso, motivo de grande satisfação e alegria para mim a aceitação pelo Embaixador Osmar Chohfi do convite que lhe formulei para ocupar o cargo de Secretário-Geral das Relações Exteriores. O Embaixador Chohfi é também um antigo e querido amigo. Foi meu Chefe de Gabinete desde que assumi a pasta do Ministério das Relações Exteriores em janeiro deste ano. Fomos colegas de turma no Largo de São Francisco. Do convívio acadêmico nasceu entre nós uma forte e genuína amizade, lastreada, como diria Aristóteles, na igualdade da estima recíproca. Ao compartilharmos, no início dos anos 60, num momento em que a máquina do mundo se nos começava a revelar, a experiência de enfrentar os desafios de um período particularmente rico de projetos e contradições, preparávamo-nos, sem que o soubéssemos, para lidar com os desafios futuros. Com efeito, até o final de 1964, juntos vivemos a experiência do término da grande presidência de Juscelino Kubitschek, que descortinou, com sua liderança, o potencial do país em todos os campos; a curta, brusca e, afinal, frustrante gestão de Jânio Quadros; o tumultuado período de João Goulart e os vivos debates que suscitou; o desmoronamento político do lúcido esforço reformista de San Tiago Dantas; e, finalmente, com o advento do regime de 1964, o início do longo ciclo autoritário. Dizia Ortega y Gasset que as variações da sensibilidade vital, que são decisivas na história, apresentam-se na forma de uma geração.
Minha geração, a geração do Embaixador Osmar Chohfi, despertou para a necessidade de pensar o Brasil durante o Governo Juscelino Kubitschek. Respirava-se, então, um sentimento de absoluta confiança nos destinos do país. Esse sentimento permanece vivo, continua a nortear nossa parceria e permeará nosso trabalho conjunto no Itamaraty. A versatilidade dos talentos é uma das características distintivas do Embaixador Osmar Chohfi, qualidade que lhe permite lidar com toda a circunferência da atividade diplomática. Essa versatilidade está associada a uma reconhecida capacidade de lidar com as pessoas, que vai além de mero people skills, constituindo , no seu caso, o que poderíamos chamar de dom de gentes. A trajetória diplomática do Embaixador Osmar Chohfi é conhecida de todos. Não é minha intenção, nessas breves palavras, mapear todo seu brilhante percurso na Casa de Rio Branco. Gostaria, porém, de sublinhar um ponto que me parece revelador de suas não poucas qualidades. Refiro-me à sua atuação decisiva, quando à frente de nossa Embaixada em Quito, no encaminhamento favorável do processo negociador que culminou na celebração do acordo de paz entre o Equador e o Peru. A tarefa da diplomacia é desatar nós. O instrumento de ação do diplomata não é a violência, mas a persuasão. O Embaixador Osmar Chohfi ilustra perfeitamente as palavras de Alfonso Reyes, que dizia ser o brasileiro “o diplomata nato, o melhor negociador que jamais conheceu a história humana. Não há conflito que resista a seu espírito de concórdia e à sua ardente simpatia.
Como possui a aptidão, desdenha da violência. Nasceu para desfazer, sem cortá-lo, o nó górdio.” A concepção, elaboração e condução da política externa de um país com o peso e a complexidade do Brasil não podem ser obra de pessoas isoladas, mas de toda a instituição. Estou certo, por isso, de que o leque de virtudes que distinguem o Embaixador Osmar Chohfi não apenas o qualificam para lidar com os novos desafios que hoje se colocam para a diplomacia brasileira, como o capacitam também para auscultar, com a sensibilidade que lhe é própria, os anseios da Casa, com vistas a promover as mudanças e os ajustes necessários ao seu permanente aprimoramento. O prestígio internacional e a excelência deste Ministério estão baseados na qualidade dos seus quadros. Como tive a oportunidade de afirmar já em meu discurso de posse, tenho conhecimento das necessidades materiais desta Casa e sensibilidade em relação aos problemas atuais da carreira, em especial da motivação de seus integrantes.
A essas questões, com o apoio do Embaixador Osmar Chohfi, continuarei a dar atenção e foco, com a preocupação de preservar e aumentar a capacitação do Brasil no trato da agenda diplomática. Senhoras e senhores, Machado de Assis, pela boca do Conselheiro Aires, afirma em Esaú e Jacó que “o imprevisto é uma espécie de deus avulso, ao qual é preciso dar algumas ações de graças; pode ter voto decisivo na assembléia dos acontecimentos.” Passados quarenta anos, não se pode deixar de atribuir ao imprevisto sua parcela de responsabilidade neste reencontro de dois antigos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Hoje integrada à Universidade de São Paulo, a velha Faculdade – “alma mater” do Barão do Rio Branco, patrono da Diplomacia brasileira, cujo centenário de posse no cargo de Ministro das Relações Exteriores comemoraremos no próximo ano – representou para nós, para Osmar e para mim, assim como para os que nos antecederam e sucederam, uma experiência de cidadania, propiciadora da fraternidade que deriva da participação no espaço público. As lições que juntos ali aprendemos permanecem conosco. São fruto do convívio acadêmico e do magistério de ilustres professores, que gostaria de lembrar na figura do grande jurista Vicente Rao, pois tendo sido também titular desta Pasta, ajudou a despertar em nós, no primeiro ano da Faculdade, o sentido da importância das relações internacionais e o sentimento de admiração pelo Itamaraty e suas tradições. É esse sentimento que, lastreado no ânimo de servir ao Brasil, continuará a nortear e inspirar nossa atuação.