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Discurso do Ministro Celso Amorim por ocasião da cerimônia de entrega da Grã-Cruz da Ordem Piana, pelo Núncio Apostólico – Brasília, 4 de março de 2010
Sinto-me honrado com a concessão que me é feita da Grã-Cruz do "Ordine Piano".
O povo brasileiro comunga com a Igreja Católica, acima de tudo, valores. O humanismo, a solidariedade e a universalidade são referenciais que inspiram todos os brasileiros, mesmo os não-católicos. A grande maioria da população brasileira foi criada e educada em torno desses marcos civilizatórios, que colocam a vida humana no centro das preocupações.
São valores como esses que também orientam a nossa diplomacia. A presença do Brasil no Haiti, por exemplo, foi e é motivada, pelo espírito de solidariedade a esse povo fraterno. Ou, como disse algumas vezes, pela noção de que, em certos casos extremos, a não-intervenção tem que ser matizada pela não-indiferença, desde que as ações estejam amparadas em decisões multilaterais legítimas.
Depois da tragédia que acometeu nossos irmãos haitianos, o compromisso do Brasil com a reconstrução e o desenvolvimento do país, que já era forte, se tornou irreversível. Talvez ninguém simbolize melhor essa solidariedade movida por valores, e no caso dela, também pela fé cristã, do que a Dra. Zilda Arns, a quem aproveito para estender minhas homenagens. O adágio segundo o qual "o desenvolvimento é o novo nome da paz", conforme o ensinamento do Papa Paulo VI, é um conceito caro ao Governo do Presidente Lula.
O Acordo-Quadro entre o Brasil e a Santa Sé, que acaba de entrar em vigor, é o primeiro de nossa História com essa abrangência. Ele abriga todas as normas de convívio com a Igreja Católica na legislação brasileira e oferece uma moldura legal a nosso relacionamento. A conciliação entre os preceitos do acordo com a natureza laica do Estado brasileiro exigiu muito trabalho diplomático, por vezes árduo. Aproveito para cumprimentar a Embaixadora Vera Machado, que era nossa Representante junto ao Vaticano, e a Embaixadora Edileuza Reis, Diretora do Departamento de Europa, que não pôde estar conosco aqui hoje, pelo empenho nas negociações que conduziram ao Acordo.
Tive grande satisfação em acompanhar o Presidente Lula em visita de Estado ao Vaticano, em 2008, quando o Papa Bento XVI acolheu a comitiva brasileira. Antes disso, tive a supina honra de ser recebido em audiência privada pelo Papa João Paulo II. Na ocasião, fui portador de carta do Presidente Lula que associava o Brasil ao apelo de Sua Santidade pela cessação de hostilidades no Iraque. A profunda crença na diplomacia como forma de evitar que a paz seja preterida pela guerra é compartilhada, historicamente, pela Santa Sé e pelo Brasil.
A Ordem Piana foi criada, em seu formato atual, pelo Papa Pio IX, considerado, por muitos historiadores, como um pontífice de ideias avançadas. A abolição das leis de segregação contra os judeus é testemunho de seu espírito ecumênico. A tolerância e a aceitação do outro - valores que estão no centro do catolicismo - são parte indissociável do espírito brasileiro e da formação do nosso povo.
O Núncio Apostólico é o decano do corpo diplomático em Brasília. Como diplomata de carreira, embora já aposentado, sinto-me ainda mais prestigiado por receber essa distinção tão especial das mãos de Vossa Excelência Reverendíssima, a quem peço que transmitir ao Secretário de Estado do Vaticano, Dom Tarcísio Bertone, e a Sua Santidade, o Papa Bento XVI, meus mais sinceros agradecimentos.