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Palestra por ocasião da cerimônia de abertura do I Fórum Empresarial do MERCOSUL - Belo Horizonte. 15 de dezembro de 2004
Meu amigo Aécio Neves; senhor Prefeito de Belo Horizonte, companheiro Fernando Pimentel; senhor Deputado Júlio Redecker; membros da Comissão Parlamentar Conjunta do MERCOSUL; senhor Presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Dr. Robson Braga de Andrade, a quem cumprimento por tão importante iniciativa; meu colega Mário Vilalva; senhores Coordenadores dos demais países do MERCOSUL e da Secretaria, Poucas palavras também para saudar a criação deste fórum empresarial que é e será certamente um instrumento a mais, um instrumento importante na nossa integração. É, aliás, até surpreendente, de certa maneira, que não existisse ainda esse fórum empresarial. Foi preciso que nós voltássemos a Minas, dez anos depois da Reunião de Ouro Preto, na qual tive o privilégio de estar presente acompanhando o Presidente Itamar Franco, a quem também quero homenagear, porque ele também participou de maneira importante nesse processo.
Era preciso que voltássemos a Minas para que tivéssemos a ocasião de criar este fórum empresarial, que é um instrumento absolutamente indispensável para o desenvolvimento das relações entre os nossos países e para a própria integração. Não vou contar uma longa história nem vou me deter em muitos temas que serão objeto das reuniões, não só desta aqui dos empresários, mas também dos representantes dos governos e dos próprios presidentes, hoje e amanhã. Queria apenas dizer que, para mim, é uma grande alegria estar de novo em Minas, celebrando esses dez anos e, de certa maneira, uma coincidência de vida, ter participado de alguma forma do Tratado de Assunção, do Protocolo de Ouro Preto, e agora desta celebração dos dez anos. O que queria trazer aos empresários que hoje se reúnem e que, de certa maneira, dão carne e osso a esse esforço que os governos também vêm fazendo, é uma palavra de confiança, porque muitas vezes se escuta e se lê sobre as dificuldades do MERCOSUL. É verdade, elas são reais. Até porque isso faz parte das relações intensas. Costumo dizer que, possivelmente, entre pequenos países, ou até grandes países que estão distantes ou de costas uns para os outros, você não tem dificuldades, você tem apenas indiferença recíproca. No MERCOSUL não. Temos uma relação intensa. Não diria que é uma “relação carnal”, porque isso foi mal utilizado no passado, com o perdão de meus colegas, inclusive do meu saudoso colega, Guido Di Tella, por quem tenho também especial carinho e admiração, mesmo nos momentos em que discordamos. Mas são relações muito intensas. Como foi dito aqui, a Argentina é o segundo parceiro comercial do Brasil. A nossa exportação para a Argentina neste ano será recorde, e as exportações da Argentina para o Brasil recuperam o dinamismo que tiveram no passado.
O próprio comércio intraMERCOSUL subiu de maneira estupenda. Não sei por que nunca fiz essa comparação em detalhes, mas para os especialistas valeria a pena fazer, talvez para o Dr. Arcuri, aqui de Minas, e ao mesmo tempo Secretário do MERCOSUL. Não tenho notícia de um bloco de integração econômica que tenha avançado tão rapidamente quanto o MERCOSUL. Então, é natural que os problemas surjam, porque os problemas são até reflexo da velocidade do avanço. Avançamos com a velocidade de um Concorde e temos, naturalmente, - porque somos países em desenvolvimento -, as turbinas de um avião da Embraer, que são muito bons, mas que não estão preparados para viajar a duas vezes a velocidade do som, que foi o que efetivamente fizemos. Quando olhamos para o comércio entre os nossos países e não só os números globais, mas também para a qualidade desse comércio, a presença da indústria no caso das nossas exportações para o MERCOSUL é de mais de 90%, é de 92%. Acho que tudo isso tem que ser visto, levado em conta. É natural que dentro desse processo, em termos de países que passaram por crises, muitas vezes de raízes externas, outras vezes também devido a políticas internas que recebiam o apoio, o endosso das instituições financeiras internacionais, é natural que, como os países passaram por essas crises, o comércio entre eles reflita, de alguma maneira, também essas dificuldades. É muito importante termos presente que essas dificuldades se inserem em um contexto de avanço, de progresso, de uma relação cada vez mais intensa internamente e cada vez mais harmoniosa nas nossas relações com outros povos e países. Isso é muito importante.
Vejam, senhores, estaremos aqui celebrando, como celebramos em Cuzco - porque de certa maneira uma reunião é continuação da outra -, a integração da América do Sul. Isso parecia um sonho quando o próprio Presidente Itamar Franco falou, dez anos atrás, em uma reunião do Grupo do Rio, da criação de uma área de livre comércio sulamericana. Mais tarde, fui encarregado de detalhar isso em uma reunião da ALADI. Isso foi recebido com um misto de indiferença e frieza. Um ou outro país, talvez até mesmo por simpatia ao Brasil, apoiava, mas ninguém acreditava que isso fosse ocorrer. E, de fato, é o que ocorreu. O que estará sendo celebrado agora é a adesão de todos os países do Grupo Andino - os que ainda não eram -, além do Chile, como membros associados do MERCOSUL. É isso, a integração da América do Sul, baseada em uma área de livre comércio, que abranja toda a América do Sul. Isso é algo notável, é algo, permitam-me dizer, que, se tivéssemos realizado três ou quatro anos antes - sei que as circunstâncias não permitiram -, teria nos ajudado muitíssimo até nas nossas negociações com a ALCA, com a União Européia, nas próprias negociações com a OMC, porque estaríamos unidos frente ao mundo. Não tomarei mais tempo porque eu mesmo havia pedido aos nossos anfitriões e aos demais participantes da mesa que fôssemos breves, mas não podia deixar de trazer essa palavra de confiança. Essa palavra de confiança que não é só minha. Existe hoje em dia uma verdadeira fila para negociar com o MERCOSUL.
Apenas nós é que às vezes padecemos um pouco desse instinto de autoflagelação e vemos os problemas sem ver, digamos, os horizontes amplos que se abrem à nossa frente. Ficamos, às vezes, um pouco como o poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, preocupados com a pedra que há no meio do caminho. Mas como ele mesmo soube fazer, porque era um homem capaz de sonhar, temos que ver também os horizontes muito além dessa pedra, que, em determinado momento, atormentou o nosso grande poeta de Itabira. Eu diria apenas, como ele, que o que sentimos, o que sente o Presidente Lula e outros que estão, digamos, tendo que impulsionar esse projeto - e agradecemos muitíssimo a hospitalidade do Governador Aécio Neves, que marca essa presença de novo de Minas no processo do MERCOSUL -, é que temos duas mãos e o sentimento do mundo. Nós faremos o possível para corresponder.
Obrigado