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Palestra no encerramento do curso para Diplomatas sul-americanos - Brasília, 25 de agosto de 2006
Senhor Secretário-Geral das Relações Exteriores,
Caros colegas, Senhoras e Senhores, Queria, em primeiro lugar, saudá-los, dizer da alegria de tê-los todos aqui. Começo com um comentário sobre esta sala. Não sei se esse comentário foi feito antes. Esta sala tinha um nome um pouco burocrático antigamente. Vocês que estão em Brasília, os que moram em Brasília, os que estiveram em Brasília mais tempo, sabem que as coisas aqui têm nomes muito burocráticos, porque a cidade nasceu planejada, e as coisas planejadas, muitas vezes, não têm, num primeiro momento, aquela vida que é necessário dar. E o próprio Itamaraty, nosso Ministério, ficou contaminado por essa visão técnica. As salas no Rio de Janeiro todas tinham nomes de grandes figuras da diplomacia brasileira, e aqui em Brasília inicialmente não. Esta sala tinha o nome de Sala de Coordenação. Recordo-me de uma experiência que tive como jovem diplomata, aliás, companheiro do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, na época do nosso saudoso Paulo Nogueira Batista, quando ajudávamos a escrever os discursos do então Ministro Magalhães Pinto, e fazíamos outros estudos, inclusive sobre integração. Eu me lembro que nós usávamos uma sala nobre do Palácio Itamaraty – não sei se vão ao Rio de Janeiro, se terão ocasião de visitar o Palácio Itamaraty, que é um palácio histórico, inclusive para outros países da região –, ocupávamos uma sala nobre da parte principal do Ministério, que se chamava Sala Rui Barbosa. Rui Barbosa, que inspirou aquele busto que está presente, não era um diplomata de carreira, era político, uma pessoa que teve muita importância no Brasil, por exemplo, na questão da difusão do ensino público. Ele foi também um pioneiro da diplomacia multilateral no Brasil.
Da mesma forma que o Barão do Rio Branco, que foi um grande realizador do ponto de vista das relações do Brasil com os outros países, sobretudo na própria região, resolvendo de maneira pacífica, inteligente, não-conflituosa, as questões de fronteira que havíamos herdado do período colonial, Rui Barbosa foi um pioneiro da diplomacia multilateral. Tendo participado de uma das Conferências da Haia, ele defendeu, numa reunião em que se discutiam questões relativas à navegação, o princípio da igualdade jurídica dos Estados de maneira muito forte. Ele não teve a capacidade e a possibilidade de fazer com que as coisas ocorressem da maneira que desejava, mas, pelo menos, defendendo o princípio da igualdade entre os Estados, impediu que um mal fosse feito, que era criar, já naquela época, uma espécie de diretório, um mini-Conselho de Segurança para discutir essas questões. Ele defendia que tudo fosse discutido de maneira democrática por todos os interessados. Então, Rui Barbosa é um grande inspirador, no caso do Brasil, da nossa diplomacia multilateral. Não sei se foi proposital, Senhor Secretário-Geral, mas o fato de termos tido o curso nesta sala é algo muito positivo, pois foi um grande defensor de um princípio que nós também defendemos, que é o da democracia e da igualdade dos Estados. Eu tenho um roteiro que vai ser distribuído depois para os alunos, que me foi preparado e que está muito correto.
Acho até que ele pode ser completado com algumas cifras de comércio e talvez com outras relativas à integração da infra-estrutura. Esse roteiro talvez possa ajudá-los a ver como é a política, qual é o pensamento do Governo brasileiro em torno desse tema. E o que eu vou dizer não é muito diferente, na essência, do que está aqui. Mas eu gosto muito de ter conversas francas, conversas informais, conversas de improviso – com os riscos de todo improviso –, que têm também algo de mais verdadeiro e de mais profundo. Gostaria até de começar esta discussão sobre a questão da América do Sul e da prioridade que a América do Sul ocupa na política externa brasileira, contando um pequeno fato. Uma das vezes que fui dar uma entrevista - creio que há um ano e meio ou mais, era na época que nós estávamos lidando ativamente com a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações, um jornalista me perguntou, ele me perguntou isso antes da entrevista, e eu até fiz força para ver se saía a mesma pergunta na entrevista, mas não saiu, porque achei que minha resposta era boa, modéstia à parte: “Mas por que tanta prioridade para a América do Sul?” E
u falei: Porque nós vivemos aqui, nós moramos aqui”, usando imagens aqui de Brasília, eu disse que me interesso pela Superquadra 104, porque eu morava lá - se eu morasse no Copacabana Palace, eu ia me interessar pelo Copacabana Palace, mas eu não moro lá. Acho que essa é a primeira razão e a mais óbvia. Esse é o nosso espaço, onde nós vivemos, e nós vivemos em conjunto, queiramos ou não. Hoje, depois de muitos anos de lidar com o tema da América do Sul, de maneiras diferentes no Ministério e em posições diferentes, eu não só acho que isso é uma necessidade, mas acho que é um fator de riqueza. Somos uma região muito rica, muito criativa, com muita capacidade de inovação, de procurar soluções, com muita contribuição intelectual, muitas vezes, para as questões internacionais. Então, é um fator de riqueza, mas ainda que não fosse, seria uma necessidade. E eu costumo complementar esse pensamento de que América do Sul é prioritária porque nós moramos aqui, porque nós vivemos aqui, com outro pensamento que diz respeito à integração e que é mais ou menos o seguinte: a integração vai ocorrer, queiramos ou não.
Esse é o resultado da vida moderna, é o resultado da melhoria dos meios de comunicação - ainda precários na nossa região, mas fatalmente eles chegarão também. O nosso desejo é o de fazermos um processo de integração da América do Sul que seja efetivamente liderado não por um país, mas por todos os países da América do Sul. Esse tem sido nosso desejo. Depois vou me estender um pouquinho sobre a Comunidade Sul-Americana. Mas esse tem sido o nosso desejo em relação a todas as iniciativas. Na própria Comunidade Sul-Americana nos empenhamos muito para que outros países tenham a iniciativa das reuniões ministeriais. Soubemos que houve uma reunião muito bem-sucedida, por exemplo, de Ministros da Defesa na Colômbia. Estamos apoiando a Cúpula que vai realizar-se na Bolívia. Há uma reunião de Chanceleres prevista para o Chile. Provavelmente há outras de que no momento não me recordo. Nosso desejo é fazer com que esse processo seja efetivamente plural dentro dessa unidade sul-americana. A integração virá. A questão é saber qual integração virá. E a questão é saber se vamos nos integrar através do narcotráfico, do crime organizado, do contrabando, da guerrilha ou se nós vamos nos integrar por meio do desenvolvimento econômico, do desenvolvimento social, do desenvolvimento industrial, do desenvolvimento tecnológico. Acho que essa é a verdadeira pergunta.
A pergunta não é por que a integração. A pergunta é qual será a integração. É esse tipo de pensamento que tem sempre nos inspirado nos últimos anos. Certamente, tem inspirado, de maneira especial, o Governo Lula. O Presidente Lula desde o primeiro momento manifestou uma preocupação muito grande com a integração sul-americana, que não exclui o continuado esforço por uma integração latino-americana e caribenha. Mas a verdade é que a América do Sul é o espaço mais imediato de todos nós e sempre nos pareceu absurdo que, ao mesmo tempo em que havia uma Comunidade CentroAmericana, uma Comunidade Caribenha, não houvesse uma Comunidade Sul-Americana. Havia esforços isolados e importantes, mas parciais: o Pacto Andino e, mais tarde, bem mais tarde, o Mercosul, cada um com seus problemas, suas vicissitudes, suas dificuldades, mas também com a sua criatividade. Essa era a nossa idéia, a de que deveríamos ter uma América do Sul como um espaço global de integração. Por quê? Porque é uma região. Não sou obviamente partidário de nenhum determinismo geográfico, mas é óbvio que nós não podemos ignorar a existência da geografia. Aliás, não é preciso ser um grande cientista político para saber que a geografia tem um papel importante.
A Europa pensa na integração da Europa, depois ela pode até fazer acordos com outros países, com outras regiões. E o nosso continente, do ponto de vista não só geográfico, mas também político e econômico, é essencialmente a América do Sul. Obviamente nós temos relações excelentes e, em alguns casos, até profundas, do ponto de vista econômico, por exemplo com o México, que é, talvez depois da Argentina, o maior parceiro comercial que temos na América Latina como um todo. Então, não podemos desprezar a nossa relação com o México. Longe disso. Temos também relações políticas muito densas com outros países da América Central e do Caribe. Eu me lembro quando o Presidente Lula, no seu discurso de posse, se referiu à América do Sul, embora ele tenha feito referência também à América Latina, despertou certos ciúmes. Eu me lembro que os próprios diplomatas cubanos começaram a perguntar, mas por que não a América Latina? É da América Latina, mas até para chegar a uma integração, a um maior relacionamento do conjunto da América Latina, nós temos que consolidar e fortalecer a integração da América do Sul.
E por quê? Porque se considerarmos as Américas como um continente só, podemos chegar a uma conclusão depois – como os astrônomos chegaram sobre Plutão agora – que haveria um enorme desequilíbrio. Pensando um pouco na comparação, se nós pensarmos na integração das Américas como um conjunto, é um pouco como pensar na integração da Europa com a África, considerar a África e o Oriente Próximo como um continente só junto com a Europa e pensar numa integração que abranja a todos. Obviamente, o desequilíbrio é tão grande, que a integração vai ficar muito enviesada para determinado lado, vai ter uma característica muito especial, muito diferente de uma integração entre países que são iguais. Naturalmente, nós reconhecemos as diferenças – aliás, o tratamento das assimetrias no caso do Mercosul tem sido uma das prioridades e vai ser uma prioridade da Presidência brasileira do Mercosul –, mas o fato é que as nossas economias, os nossos níveis de desenvolvimento não são tão díspares. Se formos olhar a renda per capita, alguns países têm a renda per capita maior que o Brasil, como certamente têm a Argentina, o Uruguai e o Chile, creio eu. Outros têm uma renda um pouco menor. Outros, como a Guiana e o Suriname, têm uma renda per capita um pouco mais baixa, mas, de qualquer maneira, somos todos países em desenvolvimento. Embora com níveis não idênticos, somos países em desenvolvimento.
É muito difícil se pensar numa integração que seja equilibrada se for feita uma integração com a maior potência econômica do mundo e, sobretudo, se essa integração for feita de peito aberto, sem ter, digamos, alguns instrumentos que assegurem uma negociação mais paritária. Esse é um aspecto muito importante. A América do Sul sempre nos pareceu – já me parecia há mais tempo, mas ao Presidente Lula com muito mais força – ser uma área onde essa integração é possível, até porque a América Central e outros países mais próximos já tinham não só mecanismos, mas realidades de uma integração muito forte com os Estados Unidos. Não tenho nada contra acordos com os Estados Unidos, muito pelo contrário. No entanto, defendo que esses acordos sejam equilibrados e para que esses acordos sejam equilibrados temos que nos reforçar. É importante pensar também no fato de que o mundo hoje é muito complexo, muito hostil e que tende a tratar de maneira muito impiedosa aqueles que são mais frágeis. Quero até fazer um parêntese. Acho que na política externa temos que trabalhar sempre com um misto de coisas, um misto de motivações. Seria provavelmente ingênuo e incorreto dizer que nós estamos pensando na América do Sul, só pela América do Sul, e que não estamos pensando no Brasil. É evidente que estamos pensando no Brasil, como cada um de vocês tem que pensar no seu país.
Queria falar do Brasil, porque o Brasil é o maior país fisicamente e economicamente da região. Mesmo o Brasil, que é um país indiscutivelmente grande no cenário mundial, pela população, pela economia, pela dimensão física, ele é pequeno ou, digamos, não é suficientemente grande para as grandes negociações que têm lugar hoje em dia no mundo. Por isso também, nas negociações comerciais multilaterais, tratamos de criar o G-20 para ter também um mecanismo de negociação que fosse minimamente equilibrado. Faço um parêntesis aqui sobre a OMC. Tenho, não diria muitos, mas alguns anos de vivência no GATT e depois pela Organização Mundial do Comércio e posso dizer, com toda a franqueza, inclusive porque eu próprio estive envolvido nisso no passado como Embaixador, como Diretor do Departamento Econômico, como Ministro. A participação de países como o Brasil ou como a Índia na OMC – a China na época não era membro – não vou dizer que era irrelevante, mas era quase marginal. Na realidade, os grandes acordos internacionais que eram firmados, eram antes acertados entre os Estados Unidos e a Europa – na época era a Comunidade Européia, hoje União Européia – com alguma participação do Canadá e do Japão. Depois que eles já tinham mais ou menos acertado entre eles o que devia ser, chamavam Brasil, Índia, se o tema fosse agricultura também chamavam a Argentina ou o Uruguai, mas era assim.
Nós chegávamos ali para colocar o acento agudo ou o que quer que fosse. Porque, na realidade, a essência do acordo já estava feita. Só para dar um exemplo a vocês, no caso da agricultura nos acordos da Rodada Uruguai, algo que era de grande interesse do Brasil - pois tínhamos interesse, por exemplo, no acesso do nosso suco de laranja ao mercado americano –, ficamos sujeitos a uma fórmula que foi definida entre os Estados Unidos e a União Européia. Diferentemente da discussão que existe hoje, em vez de se procurar ter critérios gerais fortes, deixava-se muita coisa para o arbítrio de cada país, de grupos de países. Por exemplo, no caso da agricultura, havia uma tarifa média e uma tarifa mínima, uma redução média e uma redução mínima, e redução mínima era efetivamente muito pequena. Evidentemente, os produtos que eram do interesse do Brasil, e que não eram do interesse do Estados Unidos ou do Canadá, caíram na mínima, como foi o caso do suco de laranja, cuja tarifa foi reduzida em 15% apenas, enquanto tarifa de outros produtos de maior interesse para países mais ricos foram reduzidas em 40%, 50% e a média era 36%. O problema da média, como todos sabem, é que a média pode ser razoável, mas há a famosa anedota que diz que você pode ter a sua cabeça na geladeira e seus pés no fogão e a média seria boa. Por isso, todo esse nosso esforço de criar o G-20, mas eu volto à América do Sul. A nossa convicção era que não só a integração era importante para dentro, criando vias de comunicação, criando espaços econômicos que multiplicam as oportunidades de investimento na região, mas era importante também para fora, para nossa capacidade de negociar fora da região. Voltando à questão do G-20, que chegou a ter praticamente todos os países da América do Sul no início, à exceção da Guiana e do Suriname, que compreensivelmente fazem parte do Caricom, e em determinado momento foi se reduzindo o número de membros, eu pretendo hoje convidar o Chanceler do Peru para que o Peru volte a fazer parte – já convidamos o Equador – do G-20. Com isso voltamos a ter a quase toda a América do Sul de volta ao G-20, o que fortalece muito a nossa posição negociadora. Inclusive ajuda a equilibrar, porque o G-20 é uma composição que tem africanos, asiáticos, latino-americanos e os interesses não são idênticos. Claro que a nossa batalha é comum: eliminar os subsídios, aumentar o acesso ao mercado nos países desenvolvidos, mas há naturalmente matizes, pequenas nuanças nas posições. Portanto, quanto mais latino-americanos tivermos dentro do G-20, melhor para nós e melhor para nós também na negociação porque ficamos fortalecidos, não só com um número maior de países, mas graças à qualidade também que tem a diplomacia sul-americana. Não quero me alongar mais. Vou contar dois ou três casos porque acho que a melhor contribuição que o Ministro pode dar é mostrar um pouco como a diplomacia ocorre de maneira viva, ao invés de colocar questões teóricas, que certamente terão colocado melhor do que eu.
Queria dizer que há três dimensões fundamentais nesse processo de integração: a econômico-comercial, a infra-estrutura, que obviamente tem uma dimensão econômica também, a dimensão humana, que inclui a dimensão social no sentido mais amplo do termo, e a dimensão cultural. Penso que em todas elas temos avançado na América do Sul, temos avançado no Mercosul, mas temos avançado também em relação à Comunidade Sul-Americana. Os projetos de infraestrutura que têm sido realizados, alguns deles dentro do Mercosul, e em outros países como o Peru, o Equador, a Venezuela, com todos os países temos tido uma interação intensa nessa área. Todos esses projetos contribuirão para uma maior densidade do nosso continente. Costumo dizer que, do ponto de vista espacial, estamos fazendo, no início do século XXI, o que na América do Norte aconteceu no fim do século XIX, que é a união do Atlântico com o Pacífico no nosso continente. O nosso continente, por razões diversas, acabou ficando uma parte de costas para a outra e creio que algo importante que temos a fazer é justamente unir essas duas vertentes. Sinceramente, não faz muito sentido – é a minha opinião e respeito a opinião dos outros – pensar numa América do Sul e numa América Latina do Pacífico e numa América do Sul e numa América Latina do Atlântico. Apenas estaremos criando divisões entre nós. Esse grande esforço não será só em benefício do Brasil. Evidentemente o Brasil também se beneficiará, mas é óbvio que os outros países também se beneficiarão se criarmos corredores de comércio de integração que venham a unir os portos do Chile, do Peru, do Equador, com os grandes centros industriais e comerciais do Brasil, da Argentina ou da Venezuela.
Essa integração física tem que ser vista como essencial para que uma integração econômica se realize. Talvez essa integração não esteja sendo implementada no ritmo que desejaríamos, mas muita coisa tem ocorrido, com o auxílio da Corporação Andina de Fomento, à qual nós decidimos nos integrar também. Muita coisa tem ocorrido diretamente com o apoio de bancos e de mecanismos de financiamentos brasileiros, que terão que se aprimorar, não tenho a menor dúvida. Eu não posso falar muito do futuro, porque nós estamos em um período pré-eleitoral e qualquer coisa que eu diga pode ser vista de outra maneira, mas qualquer que seja o Governo, eu posso dizer, terá que se dedicar muito ao aprimoramento dos mecanismos financeiros de integração e, no nosso caso, ao aprimoramento dos mecanismos brasileiros de integração. Evidentemente que nós trabalhamos muitas vezes com taxas e com prazos que não são adequados a certos países, até porque os graus de desenvolvimento aqui na região não são idênticos, mas em alguns casos nós precisaremos realmente desenvolver formas que eu não sei exatamente quais são, de desenvolvermos créditos concessionais na América do Sul, sobretudo para os países mais pobres. Francamente, é claro que é ótimo que exista o BID, temos que usar o BID, mas em alguns casos os recursos do BID não são infinitos, e também se nós queremos que boa parte desse espaço possa ser ocupado também por empresas brasileiras, ou latino-americanas, sul-americanas, nós precisamos também de ter mecanismos nossos. A nossa preocupação tem sido sempre estimular, quando possível, no caso das empresas brasileiras que elas se associem a empresas locais, para que não seja apenas uma exportação de serviços brasileiros , mas verdadeiras joint-ventures.
Claro que isso vai acontecendo aos pouquinhos e de maneira diferenciada, longe do ideal. A integração na infraestrutura é muito importante. Gostaria de dar ênfase à parte econômicocomercial, porque acho que é muito importante trabalhar para que esses acordos sejam vivificados, que não permaneçam no papel. Nós, nosso Ministério, eu pessoalmente, dedicamos, por orientação do Presidente Lula, boa parte do nosso tempo às questões relativas à integração comercial da América do Sul. Certamente, não foi um trabalho fácil, no Brasil e em cada um dos outros países membros do Mercosul. Tenho certeza que foi difícil para todos nós, porque todos esses processos são difíceis, não se faz integração de maneira indolor. Eu morava na Europa, na época em que a Espanha, Portugal e Grécia estavam sendo trazidos para a União Européia e lia nos jornais agrícolas que, sempre os franceses, coitados, acabavam sendo acusados de atacar caminhões que vinham da Espanha, de Portugal ou da Grécia, com produtos mais competitivos. Entre nós, graças a Deus, não tem sido tão dramático, mas ocorrem também processos, dificuldades, mas integração é assim mesmo. Nós temos que estar capacitados a lidar com essas perturbações, temos que ter mecanismos financeiros, da região e internos também, mas temos que enfrentálas, senão não vamos conseguir progredir. Essa negociação comercial foi interessante porque pessoalmente estive envolvido em esforço semelhante há cerca de doze anos atrás, na época do Governo do Presidente Itamar Franco, em que nós tentamos pela primeira vez criar uma área de livre comércio sul-americana.
O momento teria talvez sido melhor, mas não adianta, como dizemos aqui, chorar pelo leite derramado. Não foi, não aconteceu. Tivemos de lidar com uma situação mais complexa porque ela deu-se em um momento em que havia negociações da ALCA, havia outras negociações bilaterais, alguns países já tinham Acordo de Livre Comércio com blocos extra-regionais, outros estavam fazendo, o que evidentemente é uma complexidade, mas temos que lidar com a realidade como ela existe. E dentro dessa realidade nós procuramos levar adiante a idéia dessa área de livre comércio sul-americana, essencialmente através do acordo Comunidade Andina-Mercosul, ao qual também de alguma forma adeririam ou seriam cobertos de alguma forma Guiana e Suriname com uma característica especial. Foi um grande esforço. Tenho a vantagem de poder fazer comparações comigo mesmo, quer dizer, isso evita que eu esteja me comparando a outros Chanceleres, o que é sempre complexo.
Da outra vez que fui Ministro, a verdade é que foi por um ano e meio apenas, eu não fui nenhuma vez ao Peru, não fui nenhuma vez ao Equador, nunca tinha ido à Guiana, nunca tinha ido ao Suriname. Dessa vez, nos primeiros dois anos do Governo, para dar um exemplo, creio que fui seis vezes ao Peru, ao Equador, Venezuela também, isso sem falar nas muitas vezes que acompanhei o Presidente ao Uruguai, à Argentina, ao Paraguai, entre outros. Estou dando esses dois exemplos, que são ilustrativos, então quero dizer que a diplomacia se faz não só com as palavras, ou com as idéias, que são evidentemente importantes porque ações sem idéias acabam virando desvario, mas ela se faz também com muita pertinácia, procurando resolver os problemas, encarando as dificuldades. E eu tive muitas conversas interessantes nesse processo, sobretudo, sob a orientação geral do Presidente Lula, devo dizer nesse caso que o Peru foi um parceiro desde o início muito positivo, porque ele sempre quis fazer com o Brasil uma parceria estratégica e procurou fazer um acordo com o Mercosul que depois acabou sendo um acordo com toda a Comunidade Andina. E eu me lembro de conversas muito interessantes, eu tive por exemplo uma conversa com o Ministro Botero, na Colômbia, que foi uma conversa longa e muito densa. Então uma coisa que eu tenho dificuldade de entender é porque a classe empresarial, a burguesia, chamemos assim, colombiana tem medo da competição do Brasil, e não tem medo da competição dos Estados Unidos, eu não conseguia entender isso. O Brasil não é mais competitivo globalmente que os Estados Unidos, pode até ser que algum produto seja, na área industrial, então era para mim difícil.
E ele rebateu também ou deu argumentos que eram válidos, e também se queixou muito do fechamento do mercado brasileiro, que é verdadeiro também. O Brasil é um país em muitas coisas extremamente protecionista, eu descobri outra dia, não na sua política geral mas na prática diária, outro dia por exemplo, nós custamos muito para conseguir fazer um acordo sobre a água mineral do Uruguai, para poder entrar no Brasil. Custou muito, consegui convencer depois de muita discussão as nossas autoridades sanitárias que a água mineral uruguaia era boa, e que não tinha problema e conseguimos, porque hoje em dia as barreiras são essas, são as barreiras técnicas, não adianta nada você ter um Acordo de Livre Comércio com os Estados Unidos no nosso caso, por exemplo, se ele continuar não deixando entrar carne brasileira, por um outro motivo qualquer, embora a Europa deixe, é quase irrelevante. Mas, enfim, então nós conseguimos demover. Passados 15 dias, descubro que há um problema com um caminhão que está vindo do Uruguai, trazendo água mineral, procuro saber porque houve o problema: era porque a água mineral tinha um sabor, não era água mineral pura, tinha sabor de limão, grapefruit, então tinha que entrar em outra classificação tarifária e aí então já não entrou. Bem, resolvemos o problema, mas isso é um exemplo de como essas coisas ocorrem, então as questões que o Ministro Botero colocava, de que o Brasil era um país um pouco fechado, eram um pouco verdadeiras, eu diria que são bastante verdadeiras, porque a cultura integracionista ela também não se revela de um dia para o outro. Nós temos sempre, eu participo do Conselho de Desenvolvimento Industrial, e de vez em quando de algumas outras reuniões econômicas no Governo, e uma das principais batalhas que eu tenho tido, aliás com o apoio do Presidente, mas sabe que essas coisas demoram a entrar na burocracia, penetrar, é fazer com que as pessoas pensem nas políticas industriais, na política tecnológica do Brasil, não em isolamento, mas já pensando no Mercosul, e pensando que parte cabe, que parte pode caber a outros países do Mercosul, o mesmo poderá ser dito da Comunidade Sul-Americana, mas eu vou voltar depois a este ponto, mas é claro que o Mercosul é um processo de integração mais profundo.
Então essa conversa com o Ministro Botero foi muito elucidativa, creio que para ele, mas também para mim, e nós fomos negociando, continuamos a negociação, o Brasil reconheceu muitas assimetrias, devo dizer que reconheceu muito mais assimetrias que os Estados Unidos no TLC que fizeram. Se vocês compararem o Acordo que foi feito com o Mercosul, e o Acordo que foi feito com os Estados Unidos, creio que no caso, todos vão verificar, a impressão que se tem é que a grande potência econômica do mundo é o Mercosul e não os Estados Unidos, porque ele reconheceu muito mais assimetrias do que os Estados Unidos, inclusive a assimetria no sentido defensivo em relação às preocupações defensivas, digamos assim, dos países da Comunidade Andina. Primeiro, nós não vamos exportar produtos subsidiados, o que já faz uma grande diferença. Segundo, nós reconhecemos sensibilidades em áreas que seriam de enorme interesse do Brasil, toda a área do açúcar e dos produtos derivados do açúcar, todo mundo sabe a competitividade que a indústria brasileira tem, mas nós aceitamos na prática excluir ou colocar num prazo longuíssimo todos os produtos ligados ao açúcar, porque entendíamos que isso era algo que era de especial interesse da pequena agricultura, do desenvolvimento rural desses países e fizemos essas concessões. Mesmo que nós não tivemos, por exemplo, em áreas como carne, outras foram muito limitadas, para permitir que essas sensibilidades fossem respeitadas, eu acharia muito interessante que vocês comparassem o que o Mercosul concordou em excluir ou postergar e o que os Estados Unidos exigiram que fosse colocado logo.
É muito interessante, isso aliás é um tema para mim de discussão política também com relação aos países que assinaram os TLCs recentemente, depois que nós fizemos o acordo do Mercosul. Mas seja como for, eu acho que nós começamos a criar uma mentalidade que, do ponto de vista do Brasil, é importante não só exportar, é importante investir, mas é importante também importar, e nós criamos programas, e talvez o primeiro grande seminário que nós fizemos nessa área de substituição competitiva de importações, quer dizer, o Brasil talvez seja um dos poucos países do mundo, provavelmente o único subdesenvolvido, creio eu, que tem um programa de promoção de importações, voltado, e que eu quero que se mantenha e se aprofunde nessa área de promoção comercial, inclusive com a ajuda da área de cooperação técnica também. É um dos poucos países do mundo que tem um programa de promoção de importações. Por quê? Porque nós reconhecemos que no nosso comércio com os países da América da Sul, aquilo que o Ministro Botero dizia era verdade, havia um desequilíbrio muito grande, o Brasil exportava muito mais do que importava, e criava muitas dificuldades para importar, quando não eram tarifárias, eram de outra natureza, como eu acabei de ilustrar, e nós queremos, aos poucos, ir vencendo isso. Temos trabalhado de maneira muito intensa, com os parceiros do Mercosul, através de comissões de monitoramento de comércio, mas estamos dispostos também a trabalhar com os outros parceiros da América do Sul, e eu dizia que o primeiro grande seminário que nós fizemos nessa área foi com a Colômbia, com presença do Presidente Uribe, em São Paulo, um seminário, voltado mais para importação.
Claro que era um seminário sobre comércio, mas mais voltado para importação e para o investimento e depois participamos de um outro, lá na própria Colômbia em que eu tive a honra de representar o Presidente Lula, que na ocasião não pôde comparecer. Então, eu acho que essa dialética e essa discussão, profunda, sem preconceitos, é o que permite encontrar soluções para as questões. Eu diria que uma das conversas mais produtivas que eu tive durante esse período de ministério, foi essa conversa com o Ministro do Comércio da Colômbia, Ministro Botero, porque embora partindo de pontos de vista diferentes, era uma conversa sem preconceitos, então era possível chegar a um entendimento, a essência de todas as conversas não é a concordância prévia, aliás, se há a concordância prévia, não precisa haver conversa. Então o mais importante não é saber se nós concordamos ou divergimos, mas o importante é saber se nós estamos conversando sem preconceitos, porque isso nos permite chegar a soluções, dentro do Mercosul tivemos uma discussão parecida, no caso bilateral com a Argentina que foi a questão desse mecanismo de adaptação competitiva, e estamos prontos para resolver um problema específico da Argentina, por isso que o assunto não foi discutido.
Talvez, tenha sido um erro do ponto de vista político, mas havia uma emergência, que eu acho do ponto de vista argentino, precisava ser resolvido e o Brasil entendeu isso e participou da conversação bilateral. Talvez tivesse sido ideal conversar já no Mercosul como um todo, mas o ideal é inimigo do bom, muitas vezes nós temos que resolver as emergências, mas é óbvio que estaremos sempre prontos a, se for o caso, estender o mecanismo, discutir, eu não vejo no caso do Uruguai e Paraguai um interesse, com exceção da Venezuela, não vejo no ponto de vista deles, um interesse muito grande em ter algo parecido, porque as preocupações deles são muito mais de ter facilidade para entrar no nosso mercado, e eu acho que isso é bom, do que proteger a sua própria indústria. É diferente do caso da Argentina, que vinha de um processo de desindustrialização profunda e que queria criar condições para restabelecer essa indústria e que teria, digamos, uma “invasão” de produtos brasileiros. Então os remédios nem sempre são iguais, embora nós façamos parte de um conjunto, nem sempre são iguais. A outra dimensão da integração sulamericana, que é muito importante, é a dimensão humana, eu acho que essa é uma área que se tem muito por fazer, eu fico contente que hoje haja iniciativas de vários, há uma iniciativa da Venezuela, com participação da Argentina, creio de outros países, a Telesul, o Brasil também tem o canal Brasil Integración, que aliás de vez em quando eu assisto o programa do canal Brasil Integración quando eu chego a tempo em casa, e é muito interessante.
Porque não é só uma questão, não são programas digamos, como nós vemos no Brasil, chapa branca, oficiais, são programas mais variados, inclusive os programas são produzidos pelos próprios países, em geral. Então, essa integração cultural é fundamental, eu hoje em dia, até eu não devia dizer isso porque eu fui Presidente da Embrafilme, e tenho filhos que trabalham em cinema, mas acho que eu tenho visto mais filmes argentinos que filmes brasileiros, ultimamente, o que é muito bom, sob certo aspecto, porque faz parte dessa dinâmica e desse processo de integração. Mas por exemplo, acho que há algo muito importante e eu salientei isso quando estive uma vez em uma reunião junto com a Comunidade Andina, quando nós estávamos discutindo alguns aspectos do Acordo Comercial, são os acordos para eliminação não só de vistos, mas de passaportes, entre muito dos nossos países. Eu não creio que possa haver integração sem haver integração humana. Não posso. Eu não posso imaginar, quando se fala, é muito diferente quando se compara, por exemplo, o que ocorreu na Europa e o que se propunha fazer na ALCA. A Europa realmente lançou um grande esforço para fazer daquele mercado e daqueles países, uma sociedade não digo única, mas uma sociedade realmente unida, unida por laços não só econômico-comerciais, mas humanos. E as pessoas passam ali com o passaporte europeu na prática e entram e saem da Europa dessa maneira.
E na América do Sul, acho que nós temos que ter um espaço desse tipo, obviamente que no plano hemisférico isso não vai ocorrer, ao contrário, as restrições tem aumentado. Então eu acho que é muito importante ter presente isso e quando se fala do Mercosul, não é só, no caso do Mercosul, especificamente, que nós estamos mais avançados, como provavelmente a Comunidade Andina faça o mesmo, mas eu não conheço também: são acordos de residência, são acordos das comunidades, em que as pessoas têm acesso à escola e a tratamento médico, indistintamente de serem uruguaias ou brasileiras, por exemplo. Então essa é a integração humana que nós desejamos. Outro dia um jornal, a propósito da entrada da Venezuela no Mercosul, eu fiz o comentário para a imprensa, dizendo que com a entrada da Venezuela no Mercosul, o Mercosul passava a ter a cara da América do Sul, mas porque até agora, o Mercosul era o Cone Sul. Inclusive os estados do Norte, do Nordeste do Brasil não se interessavam muito pelo Mercosul, eles achavam que o Mercosul era uma questão do Sul do Brasil ou do Centro-Sul para baixo. E com a entrada da Venezuela nós temos hoje, começa a ter a cara da América do Sul, a Venezuela é também meio andina, também é caribenha, e eu disse isso e o jornal publicou, não sei se eles estavam achando que era ruim, mas eles publicaram a minha fotografia, dizendo assim: “Tem a cara da América do Sul”.
Eu fiquei muito satisfeito e muito feliz. Muito feliz. No dia em que disserem Celso Amorim, diplomata sul-americano, vou ficar mais feliz ainda. Então, eu acho que isso é verdade, mas isso só pode ocorrer com a integração humana. Eu acho que a integração comercial é boa para os negócios, ninguém vai discutir isso e respeitamos as posições de cada país, mas eu queria dizer que todos esses passos foram dados. Voltando atrás um pouquinho, falando de maneira meio desordenada, no caso do comércio, como eu disse, eu estive envolvido em uma tentativa de criar uma área de livre comércio sul-americana há uns 12 anos, e devo dizer que na época talvez o país tenha tido mais resistência na minha opinião, estou falando com franqueza, isso é história hoje, creio que foi a Colômbia, porque já estava pensando em alguns outros acordos com os EUA, achavam que as coisas eram incompatíveis, quando na verdade não eram e por isso também eu mencionei agora o Jorge Humberto Botero, com quem mantive uma excelente relação e de quem me tornei muito amigo. E fiquei muito contente também que depois de um ano e meio dessas negociações terem sido lançadas, finalmente nós fizemos um protocolo na ALADI, onde a idéia de uma área de livre comércio sul-americana havia não sido lançada, mas digamos sido um pouco mais concretizada por mim doze anos antes, ela tinha sido lançada pelo Presidente Itamar Franco em uma reunião do Grupo do Rio. Mas tinha sido tentado concretizar por mim 12 anos atrás e tinha visto essas resistências todas.
Então eu fiquei muito contente naquela reunião, eu fui muito cuidadoso com as palavras, para não parecer também, porque às vezes há suspeitas sobre os objetivos brasileiros, então eu fui muito cuidadoso e não quis ir ali nada além do que os textos diziam. Mas fiquei muito contente, quando a Ministra Carolina Barco, que foi quem foi à reunião, disse que com aqueles acordos nós estávamos criando uma área de livre comércio sul-americana. Então achei que, digamos, depois de 12 anos, verificar que isso vinha e que partia, digamos, do próprio país que via antes com alguma desconfiança, essa idéia para mim foi algo muito gratificante e mostra que há um desejo real de integração de todos. E com todos estamos discutindo essas formas, as discussões de infraestrutura , essas liberações comercias e essa integração humana. E nesse ponto aliás, não fazemos distinção entre o que é o Mercosul e o que é a Comunidade Sul-Americana, estamos dispostos a discutir essas coisas, entre todos nós.
Claro que o Mercosul fez uma União Aduaneira, permite fazer coisas que vão um pouco além, mas repito, não são excludentes. Mas eu queria fazer um comentário aqui também sobre um outro aspecto, que eu disse que o Mercosul e a integração da América do Sul devem ser vistas não só pelo impacto interno mas pela capacidade de negociação internacional. Mencionei a OMC, mencionei digamos a zona de superposição positiva que existe entre a Comunidade SulAmericana e o G-20, mas eu acho que há outros fatores também que seria interessante analisar: como se dá essa relação entre os tratados de livre comércio, os TLCs, como se chamam nos países hispânicos e a integração sul-americana. E eu vejo que a mídia, aqui no Brasil, não sei se em outros países também faz o mesmo, ela costuma fazer uma contradição muito radical. No caso do Brasil até é compreensível, eu vejo isso com naturalidade, porque grande parte da mídia está preocupada em apontar os defeitos, e fazer as críticas, o que é normal, eu acho que parte do trabalho da mídia é esse mesmo, apontar os defeitos até nos obriga a pensar um pouco mais.
Mas ela está sempre procurando dizer que é grande derrota da diplomacia brasileira, porque a, b, ou c, assinou um TLC com os EUA. Eu não vejo dessa maneira e eu me recordo de uma conversa que eu tive pessoal, também estou voltando à Colômbia, porque a Colômbia era um país que estava, depois posso mencionar outros casos, com o Presidente Uribe, em que ele dizia: “Olha o nosso problema não é a ALCA, o nosso problema é que nós temos preferências com os EUA que nós não podemos perder”. E é claro que o Brasil tem que entender isso, é claro que o Mercosul tem que entender isso, o país já tem, já goza daquelas preferências, como é que eles podem entrar num acordo que eles vão abandonar aquelas preferências? É difícil, por isso é que eu digo, talvez 12 anos atrás se as idéias tivessem sido perseguidas com mais afinco, tivéssemos avançado mais, mas não foi possível. Então, temos que lidar com a realidade hoje, e o que é que acontece na prática? O que acontece na prática, na minha opinião, e visto do ângulo do Mercosul, é claro que de outros ângulos é diferente, eu vejo uma integração em duas velocidades. Quer dizer, há uma integração mais profunda, que é a integração daqueles países que são parte da união aduaneira. E uma integração que é importante, que é ampla, que pode atingir todos os outros aspectos da vida política e social, mas que é necessariamente um pouco menos profunda, que são os países que têm acordos extra-regionais e aí não é só com os EUA, com quem quer que seja, porque evidentemente a capacidade de, digamos, de ter uma política comercial unida, desaparece, se cada um tem a sua estrutura tarifária, você não tem como negociar em conjunto.
As concessões serão diferentes, e as pessoas às vezes me perguntam, por que a tarifa externa comum? Voltando um pouquinho ao passado do Mercosul, sabe que houve uma grande discussão em torno disso, em vários momentos, aliás eu passo para um outro aspecto mas que também tem relação: é uma coisa muito interessante, se vocês forem analisar a história, e tudo isso está documentado, ver a dinâmica da integração sul-americana e as iniciativas hemisféricas, eu acho que é algo muito interessante. Eu não vou dizer que uma condiciona a outra, mas houve uma dialética constante entre as duas coisas. Eu acho, sinceramente que de alguma maneira talvez não tivesse havido a ALCA ou a sua antecessora, Iniciativa para as Américas, se não estivesse havendo já integração no Sul do continente, na época não era ainda Mercosul, e por outro lado também não teria havido Mercosul se não tivesse havido Iniciativa para as Américas, pelo menos o Mercosul do jeito que foi, da maneira que foi. A integração sempre teve impacto recíprocos. Eu percebo com toda clareza que quando os processos Brasil-Argentina começaram, de integração, no Governo do Presidente Sarney, o Embaixador Samuel teve um grande papel nisso na época, eu tive uma participação muito marginal, mas participei um pouquinho, porque na época eu trabalhava na área de ciência e tecnologia, isso despertava grande preocupação nos EUA. Não terá sido o único fator, mas terá sido um dos fatores que contribuiu para o lançamento da Iniciativa para as Américas.
Quando vieram Governos de tendência mais liberal do ponto de vista econômico, tanto no Brasil, quanto na Argentina, aquelas iniciativas que tinham sido tomadas tiveram uma aceleração vertiginosa – e eu vou voltar a falar da tarifa externa comum, não esqueci não. Tiveram uma aceleração vertiginosa e é curioso isso, quer dizer, na época isso foi objeto de muitas críticas, mas eu acho que foi um resultado positivo, eu acho que dificilmente se nós continuássemos, pode haver várias avaliações nisso, mas dificilmente se nós continuássemos essencialmente num mecanismo de negociação setorial, nós teríamos chegado a uma integração tão ampla no caso do Mercosul quanto chegamos. Essa integração em parte foi possível porque como os dois países, no caso na época, Brasil e Argentina, estavam em processo de liberalização muito amplos e unilaterais em relação ao mundo todo e como isso era, digamos, algo que eram decisões do Governo no nível macroeconômico, as pessoas que lidavam com integração, creio, tanto no Brasil quanto na Argentina, não podendo de nenhuma maneira, nem tendo capacidade de impedir que isso acontecesse, elas procuraram digamos, levar ao máximo de benefício para o processo de integração. Como? Acelerando ao máximo o processo de integração, já que Brasil e Argentina estavam empenhados numa liberalização que nunca foi completa, mas que digamos, que se pensava em relação erga omnes, digamos assim, era extremamente oportuno e necessário você fazer uma integração maior e mais rápida entre os dois países, e foi daí que nasceu a idéia de você passar, foi talvez uma idéia um pouco sonhadora e exagerada mas de se passar para uma liberalização total do comércio entre Brasil e Argentina em 5 anos. Enorme voluntarismo, mas que gerou efeitos, gerou efeitos tão rápidos que em um curto espaço de dois anos, na época eu já estava muito dedicado a esse tema, a situação era digamos de um ceticismo inicial para uma situação em que o projeto de integração tinha sido abraçado pelas próprias sociedades, inclusive pelos próprios empresários que inicialmente estavam preocupados com isso. Bem, mas quando se fez esse processo de integração, e aí é interessante ver a dinâmica.
A primeira reunião, aliás nessa sala, coincidência, primeira reunião que gerou, o que digamos, gerou o Mercosul como ele é, porque o Uruguai tinha um status, ele já tinha consultas, isso desde a época do Governo Sarney e Alfonsín, fazia consultas com Brasil e Argentina, o Paraguai porque a transição democrática deles ainda era inicial, não era tão ligado, mas nessa sala, se fez uma reunião para coordenar as posições dos países do Cone Sul, como assim se chamavam, como assim se dizia, com relação à Iniciativa para as Américas. Dessa reunião, participaram Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, e não Paraguai, que não foi convidado. Logo se viu que o Chile, já tinha uma política mais, digamos, uma estrutura tarifária mais aberta, mais liberal, não ia, não tinha condições objetivas de participar da coordenação e logo depois também, o Paraguai pediu para entrar no grupo, então curiosamente o próprio processo da negociação de Iniciativa para as Américas acabou gerando a necessidade de uma coordenação do Mercosul. Bem, abreviando um pouco as coisas, chegou-se à conclusão, para que houvesse uma negociação externa e eficaz, era necessário também ter também uma tarifa externa comum, ainda que com todas as imperfeições. Mas o que eu ia dizer, é que naquela época havia um grande debate entre a tarifa externa comum, entre os que defendiam uma união aduaneira e entre os que defendiam um acordo de livre comércio, apenas. E o curioso é que o debate perpassava as tendências ideológicas. Eu costumo dizer, para caricaturar um pouquinho, que na época eram contra a União Aduaneira, digamos, a direita liberal na Argentina e a esquerda nacionalista no Brasil. Curiosamente, porque uns e outros não queriam a tarifa externa comum, a direita liberal na Argentina, porque desejava ter liberdade de manobra para discutir acordos comerciais separados, obviamente a posição da Argentina hoje é muito diferente, mas naquela época era uma posição de poder discutir, na época não se falava em ALCA, se falava na expansão do NAFTA, poder discutir com o NAFTA, os que forem estudar os anais da história diplomática, verão que isso foi objeto de grandes discussões na época.
E no Brasil, digamos assim, a esquerda mais nacionalista achava que uma tarifa externa comum acabaria levando a uma redução da nossa estrutura tarifária, porque de alguma maneira, ainda que o Brasil fosse economia maior, nós também teríamos que adaptar um pouco a nossa tarifa aos anseios de outros países do Mercosul, então criou-se naquela época, uma aliança, uma aliança eu não diria, mas digamos um entendimento, uma entente cordiale entre esses dois setores, inclusive das próprias burocracias E isso se estendeu, mesmo depois da assinatura do Tratado de Assunção permanecia essa dúvida e na realidade ela só pôde ser dirimida em definitivo naquela época, nada é definitivo na vida, mas em definitivo como se vê sempre ressurgem os problemas. Mas foi, ela foi na época decidida já no Governo Itamar Franco, quando se decidiu que sim, era importante ter a tarifa externa comum. E o Mercosul do jeito que era como entidade decidida do nosso ponto de vista e no final concordaram. Houve outras idéias também na época. Eu acho até curioso, a história é cheia de ironias porque quando hoje se discute a possibilidade, eu estou falando de um ponto de vista puramente histórico e sem procurar dizer o que é melhor para cada país, porque cada país tem que julgar o que é melhor para si, como eu tenho sempre procurado dizer nessa discussão de TLC, eventual TLC do Uruguai com os Estados Unidos. Naquela época chegou a se discutir, quer dizer, a primeira versão era ter só área de livre comércio, mas a segunda possibilidade era ter a união aduaneira só entre Brasil e Argentina. E Uruguai e Paraguai ficarem, digamos assim, como um segundo nível de integração, participarem apenas da área de livre comércio, e obviamente naquela época o Uruguai e Paraguai não ficaram nada satisfeitos com isso, acharam que era digamos, uma participação menor. E nós tivemos que lutar muito, nós no Brasil, e alguns setores na Argentina também, para que nós pudéssemos ter o Mercosul com a conformação que ele tem hoje. Então eu diria, só para arrematar, que essa discussão da tarifa externa comum é uma discussão complexa.
Eu costumo dizer que a tarifa externa comum, os países pequenos vêem ela como um entrave, porque às vezes eles poderiam ter uma liberdade para negociar outros acordos, mas na realidade, eu costumo dizer que a tarifa externa comum, ela é, parodiando um ditado inglês, que diz que a virtude é sua própria recompensa, a tarifa externa comum é a sua própria recompensa, porque ter a tarifa externa comum significa você ter um espaço econômico e ficar livre das idiossincrasias burocráticas, você não terá nunca um fiscal na fronteira para dizer esse produto é tarifa tal, não, porque você tem uma tarifa externa comum. Como terá sido cobrado qualquer coisa antes do produto entrar no Uruguai, no Paraguai, na hora em que ele entrar no Brasil, terá que entrar livremente. Bom, se esse ideal vai ser realizado dentro de 10, 15 ou 20 anos, não sei. Mas eu acho que ao contrário do que às vezes pensam, os países pequenos serão os maiores beneficiários da tarifa externa comum, quando ela estiver totalmente implementada, porque você ficará livre da interferência burocrática que é sempre maior nos países maiores, mais poderosos, sempre ocorrem, de maneira que os EUA faz isso com o Brasil, mesmo que a gente não deseje alguns setores da burocracia acaba fazendo isso com os países parceiros menores.
Então, e por outro lado ela é um instrumento de unidade poderosíssimo, e aí um argumento que vale tanto para os que digamos, acham que a tarifa externa comum é um empecilho quanto aqueles que por outros motivos acham que ela não é importante, porque acham que integração tem que ser uma coisa só política e não econômica. E, primeiro a ligação entre política e economia é óbvia e se nós formos pensar por exemplo historicamente, um país como a Alemanha só se constituiu a partir da união aduaneira. Então, se nós temos algum sonho, de algum dia, termos uma verdadeira união sulamericana , é difícil ter essa união sem uma tarifa externa comum, essa é uma realidade. Agora, voltando ao momento atual, nós sabemos que isso não é assim, mas sabemos que acordos de livre comércio existem, é possível que no futuro, o Mercosul venha a fazer um acordo de comércio também com a União Européia e com os Estados Unidos e que depois nós tenhamos meios de compatibilizar isso. Não é o que está, digamos, ocorrendo nesse momento, mas tudo isso não deve impedir que nós tenhamos essa integração, ainda que é em duas velocidades nesse momento atual. Eu acho que ela não exclui tudo aquilo que nós já falamos antes, políticas de investimento, políticas de integração competitiva, no caso do Brasil inclusive políticas de promoção de importação, políticas de financiamento, de infra-estrutura e vamos lidando com a realidade como ela é. Eu queria aqui, só para talvez terminar, contar uma outra estorinha dessa questão que a gente fala muito da Comunidade Sul-Americana e vamos ter uma reunião agora na Bolívia, que será a segunda formal, ela foi criada no Peru, primeira reunião formal, digamos assim, da comunidade enquanto tal foi no Brasil, e a próxima na Bolívia. Eu sei que existe uma comissão de reflexão que tem tratado da institucionalidade, eu confesso que não me debrucei nisso pessoalmente ainda até porque está bem entregue, no nosso caso ao Professor Marco Aurélio Garcia, com a assessoria de colegas meus, certamente nos outros países também, mas acho que é muito importante essa institucionalidade.
Acho que nós temos que chegar mesmo a um Tratado, eu acho que não faz sentido nós assinarmos tratados sobre tantas coisas, e não podermos assinar um tratado sobre a Comunidade Sul-Americana. Não sei se isso virá imediatamente, mas eu acho que deve vir, porque isso consolidará efetivamente essa comunidade como uma entidade internacional. Bem, vai se realizar na Bolívia e eu queria dizer, algo como as coisas aparecem e nós conversamos muito com o Peru, no início, porque o Peru, de todos os países da América do Sul, do Grupo Andino, foi o que se dispôs inicialmente a ter uma negociação mais direta com o Mercosul, eu diria que a própria Venezuela, o Presidente Chávez sabe disso, tinha certamente, uma visão integracionista, mas vive com sua grande vontade de realizar as coisas politicamente, ele achava que essa parte comercial não era importante, mas sem a parte comercial você não poderia consolidar. E o fato é que com o Peru nós fizemos isso, houve uma grande disposição do Presidente Toledo e uma resistência burocrática lá também, no Peru havia grande preocupação com a competitividade do Brasil, da Argentina na área agrícola, mas também em alguns produtos industriais. Mas enfim, negociamos e chegamos a uma conclusão. Quando assinamos o protocolo, na viagem do Presidente Lula a Lima, foi um momento em que tive que ir e voltar várias vezes, o Embaixador Samuel fez a negociação, porque coincidiu, aliás, faz pouco mais de quinze dias o aniversário, coincidiu com a morte do Sérgio Vieira de Mello. Eu tive que voltar ao Brasil e voltar para lá. Mas em um determinado momento, quando eu já estava lá de volta, eu estava com o Presidente Toledo no aeroporto, esperando o Presidente Lula, e nós estávamos conversando. E eu dizia: “Presidente Toledo, eu quero lhe cumprimentar porque com este acordo nós estamos dando o primeiro passo para criar uma Comunidade Sul-Americana de Nações”.
E aí o Presidente Toledo me perguntou: “Mas você acha que tem algum problema se eu usar essa expressão?” Aí eu falei: “não, por favor, use”. E, de fato, ele publicamente foi a primeira pessoa a usar o termo Comunidade Sul-Americana de Nações, que saiu dessa conversa, mas o mérito é dele, o importante não é você ter idéias, ou formular palavras, o importante é você transformá-las em realidades políticas. E o Presidente Toledo teve essa visão. E creio que o que nós estamos fazendo hoje tem, na região, inclusive este curso aqui tem, digamos, esse aspecto, é uma concretização de coisas que foram discutidas e eu procurei transmitir a vocês menos da teoria, um pouquinho da teoria, embora eu não seja talvez a melhor pessoa para fazê-lo, mas mais um pouco a prática e a visão de como essas coisas evoluem. E sobre as negociações e as dificuldades, que são muitas, poderia ficar aqui conversando muitas horas, mas como eu vou receber o Chanceler do Peru daqui a pouco, em uma semana muito dedicada à América do Sul. Esta semana, no Brasil, na segunda-feira tivemos a visita do Presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul, Chacho Álvarez, meu amigo Chacho Álvarez, ontem tivemos o Vice-Presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, e hoje teremos o Ministro Belaúnde, do Peru, o que mostra a intensidade das relações. Isso também não era comum, quer dizer, uma visita tinha uma agora, outra daqui a três, dois meses, era mais ou menos o ritmo a que nós estávamos acostumados. Eu sei que a mesma coisa se passa entre os outros países, eu vejo que foi assinado um acordo entre o Chile e o Peru, acho isso muito bom, muito importante, porque o Chile dessa maneira se liga também à Comunidade Andina. Da mesma maneira que o Brasil se associou à Comunidade Andina, porque quando assinamos esses acordos com o Peru e com os países da Comunidade Andina não só eles se associaram ao Mercosul mas nós também nos associamos à Comunidade Andina.
Embora essa segunda parte, por alguma razão, não tenha se materializado tanto em participação em reuniões. Então, acho que isso é uma realidade, eu acho que nós vamos ter que trabalhar tendo consciência dessas diferenças, dessas assimetrias não só de tamanho e complexidade das economias mas também de grau de abertura para outras negociações. É um fato real, não adianta querer ignorá-lo. Então, dentro desse contexto, de repente até para alguma coisa também é útil, porque nós estamos vendo os investimentos brasileiros crescendo, por exemplo em alguns países. Em resumo, eu queria dizer que nós vemos a integração da América do Sul como uma necessidade, mas ela é também um projeto. E é muito útil quando você pode fazer de uma necessidade um projeto. Porque aí você tem algo que realmente tem uma realidade profunda, que terá repercussão forte para as nossas populações, e que naturalmente nos ajudará muito a viver e a nos situar em um mundo que não é simples, um mundo que é hostil, muitas vezes. Hostil que eu digo não porque as pessoas queiram fazer o mal, mas hostil porque a competição é dura, é dura. E isso se revela não só na realidade do dia-a-dia do comércio mas nas mesas de negociação. E quanto mais unidos estivermos, mais fortes estaremos, mais a nossa voz será ouvida, mais teremos influência nas decisões e, portanto, mais seremos capazes de beneficiar os nossos povos.
Muito obrigado