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Discurso na cerimônia de formatura da Turma 2004-2006 do Instituto Rio Branco - Brasília, 2 de maio de 2007
Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Dona Marisa, Ministra Nilcéa Freire, minha mulher Ana, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Embaixador Fernando Guimarães Reis, Professora Sarah Walker, paraninfa da turma, Ministro Waldir Pires, que nos honra também com a sua presença, Embaixador Guy Mendes Pinheiro de Vasconcelos, Senhores e Senhoras Embaixadores e Senhores Diplomatas, meus queridos formandos. Eu queria dizer umas poucas palavras na abertura desta cerimônia, que é importante não só para os que se formam, mas para o próprio Itamaraty, para a instituição, porque é um momento de renovação da própria casa. Queria manifestar a alegria de receber os jovens colegas, alegria de ver também entre os novos colegas – uma turma, creio, de vinte e nove alunos – cerca de um terço de mulheres, o que é também um símbolo de renovação da nossa casa. Uma alegria que, naturalmente, é simbolizada pelo fato de termos a diplomata Maria José Mendes Pinheiro de Vasconcelos reconhecida como a primeira mulher a ingressar no Itamaraty. Uma história em si mesma interessante, pela luta, pela dedicação, pelo debate que despertou na época. O Jornal do Brasil, que é um dos jornais daquele período que ainda sobrevive, defendeu o caso (Carlos de Laët, que era um grande jornalista daquela época, defendeu a entrada, também com o apoio de Rui Barbosa, que deu parecer jurídico favorável), mas também um jornal que infelizmente não existe mais, o jornal A Rua – cujo nome é significativo, por um lado, mas que não espelhava a visão do povo, provavelmente apenas de uma parte da elite, chegou a dizer que o Itamaraty estava sofrendo de uma perigosa tendência feminista. Não sei se essa mesma crítica se faria nos dias de hoje, mas é sem dúvida alguma um sinal dos tempos, não só porque temos uma turma com tantas mulheres, mas também uma turma que tomou a decisão de homenagear as mulheres. Presidente Lula, o seu Governo tem sido, nesse aspecto, muito inovador. Pela primeira vez temos uma situação em que cerca de 10% das chefes de missão são mulheres. Pela primeira vez tivemos duas subsecretárias mulheres (“sub” pode parecer pouco, mas subsecretários podem algumas vezes assumir o Ministério como Ministros Interinos, embora por pouco tempo, mas, de qualquer maneira, isso já ocorreu). Pela primeira vez, temos também uma chefe de gabinete que é mulher. Temos, igualmente, uma Embaixadora nas Nações Unidas. Todos os que visitarem nossa missão – não agora, mas daqui a cinco, seis anos – poderão ver, naquela galeria de retratos, o retrato da Maria Luiza, que é a primeira mulher nomeada Embaixadora nas Nações Unidas. Refiro-me a esses temas, Nilcéa, porque creio que nisso não vai nenhum favor, nem a rigor nenhum esforço especial da administração. Basta que nós não permitamos que preconceitos se manifestem, porque o preconceito é algo que, por natureza, ninguém reconhece. Preconceito é algo latente, inconsciente, que nos exige esforço e policiamento para não se manifestar. Bastou, portanto, afastar o preconceito para que as mulheres emergissem sem nenhuma necessidade de favor ou de alguma ação especial. Há outro aspecto, porém, das discriminações na nossa carreira sobre o qual temos que fazer algo mais. Apenas começamos. E eu até lamento que não esteja hoje aqui a minha querida amiga Matilde Ribeiro porque, como mulher e negra, ela sofre de dupla discriminação. Ou seja, ela simboliza uma parte da população que sofre de dupla discriminação.
Temos procurado também avançar na questão racial. Temos tido programas de ação afirmativa desenhados de maneira muito especial, porque eles visam, ao mesmo tempo, assegurar o mérito mediante programas – cujos detalhes não vou descrever, mas que muitos conhecem – de bolsas de estudo. Temos conseguido aumentar o número de negros, de afro-descendentes na nossa instituição. Eu queria dizer que isso também não é nenhum favor aos indivíduos que são afrodescendentes. Trata-se de uma necessidade do País, de uma necessidade do Itamaraty, de uma necessidade da instituição, que deve não só reconhecer-se como uma entidade dotada de alta capacidade técnica e intelectual, mas também verse como instituição que reflita o que realmente somos, que reflita qual é o Brasil que nós representamos. Preciso dizer, em reconhecimento também ao trabalho feito por muitos antecessores, que bastante já foi feito. Eu me lembro ainda – bem como alguns colegas que estão aqui devem lembrar-se – de quando eu entrei para o Itamaraty, época em que 90% ou eram cariocas ou tinham ido para o Rio de Janeiro antes e estudaram lá. Mas não eram bem do Rio de Janeiro, eram de um pedaço do Rio de Janeiro que ia do Flamengo ao Leblon. Fora disso, era uma ou outra exceção que entrava para o Itamaraty. Muitos progressos foram feitos durante esses anos. Nós temos hoje uma grande representação regional do Brasil, pelos perfis de todos os Estados, mas temos sentido que ainda, em alguns aspectos, há caminho a percorrer. E para concretizar um desejo seu, Presidente, de termos uma sociedade igualitária em todos os aspectos, inclusive no aspecto étnicoracial, ainda há um caminho a percorrer. Fica o desafio para o nosso Embaixador Fernando Reis, que tem participado ativamente desse processo. E eu, Presidente, creio que, em um dia como hoje, não devo expandir nas palavras, pois as pessoas querem ouvir depois as dos formandos, paraninfos e homenageados. São as suas palavras que interessam, que contam. Mas eu queria também fazer dois outros comentários: um, sem procurar criar nenhuma sigla nova, mas, de uma maneira quase que espontânea, ao ver as notas para esses meus comentários, ocorreram-me três “R’s”. Lembro-me aqui dos três “D’s”, do famoso e saudoso Embaixador Araújo Castro: desenvolvimento, desarmamento e descolonização. Eu me lembrei de três “R’s” hoje: reforma, rejuvenescimento e renovação. Isto é o que o seu Governo, por meu intermédio, por intermédio do Secretário-Geral, do Diretor do Instituto Rio Branco, de todos os Embaixadores, tem procurado fazer. É muito importante que os jovens sintam não apenas que entraram para uma carreira na qual, desde o primeiro momento, poderão ter funções importantes (porque na vida do diplomata é assim: o mais jovem Terceiro Secretário já é chefe. Como dizia o Embaixador Silveira, onde quer que haja a plaquinha do Brasil e alguém diante dela esteja falando em um foro internacional, essa pessoa já tem uma grande responsabilidade), mas é importante que também percebam que podem ascender aos postos mais altos da casa. Eu, Presidente, enquanto merecer a sua confiança, continuarei empenhado nesse trabalho de renovação da carreira. Um exemplo incidentalmente mencionado é o da Embaixadora Maria Luiza, mas há muitos outros. Isso sem prejuízo de podermos contar, de alguma forma, com a sabedoria daqueles que são experientes. Mas é preciso complementá-la com a energia e a criatividade dos jovens. Presidente, eu queria simplesmente, para finalizar, dizer que todo esse grande esforço que nós temos feito em relação à carreira (esta turma é de 29 alunos, mas a próxima já será de 100, porque nós estamos, num período de quatro anos, aumentando os quadros em 400 vagas) está sendo imitado, inclusive, por outros países. Esse esforço todo não teria sentido se não fosse para executar uma política externa que realmente nos inspira. A política externa, Presidente, eu não diria apenas que é o combustível, mas que é o biocombustível da nossa ação, da dedicação dos diplomatas a essa função tão importante. Sem entrar em grandes detalhes, eu diria que caberá a Vossa Excelência, se assim o desejar, fazer algum balanço ou alguma projeção para o futuro. Mas eu queria dizer que a nossa política externa, sob sua condução direta (eu digo direta porque sei do interesse que Vossa Excelência dedica ao tema) quebrou tabus, rompeu desafios, aprofundou posições que eram processadas, mas que não eram levadas adiante com tanta intensidade – como a integração da América do Sul. A atual política externa também desvendou novos horizontes, com países ricos e com países pobres: criamos o G-20 e contamos com o G-4 (aliás, há dois livros novos sobre o G20 e sobre o G-4 que serão distribuídos, espero que ainda hoje). Portanto, Presidente, é uma política externa que realmente causa orgulho por ser também o complemento indispensável de uma política interna, de uma ação interna do Governo voltada para uma reforma social e democrática. O seu Governo, Presidente Lula, busca igualdade sem suprimir a liberdade. Ele busca o diálogo sem ter medo da crítica. Eu diria que isso para nós todos – e para mim, pessoalmente, como o diplomata mais velho, já aposentado – é motivo de grande honra. Sinto que todos podem sentir-se muito honrados de estar servindo a este país neste momento histórico. No mais, eu queria também dar a minha palavra de felicitações aos jovens que entram para a carreira, aos pais, que tanto se esforçaram, aos demais parentes que estão aqui e agradecer, mais uma vez, Presidente, o apoio que Vossa Excelência tem dado à casa de Rio Branco.